Textos

Nesses dias

Às vezes quero escrever, mas nesses dias eu não consigo mais.

Às vezes quero sorrir, mas nesses dias eu não consigo mais.

Às vezes quero dormir, mas nesses dias eu não consigo mais.

Às vezes quero trabalhar, mas nesses dias eu não consigo mais.

Às vezes quero falar sobre, mas nesses dias eu não consigo mais.

Às vezes quero que tudo isso passe, mas nesses dias já sei que não vai passar.

Às vezes quero que tudo fosse apenas um pesadelo, mas nesses dias compreendo que estou acordado.

Às vezes quero só minha garrafa para esvazia-la em um gole atrás do outro, mas em um desses dias eu acordei sóbrio.

Às vezes quero só uma boca para beijar, outras vezes alguma mulher para transar, e se elas querem só isso também, é melhor para ambos, pois preenchemos nossos vazios um no outro, mas em um desses dias, eu descobri que nem sempre é isso que elas querem ou que eu quero.

Descobri que às vezes o que quero é apenas estar bem comigo, mesmo sem saber como é essa sensação, mas acredito que deve ser muito boa, pois todos gurus falam bem, e  fora que vejo as pessoas felizes por ai, ou ao menos sorrindo, como se não houvessem problemas, como se o mundo fosse tão bom quanto parece ser e fico pensando por qual motivo ele não é?

E às vezes penso que o problema sou eu, outras vezes eu não tenho certeza absoluta disso, mas nesses dias, somente nesses dias, eu realmente sei, eu sei que sou eu, que és minha mente, que sou o que sou, que chego ao ápice de mim mesmo nesses dias, e só então percebo o chão sumir sob meus pés e tudo que resta, é aquilo que eu mais queria esquecer.

Aquele dia cinza, aquela noite no hospital ou aquela despedida. Três vezes aconteceram, e por tempo demais, impedi que houvessem outras, pois percebi que a vida é isso, é uma grande perda de tudo que amamos.

Desde então somente nesses dias, eu sei o que é se sentir realmente vazio, que nesses dias posso entender o quão na merda um ser humano consegue chegar, o quão perdido alguém pode estar, em como tudo pode parecer insignificante e nada parece ser importante. Sim… somente nesses dias eu tenho medo de como serão todos os outros dias da minha vida.

Por quê nesses dias, eu sou o meu pior lado, eu sou o meu quarto escuro, sou minha mente que não para de pensar e me impede de dormir, sou a insonia que nunca passa, sou o álcool que me faz esquecer de eu mesmo no dia anterior, ou o gosto da nicotina na boca depois do sexo, pior… eu sou o garotinho que perdeu o irmão, o adolescente que perdeu o pai, sou o adulto que pode tudo, mas não sente mais nada. Eu sou somente o lado que ninguém nunca vê, pois nesses dias, eu sou o que somente eu sei que sempre está lá, mas  geralmente consigo esconder através de sorrisos borrados ou piadas ruins.

Mas nesses dias não, nesses dias eu não escondo nada. Eu sou o cara mais perdido do mundo, o mais frustrado, o mais inconsciente possível, não quero saber quem sou eu, quero outra realidade, mas não posso fugir dessa nesses dias e no meio de toda essa confusão, eu continuo tendo que seguir, mesmo não sabendo como, ou para onde devo ir, ou porque, ou se deveria ou não parar e desistir, mesmo não sabendo a resposta para nenhuma dessas questões, eu continuo, eu persisto e insisto.

E se me perguntarem, eu não sei o motivo, eu só continuo sobrevivendo, sabe aquele lance; um dia depois do outro.

Mas eu quero que pare, eu quero que tudo melhore, acredite, eu quero muito, mas eu duvido que vá melhorar, porque em um desses dias eu me vi, e olha, não foi bonito de se ver, eu não me reconheci, e o pior nem é isso, o pior é saber que era eu sim, e na verdade não era, sou eu na verdade.

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Sobre Thiago D.

Minha maior arte é a forma que eu vejo o mundo e as coisas que acontecem ao meu redor, tenho uma empatia muito grande, entendo como as coisas estão acontecendo ou devem acontecer e isso ajuda na minha percepção para fazer sistemas, estruturar raciocínios lógicos e a construir textos, contos e afins. Busco colocar em palavras os mais diversos sentimentos e sensações, o que escrevo não é autobiográfico, eu chamo de usar a vida como matéria prima. Meu jeito de escrever é esse, e se me perguntarem isso é ficção? Ou não é ficção? – Está no papel(no caso, tá no blog), aconteceu ou não, é ficção.

1 comentário em “Nesses dias

  1. Nesses dias em que a DP bate forte e a gente se afoga em um mar de crise, respira n sei como dentro desse mar e ainda continua vivo mesmo sufocando. Nesses dias que as vezes se tornam meses e até anos nesse sufoco, nesse quase, quase respirar, quase viver, quase falar, quase escrever, quase sorrir, quase sair, quase fazer; sempre com algo preso na garganta, sempre transbordando de águas de inseguranças, questionamentos..

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