pexels-photo-803975Sentou-se na soleira da porta da casa de sua avó, com o cigarro entre os dedos, um ponto de luminosidade naquela fria e chuvosa manhã. Dera sorte da chuva ter molhado toda a noite, e que a umidade trouxesse uma manhã mais agradável, algo como acordar mais cedo e descobrir que é domingo, não precisa ir trabalhar. Aquela soleira era a mesma desde os tempos de menina. Olhar para o mesmo céu, as mesmas nuvens, as mesmas árvores. Olhar que lá no fundo, daquele longo terreno, repleto de vida selvagem, estaria enterrado todos os segredos que um dia manteve.

Ali ela estava tomando uma decisão, talvez a mais difícil. Nos papeis jogados na mesa da cozinha algumas lembranças: Fotos; cartas; objetos pessoais. Pensava na avó, nos momentos, nas questões, agora apenas uma fumaça que dissolve, dissipa. Desaparece. Ela decide levantar-se. Arruma todas as coisas na mesa dentro dum balde de metal. Espirra álcool e acende com o cigarro. Lembranças que se tornam cinzas, do carbono vieste, para o carbono retornaste. Nunca mais retornará para aquela cabana, para aquela vida. Nunca mais será ela mesma. Foi uma decisão difícil de tomar, mas depois de tomado, é um caminho sem volta.

Com o fogo se alastrando lembrou-se dos últimos momentos de sua avó. Ela vestida com aquela roupa de jardinagem. As duas caminharam até o interior da mata, um lugar com muitas árvores e nenhum barulho.

– Aqui. É aqui – a senhora mostrou o terreno revolto – não devo demorar a partir. Está enterrado tudo o que você precisa aqui.

– Mas o que farei depois? – a pergunta fora ou idiota, ou feita por educação. Todos os planos estavam arquitetados, já na esperança do lugar daquele tesouro ser demonstrado. Sua avó guardara este segredo durante uma vida, na esperança de um dia mostrá-lo, e este dia cai exatamente nos últimos que ela tem vida no mundo.

– Venda as joias, viva o que eu não vivi. Seja a felicidade que eu não tive – disse sabiamente a velha. No mesmo dia sua saúde decaíra e a febre tomou-lhe nos braços, lançando-a na cama.

Chovia naquela noite.

– Tem uma arma na gaveta do criado mudo – disse a senhora.

– Vovó!?

– Encerre esta dor, pegue o que é seu e destrua tudo.

Ninguém ouviu o disparo.

Com a terra molhada era mais fácil de desenterrar o segredo. Lá estava, a caixinha marrom, repleta de joias e diamantes. Sua avó guardara desde que seu avô fizera o grande assalto. Seus comparsas o mataram e ela guardou este segredo, no seio daquela floresta. Viveu na miséria, sentada sob um tesouro.

Com a arma na cintura e a caixa embaixo do braço ela desapareceu na vegetação. E como todo flash de vida, nunca saberemos como isto terminou.

Anúncios