Textos

A caça e o caçador.

– Pode atirar.

O estrondo ecoou pelo pequeno bosque circundante da cidade sem nome. O animal, abatido, desfalece num seco baque ao solo. A poça de sangue toma sua forma obliqua no rachado asfalto perdido em meio as árvores e vegetações. As duas figuras, o homem e a menina, saíram dos arbustos e caminharam, despreocupados, até o seu troféu. O cervo caído, inerte, ainda inflava debilmente os pulmões, num último suspiro de desistência. O medo em seus olhos seria apartado pelo canivete final, primeiro pelo chumbo, depois pela prata.

A garota estava feliz, suas mãos ensanguentadas seriam um problema para a mãe. Tirar aquelas manchas da roupa, tirar a sujeira das unhas. A morte caia bem ao macacão sujo e as mangas puídas. O homem, fizera uma amarração para carregar o defunto nos ombros. Eles não conversavam. Eles andavam lado a lado, seguindo um único caminho. O homem com o rifle e o cervo nos ombros, a menina com uma mochila verde oliva, caminhavam. Apenas os pássaros cortavam o silêncio daqueles dias.

Atravessaram a avenida abandonada, todos aqueles carros cheios de ferrugem e abandono. Os cadáveres dos ocupantes já virara ossada há muito. Animais usavam aqueles veículos como moradia, a natureza tomando para si a obra do homem, recolhendo o seu empréstimo. O  homem, parou de caminhar. A menina avançou ainda uns dois passos, quando também resolvera parar. Na sua expressão apenas medo, pois, sabia que nunca se deve parar quando se é a presa. Tiros começaram a ecoar, estalavam na lataria dos automóveis, espantavam os pássaros das árvores. Tiros e gritos loucos se aproximavam. Ambos, homem e garota, correram para um dos lados da grande avenida, escondendo-se dentro de um dos carros. O homem leva o indicador aos lábios, mostrando a garota que ela deveria ficar quieta. A minivan branca, agora amarelada e suja, se tornara a ocupação silenciosa daqueles dois. Os barulhos dos disparos ficara cada vez mais forte e ameaçador. Os gritos alegres e loucos se aproximavam, utópicos para a alegria falsa da loucura.

Homem, menina e cervo dividiam o espaço com os restos de um cadáver há muito tomado pela natureza. Os ossos se misturaram ao solo. O crânio caído próximo ao que era o acelerador, o que agora é apenas um buraco no assoalho. O cervo havia sangrado tudo que precisava sangrar. Em seu envólucro uma poça de sangue dançava com o movimento do homem, numa tentativa vã de sujar-lhe a camisa. A menina ainda silente, buscava conter sua respiração ao máximo. Esperava como quem espera a passagem de uma tempestade. E o homem chegou a munição do Rifle. Logo, as vozes e os tiros tomaram forma: três homens maltrapilhos, seminus, carregando pistolas e revólveres. Arrastavam, em cordas, uma mulher desacordada e ferida. Praticamente nua. Gabavam-se dos feitos, mataram toda sua família e a levariam para saciar seus prazeres e depois decapitá-la. Era costume destes loucos, usar as cabeças como adorno de suas casas. o homem preocupou-se. Saberia que precisaria matá-los. Podiam seguir o seu rastro, e sua filha e esposa terminarem como aquela pobre coitada.

Os loucos não apresentavam tanto perigo. Não eram páreo para alguém que fora treinado pela vida e pela desgraça. Após o homem ter estourado os miolos do primeiro, os outros loucos assustaram-se e começaram a disparar contra o homem. Eram meras pistolas velhas, ainda do pré-guerra. Não demorara para gastar toda a munição. Eles deveriam ter um arsenal escondido, para esbanjarem assim. O segundo também caiu com sua cabeça arrebentada pela bala do rifle. O terceiro correu, embrenhava-se entre os carros. O homem chamou a garota, deu a ela o rifle. Seria necessário. A garota iria crescer e precisava se virar, se não matasse agora, quando o seu sangue ainda é novo, dificilmente conseguiria matar no futuro. Ela estava insegura, nunca matou uma pessoa antes, suas mãos tremeram. O homem, seu pai, dissera que se ela errasse algo terrível aconteceria. A gota de pressão que faria aquela garota ceder. Ele dissera a garota que, aquele louco voltaria com ainda mais loucos e fariam com ela e sua mãe, o que fizeram com a pobre moribunda arrastada. A garota tremia, porém decidida, finalmente começou a mirar. Com o louco na mira o homem disse:

– Pode atirar.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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