Crônicas

“Sexo é Superestimado”

Eu sempre achei John meio estranho. Não no sentido comum da palavra “estranho”, pois todos meus amigos se adequariam a essa descrição, mas ele era um cara que parecia conseguir se adaptar a qualquer contexto que estivesse (apesar de, curiosamente, não conseguir terminar nenhuma faculdade). Ele parecia se dar bem tanto estando sozinho comigo, conversando sobre temas profundos e filosóficos, quanto com os zumbis, de divertindo com banalidades mundanas do dia-a-dia. Eu cheguei a achar que ele era ambivertido, um tipo mais raro de personalidade, mas um dia ele me explicou como funcionava:

– Ah, desde o ensino médio eu sempre gostei de filosofia e temas mais profundos, mas sempre que eu começava a falar as pessoas achavam chato e só queriam falar merda. Então eu resolvi que só iria falar merda com elas.

Sua escolha havia sido o oposto da minha: Eu havia percebido a mesma tendência nos zumbis, mas, ao invés de me adaptar, preferi pagar o preço da solidão e conversar sobre meus assuntos com os poucos amigos que fiz, ao invés de me misturar à horda. Nunca me arrependi.

Era noite, e eu estava esperando por ele, que iria me dar uma carona para nós irmos em um bar de zumbis. No caminho ele me disse algumas das suas ideias sobre os seres humanos serem almas iluminadas que vieram a esse mundo para evoluir, cada uma seguindo seu próprio caminho. É uma crença comum nos dias de hoje, mas eu o lembrei de um dia em que estávamos fumando um beck enquanto ele dizia coisas pornográficas para uma garota que havia conhecido no Tinder e eu perguntei por que ele falava aquelas coisas que pareciam não ser o que ele realmente pensava. Nesse dia, a resposta que ele havia me dado foi:

– Por que as pessoas são lixo. Eu falo o que elas querem ouvir para conseguir o que eu quero delas.

Quando apontei essa incoerência para ele no carro, ele disse que aquilo era a droga falando, e que aquele “não era ele”. Ele me deu outro exemplo de quando estava bêbado em um bar e sua ex namorada chegou e ele foi escroto com ela.

– No dia seguinte em pedi desculpas e disse, “o John daquela noite não era eu”, “eu não sou assim”.

Claro que aquilo não passava de má fé, mas eu estava tentando evitar fazer análises psicológicas de suas ações, já que ele não as admitia e aquilo o deixava irritado, então eu fiquei em silêncio.

O plano era dar carona para mais um amigo e ir para o tal bar. John disse que não queria fumar ou ficar bêbado naquele dia, estava querendo viver “consciente” das coisas ao redor, e “evoluir”. Nós pegamos seu amigo, Kurt, um zumbi básico, mas divertido, na casa dele e seguimos para o local.

No meio do caminho descobri que duas colegas minhas estavam no bar, e quis apresentá-las a John, já que já havia mencionado seu nome para elas e vice versa. Assim que os dois as viram sentadas em uma das mesas, disseram:

– Nossa, elas são bonitas – John disse.

– É – eu respondi.

– Você já pegou? – Kurt me perguntou, sendo previsível.

– Não – respondi.

– Mas você quer pegar?

– Não – respondi, meio irritado.

Eles pareceram achar aquilo estranho. De qualquer forma, elas não ficaram muito tempo. Nós juntamos as mesas e nos sentamos com outras pessoas que eles conheciam, e pouco tempo depois elas foram embora.

Não demorou muito e John e os outros já estavam bêbados. Uma das garotas da mesa acendeu um baseado e nós fumamos. Os planos de John já haviam ido por água abaixo, pra variar. Os assuntos foram para o lado de sexo e encontros, e ele disse:

– Essas mulheres do Tinder estão muito chatas, velho! Você olha o perfil de uma delas e vê o que? Que querem romance e andar de mãos dadas? Tinder não foi feito pra isso! Eu não quero isso, eu quero só alguém pra usar uma droga e foder sem compromisso!

Todos riram. A válvula já havia sido desligada.

Um tempo depois eu saí para fumar um cigarro. John me seguiu, pedindo um, e me perguntou se eu havia me irritado com a fala de Kurt sobre minhas colegas.

– Não, eu não ligo para o fato de “pegar” ou não. O que me incomoda é que parece que existe um tipo de válvula na sua cabeça que, enquanto estamos juntos você é um puta filósofo, mas aí quando entra mulher no meio, você e o Kurt viram dois animais burros que só querem trepar. Aí no dia seguinte a consciência volta, você se arrepende e fica pensando no que está fazendo com a sua vida.

Ele riu e concordou. Disse que era assim mesmo, e então disse:

– Mas um amigo meu, muito sábio, já disse: Tudo o que você faz na vida é pra comer alguém.

Eu ri.

– Essa deve ser uma das coisas mais idiotas que você já disse – respondi – e olha que já foram várias.

– Por que? Não é isso que Freud fala?

– Freud? Não. O que ele diz é que todo prazer que nós sentimos com a arte, a ciência, religião e outras coisas são uma sublimação do desejo sexual. Mas não quer dizer que por que “o carro é um símbolo fálico para o homem” você, ao invés de ter um carro, tem que sair mostrando seu pau por aí. Eu prefiro o que meu amigo disse, mesmo que piada, uma vez: “O sexo é superestimado”.

– O que? – ele riu, e quase engasgou com o cigarro.

– Sexo são hormônios, cara. Liberados no seu sangue. Não é diferente de comer algo gostoso, no sentido literal, cheirar pó, fumar um beck ou bater punheta: Você goza e depois acaba. Não existe nada de grandioso nisso. Aqueles que se vangloriam dizendo “Comi fulana”, “transo muito”, “sou ‘transudo”? Parabéns, quer dizer que depois de milhões de anos de evolução da espécie, você se tornou tão foda quanto um coelho, que só sabe comer, cagar e foder. Não tem sentido nenhum nisso.

– Você está é com inveja, por que não come ninguém – ele disse, mais sério.

– E você reduz todo o potencial humano a uma foda. O Clóvis* mesmo disse, cara, falando sobre a felicidade humana: Um gato é um gato. Ele está feliz quando suas necessidades básicas estão satisfeitas. Ele sente tesão, fome ou frio, e quando trepa, come e se aquece, está feliz. Mas nós não somos gato. Nós não temos instintos, nós precisamos de mais do que isso para viver bem. Nós temos um intelecto que nos permitiu levar o homem para a Lua e combater doenças. Agora se você quer passar o resto da sua vida vivendo como um porco, isso é problema seu.

– Você é muito chato, cara – ele disse, agora visivelmente irritado.

– Nah, eu só sou sincero – Eu respondi. Meus planos de reprimir minhas análises psicológicas para não causar essa situação também haviam ido por água abaixo. Agora era tarde para voltar atrás.

– Tá bom, espertão – ele riu com desprezo – volta a falar comigo quando você conseguir ser mais humilde – aquilo parecia piada, já que John era uma das pessoas mais arrogantes e menos humildes que eu conhecia.

– Claro, e você volte a falar comigo quando a válvula da sua consciência voltar a funcionar e você quiser falar de coisas mais interessantes. Mas não venha com aquele papo de “ah, por que eu faço isso?”, “o que estou fazendo com a minha vida?”, por que eu já cansei do seu ciclo hedonista-masoquista de repetição.

– Vai pro inferno, cara – ele disse e voltou para o bar.

– Relaxa, eu já estou lá.

Pelo visto eu teria de voltar a pé para casa.

 

 

*Clóvis de Barros Filho, filósofo brasileiro

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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