Crônicas Textos

As Pessoas Boas

Os estoicos diziam que nós não sofremos pelas coisas em si, mas pela interpretação que fazemos delas. Sofremos também por nos importarmos com as coisas das quais não temos controle. A chave para a felicidade, então, segundo eles, seria nos importarmos apenas com as nossas escolhas, e não com eventos causados por outros e que não podemos mudar. Isso poderia ser resumido muito bem em uma frase de Dalai Lama, que diz: “Se o problema tem solução, então não há por que se preocupar. Se o problema não tem solução, a preocupação é inútil”.

Parece uma boa filosofia. Quando algum sábio oriental ou filósofos ocidentais falam sobre ela, todos aplaudem, concordam, copiam suas frases em suas redes sociais. O problema é que quando você, pessoa normal, diz algo do tipo, a reação é diferente: Você não é um sábio estoico, você é um conservador alienado.

Hoje em dia existe uma exigência em certas partes da sociedade, normalmente de professores e profissionais das áreas de humanas, de que todos devam ser “engajados”. Todos devem se “importar com o coletivo”. Não importa se você mora no interior de São Paulo, você precisa se importar, se preocupar com tudo: Com as crianças que passam fome na África, com Trump e os mexicanos que estão sendo separados de suas famílias na fronteira, com os imigrantes sendo mortos no Oriente Médio, com os moradores, desculpe, com as “pessoas em situação de rua” (é muuuuito importante usar o termo politicamente correto) que vivem nas capitais, com as famílias indígenas sendo exploradas por latifundiários no norte do país, com as políticas do uso de agrotóxicos em alimentos transgênicos, com os pobres animais que são mortos em abatedouros ou torturados em laboratórios de pesquisa… O mundo é um lugar horrível, então a lista é interminável, mas não importa que a sua indignação seja inútil, e que você não consiga mudar nem afetar significativamente nada disso com o que você se preocupa, você precisa se preocupar com tudo isso. Isso é, se você não quiser ser uma pessoa má.

Eu viajei para o norte, recentemente, com um grupo de turismo. Fiquei no quarto do guia, que era dono da agência de viagens e comunista. Depois de nos levar em uma escola ribeirinha para nos mostrar o martírio das professoras e das crianças naquele lugar e de chorar escondido atrás de uma das casas (apesar de ver aquela cena no mínimo uma vez por ano em suas viagens), já de volta no hotel, ele nos fez um discurso sobre como aquela vida era difícil e sobre como “coxinhas” eram “filhos da puta” por falarem sobre “meritocracia”. Talvez por causa de todo seu ódio e preocupação, ele era gordo, fumava um maço de cigarros por dia e suspeito fortemente que fosse alcoólatra. Se o sentido da vida é ser mártir, este aí não deve estar muito longe de fazer o sacrifício final. Mas acho que Dalai Lama não aprovaria.

Enquanto estávamos no quarto, ele me perguntou o que eu fazia da vida. Disse que era estudante, e havia vindo na viagem por querer conhecer como as pessoas viviam ali. Nós havíamos visitado um homem que morava sozinho com sua família em uma casa na beira do rio e eu perguntei a ele se não se sentia sozinho por viver tão isolado. Ele disse que não, por que sempre que ouvia o rádio, ouvia como a vida na cidade era violenta e ele preferia continuar ali. Culpa das pessoas más. Eu disse ao guia que tinha uma ideia de fazer algo semelhante no futuro, viver isolado das pessoas em geral. Nisso ele respondeu:

– Ah, se eu tivesse coragem eu também faria isso, mas não consigo. Teve um cara que se formou comigo que fez isso, foi viver em uma cabana sozinho no meio do mato. Eu disse a ele que ele era louco, mas sabe o que ele me respondeu?

– O que?

– “Louco é você, cara, que vive no meio dessa loucura toda. Me diz aí, qual a primeira coisa que você faz quando chega na sua casa?” e eu “sei lá, acendo a luz? Ligo a TV?” e ele “a primeira coisa que você faz é trancar a porta. E eu nem porta na minha casa tenho, irmão”.

Eu achei interessante o fato de ele achar que foi a violência das “pessoas más” que me fez ter a ideia de me isolar do mundo, assim como fizeram com ele e seu amigo. Em nenhum momento ele pensou que pudesse ser, na verdade, a violência das “pessoas boas”, como ele. Por que das pessoas más, com alguns recursos, você pode se defender, colocando muros, alarmes e sistemas de segurança em sua casa. Mas essas “pessoas boas” estão em toda parte: No seu trabalho, na sua escola, no meio da rua e na sua própria família. Hoje elas infestam também as redes sociais, vigiando cada palavra que você escreve, na esperança de encontrar alguma maldade para combater e ganhar curtidas.

Não são as “pessoas más” que fizeram da minha vida e da de muitas pessoas à minha volta um inferno. Muitas das vítimas das pessoas más aceitam com resignação a condição na qual foram colocados pelos “opressores”, e ainda assim tentam ser felizes e extrair algo de valor de suas vidas. Tentam não se importar com o que sabem que não podem mudar, como os estoicos e os budistas. As “pessoas boas”, ao contrário, não ficam felizes a menos que todos ao seu redor estejam como elas: Sofrendo, revoltadas e preocupadas com tudo. São melancólicas masoquistas, que, como disse LaVey, “não se definem pelo que são, mas por aquilo que são contra”. Seu martírio é o que dá sentido a suas vidas, e aqueles que não querem servir de mártir são alienados, devem ser convertidos ou humilhados. Esses são os zumbis dos quais eu quero distância.

Eu não sou contra nenhum tipo de revolta, nem mesmo aquelas que são nitidamente inúteis. Mas quando esses mártires não aceitam defender seus pontos de vista sozinhos, e querem converter todos ao seu redor com sua ideologia, como se fosse um cristianismo 2.0, um vírus degenerativo que te impede de ter uma vida feliz, aí eu acho que essas “pessoas boas” são um problema. E quero que elas vão para o inferno.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

1 comentário em “As Pessoas Boas

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