Textos

Só a menina que eu troquei um olhar

Ele joga fora um dos seus vinte melhores amigos, claramente antes do tempo, pois acabou de chegar no bar. Com mais esse indo para o lixo, devem ter restado mais três ou quatro no maço, mas devem ser o suficiente para terminar à noite.

– Quero uma mesa para dois! – Ele pede olhando ao redor.

Após colocar sua jaqueta sob o banco, ao seu lado, pediu uma cerveja gelada ao garçom.

Enquanto aguarda, se lembra do último episódio que assistiu do black mirror: Hang the Dj.

Então entra num devaneio de quanto tempo terá com a mulher que o acompanhará, antes que a relação termine.

Pensa em como é chato ter que conhecer pessoas novas e, como é um saco ter que contar tudo de novo, e de novo, sempre reencontrando as mesmas pessoas em corpos diferentes.

Imagina com quantos silêncios, garrafas e…

– Boaaaa noiteeee, te fiz esperar muito? Ela se senta em sua frente e intorrompe seu devaneio.

E por um instante, somente nesse instante é só olhos nos olhos.

– NÃO não, cheguei agora mesmo. Ele quebra o silêncio. E desvia o olhar.
Com os olhos podemos falar muitas coisas que a boca nem sempre consegue dizer.

Então ela sorri, e ele sorri para ela, o papo vai, e a bebida vem, então sorrisos se tornam gargalhadas, e a conversa flui, eles se dão bem, pois a ironia de um encaixa com o sarcasmo do outro, a loucura de um, tira o riso do outro, e a noite avança, as mãos de um arrancam as roupas do outro, a boca de um, beija a boca do outro, as mãos de um deslizam sob a pele do outro, o gozo de um, arrepia o outro, há satisfação nos olhares, com certeza tem uma conexão rolando, os gemidos, os tapas, os arranhões, a fluidez, a liberdade, o tesão e por fim o cansaço, a respiração ofegante, as pernas bambas, os dois avançam para o pós-sexo, e um cigarro é aceso, restam apenas dois.

A cabeça dela encosta no peito dele e, ele não enxerga o rosto dela, devido a posição, mas sente que ela está sorrindo, pois ele também está, conversam até o cigarro terminar, até o êxtase em seus corpos diminuir, conversam até pegarem no sono.

A noite se foi, e ele abre os olhos, na esperança de vê-la lá, mas ela não está mais lá, ele pensa então na pressão que a cabeça dela fazia em cima de seu peito, era reconfortante, mas agora sente um vazio tremendo no mesmo local.

Lembra de como o corpo dela era, de como o riso contagiava, em como os olhos dela focaram no dele naquele primeiro instante no bar, aquele olhar, aquela fluidez.

– Deixa para lá, era tudo coisa da minha cabeça!!! – ele diz em voz alta, pois para se enganar a sí, é mais facil quando você ouve do que quando você pensa.

Ele tateia a mesinha ao lado de sua cama, puxa o penúltimo amigo do maço, acende e da um trago tão largo que preenche por uns segundos onde a pouco era o vazio.

Se levanta e vai até sua cozinha, tem um bilhete grudado na geladeira:

Obrigado pela noite!

Ele para, lê, dá um novo trago, percebe que ele também chegou ao fim e mais uma vez, como em toda sua vida, saca o último amigo, acende e traga.

Puxa o bilhete da geladeira, amassa e joga no lixo.

E com mais esse, ele já perdeu a conta de quantos amores se tornaram líquidos, de quantos beijos foram para sair de sí, de quantas fodas foram para preencher o vazio, de quantas relações terminaram, antes mesmo de começarem. E com esse bilhete amassado no fundo da lixeira, ele percebeu que quanto mais ele encher essa lixeira de bilhetes, mas cheio de vazios ele vai estar, mas ele precisa disso para continuar, e no meio dessa confusão de sentimentos, ele dá seu último trago, no seu último melhor amigo.

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Sobre Thiago D.

Minha maior arte é a forma que eu vejo o mundo e as coisas que acontecem ao meu redor, tenho uma empatia muito grande, entendo como as coisas estão acontecendo ou devem acontecer e isso ajuda na minha percepção para fazer sistemas, estruturar raciocínios lógicos e a construir textos, contos e afins. Busco colocar em palavras os mais diversos sentimentos e sensações, o que escrevo não é autobiográfico, eu chamo de usar a vida como matéria prima. Meu jeito de escrever é esse, e se me perguntarem isso é ficção? Ou não é ficção? – Está no papel(no caso, tá no blog), aconteceu ou não, é ficção.

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