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(In)ternidade – 17 – Ignição.

Uma música tocava ao longe. Esta música também fazia minha cabeça doer, girar, e até sangrar. Com as mãos amarradas para trás e com a promessa de ser queimado vivo eu esperava e assistia, Tália mergulhando numa grande montanha branca de pó. Henrique assistindo tudo, longe daquilo, como se quisesse resguardar sua saúde mental para deliciar ver-me morrer. Ele poderia ter acabado com aquilo tudo levantando-se e espalhando meus miolos pela parede, eu veria uma imagem preta aumentar, sentiria meus neurônios desligarem e a morte, finalmente, me abraçaria, me afogaria, me enterraria. Amarrado naquela cadeira eu comecei a sorrir, Henrique notou que eu sorria, notou que não estava em estado de terror. Ele me dera uns dois ou três socos. Todos a mando de Tália. Logo eu estaria com Poliana, logo não precisaria me preocupar com as coisas simples da vida, logo eu responderia a questão sobre o que vem depois. Nada disto me assustava, nem a dor que eu teria que passar no processo de finalização da vida. Tudo fazia parte, tudo fazia o seu sentido. A dor que eu sentia agora, a dor que viria no futuro. Eu vi os galões de gasolina, provavelmente irei arder em chamas, mas tentarei não dar nenhum grito, morrer silente como os monges budistas. Tália estava com aquela mini-saia meia bunda, blusinha rosa sem graça. Tinha tomado banho, os cabelos molhados grudavam nas costas. Seu nariz branco como se estivesse levado uma bola de neve na fuça. Preparava as carreirinhas, uma fileira após outra, dai sugava tudo com uma nota de dinheiro enrolada. Entre uma fungada e outra ela gritava e chorava, me acusava, com razão, de ter comido sua irmã. Outra fungada, mais alguns dos seus minutos de raiva. Henrique só assistia.

Tanara adentrou ao recinto. Disse para Henrique que estava tudo pronto. Ele tinha uma tristeza nos olhos ao ver que era eu. Começo a pensar que Tanara é gay. Henrique disse que iria esperar apenas mais um pouco, quando estivesse quase amanhecendo, disse Henrique, ele acenderá a fogueira. Um silêncio tomou conta de todos nós. Faço minhas contas, penso em tudo que vivi, tudo aproveitei. Pensei que valeu a pena, não me arrependo de quase nada, e do que me arrependo não poderei voltar atrás. Tália continuava o seu showzinho. Ela tinha começado este muito mais cedo. Creio que ela e Calíope acabaram conversando e resultou no dia de hoje. Eu havia acabado de chegar em casa, era umas três da tarde, fiquei toda a manhã com Eva. Como as coisas são engraçadas, de risadas a tristeza num pulo. Ficamos deitados grande parte do amanhecer, nus e risonhos. Fumamos alguma maconha que ela tinha guardada. Ela me conta mais sobre sua vida, fatos relevantes, fatos não tão relevantes, e completudes. A sensação de fazer o tempo passar devagar. Tanto para mim quanto para Eva, que não se importava muito com esta velocidade do tempo. Se o tempo parasse e ficasse numa volta de rotina, talvez eu não me importasse tanto assim como imaginava que importava. Com cigarros e bebidas, nem mesmo as fodas se fariam importante. Meus próprios vícios solitários, estava ficando cada vez mais velho, cada vez mais solitário, cada vez mais distante de tudo. Porém, ríamos, com o efeito da maconha e tudo. Bebíamos mais e riamos. As risadas tem um efeito a curto prazo em nossas vidas, como se fossem resolver tudo, mas é paliativo. A alegria é o placebo para a miséria. E talvez esta alegria não me tenha feito ligar os pontos, todas as evidências mostravam que tinha alguém na minha casa, mas as ignorei, simplesmente ignorei.

Senti apenas o cano frio do revólver de Tanara. Ele perguntou para Henrique se poderia me apagar ali mesmo, mas Henrique respondeu que tudo dependia de Tália. Ao ouvir o nome da menina eu me assustei. Tália estava sentada no meu sofá. Estava bêbada, no mínimo. Pensei em algum tipo de reação, mas seria apenas para abreviar a dor de viver. Tanara é muito bom no seu ofício, ele explodiria meus pensamentos e iria tomar uma cerveja logo em seguida. Tália se aproximou. Ela estava puta da vida, gritou comigo, queria saber como eu poderia ter comido a sua irmã, logo a sua irmã. Não respondi, não haveria resposta, por mais que eu tenha ficado com Calíope antes de Tália e não sabia do laço de sanguíneo das duas. Eu apenas olhei para os olhos de Tália, aqueles olhinhos de bode. Tanara perguntou mais uma vez se poderia atirar. Ele, provavelmente, tinha outro compromisso depois dali. Todos olhamos ansiosos para Tália. Mas ela disse que morrer assim era muito pouco para mim, eu tinha que morrer sentindo muita dor. Toda a dor que eu a fiz passar. Me perguntava que dor era aquela? Tália só se preocupava com o dia de amanhã quando estava sóbria o bastante para olhar num calendário. Talvez fosse loucura dela, talvez ela tivesse pirado. Não sei a reposta. Ainda desafiando Tália eu disse que tinha escolhido Calíope porque sabia que haveria algum futuro, e com ela apenas o momento de morte. Tália começou a chorar, pensei que ela ia mandar atirar. Fechei os olhos, esperei o estrondo. Tinha medo de cadáveres que morriam com os olhos abertos, aquelas massas cinzas no lugar dos olhos. Esperei por um momento o que levou uma eternidade, Tanara estava ansioso para atirar, por ele já tinha disparado. Henrique esperava pacientemente as ordens de Tália. Nossas respirações em sincronia. Escuto Tália chorando, ela me batia no peito perguntando o porquê. Ela disse que me amava. Senti uma energia ruim vindo do lado de Henrique. Ouvir uma declaração destas não é fácil. Agora, creio que ele esteja mais ansioso para me matar do que qualquer um naquela sala. Novamente eu escuto Tália dizendo que queria com dor, queria que fosse com muita dor. Ela o que ela me dizia quando pedia para que eu comesse o seu cu. Sinto apenas a pancada na cabeça e o mundo escurece de vez. Mais uma noite sem sonhos.

Acordo com um balde de algo que achei que era água. Estava muito frio para ser água. Provável ser álcool. Estava completamente amarrado em algo que parecia ser uma garagem. Uma música alta, Funk, tocava. Não sabia que horas eram nem em que lugar estava, porém Tanara, muito contrariado, Henrique e Tália eram meus anfitriões. Tália estava cheirando tudo o que podia e bebendo também. Henrique me deu uns tapinhas no rosto, me disse que tudo aquilo era ideia de Tália. Seus olhos tinham um gotejo de tristeza e pressa. Ele sabia que teria que ser praticamente um genocida maior que Stalin para dar cabo de todos os caras que Tália tinha fodido. Mas eu seria o principal exemplo, uma bandeira flamejante num mastro de rola. Henrique me diz que aquilo era álcool, confirmando minha teoria e que iria me fazer brilhar. Que irônico, morrer com o álcool; melhor amigo que já tive. Tália continuava sua crise de pó. Tália pediu para que Henrique me batesse. Ele me deu uns socos, mas nada muito másculo. Eu estava sorrindo, não porque era debochado, mas porque toda a merda iria ficar para trás. Meu problema com Calíope, meu problema com o mundo, meu problema com Tália. Ela resolveria de maneira drástica e dolorosa todos os meus problemas passageiros definitivamente. Tudo o que eu queria era tomar mais um trago, talvez uma fodinha com aquela boceta inesquecível e perigosa. Mas, o que resta para o náufrago são apenas migalhas de uma dor que será eterna.

Tália vem até a minha direção. Ela pega a arma de Tanara e aperta na minha cabeça. Ela grita que podia acabar comigo ali, naquele momento. Tália não sabe segurar a arma, com o gatilho sensível, realmente ela poderia disparar sem querer e me matar. Ela aperta o cano na minha têmpora, pergunta se eu vou achar engraçado isso. Ela grita, me acerta com o cabo do revolver e abre meu supercílio. O alcool em meus cabelos escorrem para o corte e começa a arder muito, mas resisto à dor. O sangue cruza meu rosto de norte a sul. Tália está olhando para ele, o brilho dos seus olhos refletem meu sangue, minha dor e minha liberdade. O cano deixa uma marca na minha têmpora, um anel completo, era o pedido de casamento de Tália para mim. Falo para ela de Mônica, que está deixando sua mãe preocupada. Tália não diz nada, apena começa a cheirar de novo. Henrique toma a frente e decide por um fim. Ele olha para Tanara e diz que já deu. Dai jogam mais álcool que faz meu corte arder muito e meus dentes baterem.

Esta era a hora. Tudo doeria alguns minutos até minhas terminações nervosas serem consumidas pelo fogo. Dai seria um corpo carbonizado, fundido naquela cadeira, dado como desaparecido. Nunca mais ouviriam falar de mim e meus restos seriam jogados em qualquer lugar, como já fizeram uma centena de milhares de vezes. O álcool cai no meu corpo, resfriando tudo, sinto cada partícula daquela substância se apregoando a mim, sinto cada minuto de dor que terei antes de cair nas eternas trevas. Penso nas pequenas coisas que eu não tinha feito e nas muitas que fiz, toda a história até aqui e o mistério que o futuro será. Henrique está procurando sua caixa de fósforos no bolso. Eu quase digo que estava em cima da mesa, perto da pilha de cocaína. Não darei esta colher de chá, eles que procurem enquanto eu sinto o álcool corroer minhas feridas. Porra Tália, poderia não ter cortado meu supercílio. Todos nós ouvimos um baque. Tália caiu da cadeira. Quando olhamos, ela estava esparramada no chão, com o nariz sangrando e os olhos revirados. se estrebuchando toda, quase como um exorcismo. Eu gritei que ela estava tendo uma overdose, que deveriam colocá-la de bruços senão ela iria sufocar no próprio vômito. Ela continuou a se debater, Tália estava morrendo. Gritei que precisávamos chamar uma ambulância, Tália iria morrer se não o fizéssemos. Tanara apenas ficou olhando. Henrique me disse que não poderia, tinha muita droga naquele lugar, nada poderia fazer, ele estava abraçado com Tália, enquanto a menina se tremia toda, o sangue brotava-lhe ao nariz e os olhos eram apenas duas aberturas brancas.

Essa era a forma de Tália encarar o intragável. De tanto querer sair do mundo ela encontrou a pior forma de adentrá-lo. Sua relação com Calíope nunca foi das melhores, sua relação com o mesmo mundo nunca foi das melhores. Calíope era o exemplo que Tália precisaria seguir. Sem uma figura paterna, apenas com a mãe precisando se desdobrar em milhares para dar conta de um lar semi-estruturado. Tália estava ali para trazer um pedacinho do inferno na calmaria e passividade da vida de ambas. Ela estava sozinha, caindo livremente, tentando fazer o melhor para ser diferente. Não sabe-se quando o clique para sua contagem final se deu, aos quatorze, quinze, dezesseis, não é sabido. Mas sua queda livre, arrastando todos que estavam ao seu redor fazia-lhe uma parte inimaginável do mundo. Agora amarrado na minha cadeira, vendo aquela vela se apagar, naquela garagem imunda, rodeado pelas pessoas que ela passou a se envolver. Tanto eu quanto Henrique quanto Tanara e o resto do mundo eram escória, pessoas feitas de merda e bosta do qual transformara a vida promissora de uma guria em um inferno de vícios e destruição. Ver Tália morrendo foi uma martelada de certificação, foi minha garantia de empurro, sim, eu fui mais um que auxiliou o despencar do abismo daquela menina que, aos tremeliques, se afogava no próprio vômito. Esta é uma das formas mais escrotas de se morrer, afogado no próprio vomito, da maneira podre e porca. Morta pelo excesso da felicidade, do placebo da vida, pela anestesia da realidade cura, fria, fatal.

Eu gritei novamente para a levarem ao hospital. Henrique disse que não poderia sair dali, não ia ter como levar, pensei em tê-lo visto chorando, mas nunca terei de fato certeza do que eu vi. Tália estava vomitando ainda mais, a poça de vomito se fez em seu rosto, ela iria sufocar. Henrique me disse que se eu quisesse eu poderia levar Tália, meu carro estava lá com eles, me trouxeram nele. Passou pela minha cabeça porque não, simplesmente tocavam fogo em mim e deixava nos deixava morrer ali, carbonizados e unidos. Teria sido perfeito, para eles, terrível para sua família. Consigo imaginar as milhares e milhares de noites sem dormir de Mônica dali em diante, achando que a filha fugira comigo, quando sua ossada carbonizada repousava em algum brejo fétido pelo resto dos dias. Ela nunca saberia que a filha, o fruto do seu ventre, teria morrido de maneria tão desgraçada, e que, novamente, poderia me culpar disto. Surpreendera todos os atos de Henrique mas. ele gostava de Tália, tanto para não conseguir agir no momento certo da hora certa. Ele me desamarra, ainda estou com um cheiro forte de álcool. Eles me levam até meu carro. Levo a garota nos braços, muito magra. Ela tinha realmente ficado muito magricela duns tempos para cá, os seios pequenos, a bunda reta, ossuda. Não tinha reparado o quanto que Tália havia regressado á uma forma bizarra. Ela estava muito leve nas minhas mãos, quase como se fosse frágil, feita de papel. Passamos por corredores estreitos. Fui na frente, com cuidado para que não esbarrasse com Tália em nada. Eu sentia os olhos e os canos dos revólveres nas minhas costas, mas não faria nada, minha prioridade era Tália. O lugar parecia muito um conjunto de galpões desativados. Estávamos no cu do mundo, muito longe para qualquer coisa. E um baile Funk estava acontecendo, a música irritante me acertou em cheio no peito. Muita gente perigosa. Henrique fala para Tanara voltar, tinha que cuidar do que eles tinham naquele galpão, para arrumar tudo e dar o fora. Ele ainda olha mais uma vez para Henrique antes de acatar sua ordem. Aquela seria a última vez que eu veria Tanara. Sua servidão cega e incontestável, sem um motivo lógico para tal. Ele morreria alguns dias depois, de uma forma ridícula e imbecil. Um acidente de carro, um caminhão o acertaria em cheio. As coisas acontecem quando se menos espera, e provavelmente se ele tivesse dado ignição na minha dor, ele não estaria no carro esmagado pelo caminhão, logo, eu vivo, ele morrerá, mas, naquele momento o vi simplesmente partir. Meu caro não estava tão longe, os babacas iriam o desmanchar e vender os pedaços, ganhar alguma graninha, comprar mais merda, estas coisas.  Henrique me dá as chaves; afasto todas as garrafas vazias que estão largadas no banco de trás, elas fazem uma doce sinfonia alcoólica. ponho Tália no banco de trás, me acomodo no lugar do motorista e dou a ignição, fedendo a álcool, era para eu queimar, mas o universo conspirou contra. Giro a chave, dou a ignição e parto em alta velocidade para o hospital. Deixo ambos os assassinos para trás. Os deixo para tentarem me matar de novo da próxima.

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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