Textos

A Sabedoria dos Velhos

A psicanálise explica – e é bem óbvio, se você parar pra pensar – que na infância, nós enxergamos nossos pais, ou os adultos responsáveis por nós como heróis. Acreditamos que eles podem tudo, que eles sabem tudo. Enxergamos neles uma fonte de sabedoria eterna a qual sempre poderemos recorrer para decifrar os enigmas da vida. Essa crença nos acalma, nos tranquilizando em um período de caos interno que é nossa primeira infância. É uma boa crença, mas não deve durar muito.

Pouco tempo depois, ao passar pelo Édipo, a criança deverá aprender que os pais não possuem as respostas para tudo. Que eles também têm falhas, e que também buscam as respostas em outro lugar. Isso deve ser feito para que a criança possa passar a também buscar as respostas no mundo, e não nos pais. Caso contrário, corre o risco de tornar-se dependente deles e não conseguir se individualizar.

Fazer essa separação não é fácil, no entanto, e torna-se ainda mais difícil quando os pais ou cuidadores são narcisistas, e alimentam a crença da criança de que possuem todas as respostas. Afinal, qual o sentido de ter um filho senão para ter pelo menos uma pessoa na sua vida que te veja como um herói? Talvez seja por isso que hoje em dia muitos casais preferem ter cães hoje em dia. Animais domésticos não se tornam “rebeldes ingratos” quando ficam mais velhos.

Uma coisa que parece permanecer, no entanto, mesmo com a mudança dos tempos, pelo menos em algumas camadas da sociedade, é a admiração que alguns jovens e adultos alegam ter pela “sabedoria dos velhos”. Por mais que a minha geração tenha acesso a novas fontes de conhecimento que parecem infinitas, e que trazem informações precisas e atualizadas sobre o mundo, algumas pessoas ainda parecem acreditar que velhos possuem alguma “sabedoria sagrada”, que apenas eles podem oferecer, e que podem nos proporcionar uma visão mais realista do mundo. Eles falam como se os velhos possuíssem tudo isso pelo simples fato de serem velhos.

A princípio, parece haver algum sentido nisso. Afinal, quando nascemos, nossos pais têm décadas a mais de vida e experiência que nós, e por mais que o tempo passe e nos tornemos mais inteligentes, não é tão ilógico assumir que essas pessoas sempre saberão mais do que nós, já que estão vivas a mais tempo. Mas não é isso que acontece.

Eu mesmo passei muito tempo acreditando nisso, que mais tempo vivo equivaleria a mais experiência e a uma visão mais realista do mundo. Mas hoje eu percebo que a maioria das pessoas – incluindo aquelas da minha idade – parecem viver segundo a frase de Emil Cioran, um filósofo absurdista, que disse: “O que sei aos 60 sabia aos 20, 40 longos anos de um trabalho inútil de verificação”.

As pessoas não continuam aprendendo até a terceira idade. Elas não evoluem, necessariamente. Elas se preocupam em aprender e a se adaptar apenas até terem idade o suficiente para se sustentarem sozinhas – o que, no passado, acontecia muito cedo – e aí acreditam que já sabem tudo o que há para saber sobre a vida e não se preocupam mais com isso. Elas não precisam mais disso.

É claro que isso muda (as vezes) se a profissão da pessoa exige que ela se mantenha constantemente atualizada com os fatos do mundo. Se ela é uma pesquisadora acadêmica ou uma profissional que de tempos em tempos precisa acrescentar novas formações ao seu currículo, talvez possa se tornar uma autoridade na sua área. Na sua área. Não no resto da vida. Engenheiros, médicos e professores podem parecer saber de tudo e mais um pouco da área de seus estudos e ainda assim serem ignorantes quanto a todo o resto que acontece a sua volta.

Eu digo isso por que nunca vi um velho que me ensinasse algo de sua “sabedoria” sobre a vida que não fosse mais do que valores culturais ultrapassados ou meramente sua opinião pessoal. Profissionais e estudiosos podem me ensinar sobre seus estudos e sua experiência, mas quando decidem falar sobre a vida, não soam nada diferentes do que garotos de quinze anos que decidiram fazer um vlog.

E é interessante que hoje nós chamemos esses adolescentes de “influenciadores digitais” e os consideremos “formadores de opinião”. Vai ver eles são os novos velhos. Paramos de buscar as respostas com idosos e passamos a procurá-las com adolescentes. Muitos devem considerar isso algo decadente, mas eu não vejo a diferença: Velhos, adultos e adolescentes que oferecem opiniões sobre o mundo não passam de pessoas que adoram ouvir a própria voz e ter alguém que valide suas opiniões. Não são muito diferentes dos pais narcisistas aos quais me referi antes. Se não quiser ter um filho ou um cão, você pode muito bem ter um vlog.

E quanto a mim? Bom, eu até que gosto da minha voz, mas prefiro escrever do que fazer vídeos. Se gostou do texto, se inscreva no meu canal blog e deixe um comentário para validar minha opinião. Obrigado.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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