Textos

Apocalipse.

O cansativo dia chegara ao fim. Os ônibus estavam lotados, era sexta-feira, não podia esperar coisa diferente. Haveria jogo de futebol e ela morava próximo a um estádio. Pensou em todos estes detalhes enquanto fechava o zíper de sua mochila. Arrumou todos os restos do seu turno e, agora sim, estava pronta para partir. Na mochila citada: Restos de comida; alguns cadernos; um livro; maquiagem e todo um universo de fios e carregadores. Como se precisasse carregar aquela lembrança de casa nas costas, um peso, uma forma de lembra-se como era bom e dispendioso morar sozinha. Os pais ficaram para trás, em outro estado, em outro lugar. Buscar ganhar a vida, crescer, se tornar o que sempre sonhara tomava suas onerosidades e, carregar tais coisas para depois limpá-las, exceto os eletrônicos, fazia parte da fatídica rotina.

Ao fechar a porta e, assim, ser a última no pequeno prédio de três andares, onde se instalara a agência de publicidade, do qual se faz estagiária, teve grande impacto. Apenas o gordo segurança estava lá, para se despedir e desejar o bom final de semana. Júlio se aposentaria em dez ou doze anos, teria finalmente tempo para dedicar-se a pescaria, hobby tão amado.

– Bom final de semana – Júlio acenou, ainda sentado na cadeirinha de plástico que sumiria naquela corpo todo. O sorriso que dera como resposta, para o gordo segurança, pareceu desaforado, não como se buscasse seduzi-lo, mas como se o esnobasse. Sabia que não tinha sido a intensão, estava cansada, e esta preguiça injustificada de apenas falar, dizer, agradecer pela gentileza, poderia ser denunciada por ela mesma. O levantar de sobrancelha e o meio sorriso parecera tão falso, martelou isso durante algum tempo. E se fosse a última vez que visse Júlio, o segurança? O mundo poderia acabar e seu último gesto preguiçoso foi um leve levantar de sobrancelhas. Sentiu-se mal, porém o mau já estava feito. Júlio fechara a porta e a rua tomara seus ares. O fim de tarde alaranjado, saudoso, lusco-fusco. Os carros estavam engarrafados, os ônibus demorariam, e lá estava ela, como um caramujo, carregando a sujeira para a casa, os pesados cadernos, os restos de comida, e o sorriso preguiçoso dado para Júlio. O suor na fronte escorria sutilmente. Sentiu-se suja, precisava tomar a condução o quanto antes.

Dentre as milhares de buzinas encontrou a carona para casa. Ficou uma única vez com aquele rapaz e depois ignorou todas as formas de contato. Ele vez a proposta: Te dou uma carona, é meu caminho. Se tivesse pensado melhor, teria declinado, mas um acidente de avião é feito da soma de vários erros: Do piloto que acordou com dor de cabeça, até o mecânico que não aperto aquele parafuso. Em pensar no que fizera a Júlio, um gesto que para o mundo não foi nada, porém será lembrado no seu final, pensou que, precisava se redimir com as entidades cósmicas imaginárias, e sem um sim ou um não entrou no carro, apertou o sinto e se acomodou no banco do carona. O rapaz se fez simpático, sua descrição não é importante, pois, é um rosto que será esquecido quando a multidão passar.

– Que sorte, eu nunca passo por aqui, mas achei que não haveria trânsito por causa do jogo! Você nunca mais falou comigo, está sumida! Aquela festa foi tão legal, falei com Roberto, ele marcará uma outra em breve, precisamos combinar.

– Sim, eu andei muito ocupada, todos os meus amigos reclamaram da minha sumida. É que agora com o trabalho e com o ir e vir da casa dos meus pais, não tenho tempo nem para mim – ela tentava manter o assunto, tentava fazer simpática. Aquele rapaz não teria conversa para muito tempo, ela estava em seu domínio, em seu reino, e tudo poderia acontecer naquele tácito momento. Ela não deveria ter entrado no carro, pensou nisto diversas vezes enquanto completava as frases maquinalmente e sorria verbalmente. O trânsito completamente parado faria a situação piorar. Ela, por um flash de momento, viu-se casada com aquele rapaz, com filhos daquele rapaz, com as dívidas daquele rapaz.

– Acho melhor eu ir a pé, vamos ficar o fim de semana todo aqui – ela disse, saltando do carro. Apenas ouviu o rapaz gritar um “me liga” que será prontamente ignorado.

Andou apressadamente pela calçada. A longa fila de carros, o calor, o som alaranjado, a dor latente na cabeça e a vergonha. Queria morrer, por um segundo, mas tinha medo de morrer e se arrepender, daí não dar mais para voltar. O rapaz ficara muitos carros na distância do caminhar, e ela estaria muitos carros na distância do seu apartamento, cama, descanso. Andar talvez não fosse a melhor ideia, mas também se formara como a única ideia. Um grupo de torcedores gritava, cantava e despejava uma alegria que ela não conseguia compreender. Eles comemorariam até o fim do mundo de maneira boba, inútil. Pensou no medo deste mundo acabar neste dia. Estava demorando demais para anoitecer, e a manhã demoraria para chegar. Talvez nunca chegasse. Vivia com medo do futuro e das suas decisões, vivia com medo do dia do casamento, da gravidez, dos filhos, do destino, da morte dos pais. Para ela, morrer antes disto tudo seria uma vantagem, mas como dito, seu medo em partir a mantinha ainda mais firme no mundo dos vivos.

Todos os torcedores urravam. Ela decidiu sentar-se no banco da parada de ônibus. Uma velha, outro homem, um garoto e uma menina acompanhavam aquela solidão. todos olhando afoitos a chegada da condução, como se o trem que saía de Auschwitz passasse por ali. Seus rostos brilhantes pelo suor, seus olhos tão cansados como os do dela. Perceber que estas pessoas tem, cada uma, um sofrimento atual ou futuro, fazia suas dores serem mais suportáveis, mas não menos angustiante. Pensar em cada passo, planejar tudo para que, um dia o sol engula nosso planeta, um meteoro acabe com nossa existência, ou coisas fins aconteçam era tranquilizante e terrível. Ela pensou que, talvez não fosse a geração que veria o fim do mundo, mas sabia que um dia esta geração existirá. A tranquilidade que seus professores davam ao abordar o assunto do fim do mundo, que já estaríamos mortos quando acontecesse, a faria dormir com um pouco mais de tranquilidade, durante a infância, mas este medo voltou,  surgiu com a maturidade e com as contas para pagar. Agora, ela, presa num trânsito, com torcedores, e um perseguidor de bom coração, não dava um caminho sensato para seguir. Apenas uma grama do mais puro medo e sofrimento.

O ônibus finalmente chegou, foi banhada pelo ar-condicionado e pelos vidros fumê. Na próxima  hora pode ver o fim do mundo, sentada, na melhor poltrona da condução, aquela que você não divide com ninguém, aproveitando o melhor do tóxico ar condicionado, ouvindo os louvores do motorista evangélico fervoroso, sentindo o cheiro dos salgadinhos baratos, que lembravam a vômito. Enquanto a dor de cabeça escalava sua coluna até toda a caixa do crânio. Vira o mundo arder, lentamente, vira as pessoas morrerem, derreterem, se tornarem cinzas. Viu a dor no estado bruto, o sangue e as vísceras. Viveu para ser testemunha do apocalipse. Viveu para ver o fim de tudo que era conhecido. Porém, acordou com o mágico poder de despertar uma parada antes da sua. A noite já estava alta, o zumbido do estádio já estava forte. Conseguira chegar, sobreviver ao fim do mundo, aninhar-se no seu quarto e guardar os eu corpo para a geração futura. Os futuros rebentos, herdeiros das depressões, angústias e tristezas, sabendo que pode ser que estejam mortos quando o fim do mundo chegar.

Anúncios

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

0 comentário em “Apocalipse.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: