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“Vocês são O Futuro. É preciso ter Esperança”

Quando Roberto entrou na faculdade, ele queria mudar o mundo. Ele sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de quando se formar, trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que minorias pudessem melhorar de vida e consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, Roberto acabou dando aula em um cursinho pré-vestibular em uma escola de elite de uma grande capital do país. Seu salário era superior ao de muitos outros professores com mais tempo de trabalho do que ele, e dezenas de vezes superior ao que ele receberia trabalhando no Estado. As vezes ele se sentia culpado por ter escolhido o dinheiro ao invés das causas sociais, mas de tempos em tempos, para se justificar na sala, ele dizia aos seus alunos:

– As vezes eu queria dar aula no Estado, para populações carentes… Mas eu penso também que aqui eu posso fazer uma diferença maior, por que vocês serão os médicos, advogados e juízes do futuro, e com isso vocês poderão fazer a diferença no país. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Aquilo normalmente era o bastante. Quando ele dizia aquilo, ele se lembrava de uma professora que havia tido no curso preparatório que fez para entrar na faculdade onde se formou. O nome dela era Carla.

Quando Carla entrou na faculdade, ela queria mudar o mundo. Sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de que quando se formasse, iria trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que as minorias pudessem melhorar de vida e, consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, Carla acabou dando aula em um cursinho pré-vestibular renomado em uma grande capital do país, onde ela conheceu Roberto, um aluno que queria se formar na mesma profissão que ela, e que, assim como ela, tinha ideias de mudar o país. Carla se viu nos olhos de Roberto, e, mesmo sabendo que ela havia traído seus valores iniciais e escolhido o emprego que dava mais dinheiro ao invés daquele que ajudaria as minorias, ela viu em Carlos sua chance de redenção, e disse para si mesma:

– Eu escolhi trabalhar para os ricos, mas aqui estou fazendo a diferença. Olhe para esse aluno e todos os outros: Eles serão os profissionais do futuro, que irão fazer a diferença no país. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Aquilo fazia com que ela se lembrasse de seus tempos na faculdade pública onde havia se formado, e de uma professora que era sua heroína, e serviu de inspiração para seu interesse pelas lutas sociais. Seu nome era Maria.

Quando Maria entrou na faculdade, ela queria mudar o mundo. Sempre havia se interessado por causas sociais, e tinha a ideia de que quando se formasse, iria trabalhar no Estado, dando aula para a população carente, e com isso dar oportunidade para que as minorias pudessem melhorar de vida e, consequentemente, melhorar o país.

Ao invés disso, como o salário era ruim, ela se especializou, fez mestrado e doutorado, e quando um concurso público saiu, ela conseguiu passar e foi lecionar em uma universidade pública de renome na capital. Ela pensou que lecionando em uma universidade pública estaria ajudando a população carente a melhorar de vida, e assim cumprindo uma função social. O problema é que quase nenhum de seus alunos vinha da população carente. A maioria deles era filho de pais ricos e haviam entrado na faculdade após fazer um curso preparatório pré-vestibular de elite, como Carla, que adorava suas aulas. Nenhum deles estava ali por não conseguir pagar uma universidade particular, e sim para ter um diploma melhor, o que daria uma vantagem na hora de conseguir um emprego que pagasse um salário melhor.

Como o emprego de Roberto. Ou de Carla. Ou da própria Maria.

Ela se sentiu meio culpada por estar traindo seus valores iniciais, mas de tempos em tempos, ela dizia para si mesma, para se justificar:

– Aqueles serão os professores do futuro. Eles poderão trabalhar para o Estado, ajudar na rede pública e ajudar as minorias a melhorar de vida. Eu estou fazendo a minha parte. É preciso ter esperança.

Maria, Carla e Roberto pregavam para seus alunos que eles deveriam escolher o caminho que servisse para melhorar o país. Maria, Carla e Roberto criticavam os alunos que diziam preferir escolher o emprego que desse mais dinheiro. Maria, Carla e Roberto escolheram o caminho que pagava mais dinheiro.

 O mundo está cheio de Marias, Carlas e Robertos: Pessoas que ao invés de sacrificarem a si mesmas pela sociedade, gentilmente cedem seu lugar na fila para os profissionais do futuro em troca de um salário melhor. Elas não precisam se sacrificar, por que você é o futuro, e fará isso no lugar delas. Elas não precisam escolher o pior emprego, que paga menos e tem piores condições, por que você é o futuro, e fará isso por elas. Deixem que você, profissional do futuro, faça aquilo que elas não querem fazer, afinal, elas estão fazendo a parte delas – e recebendo bem mais do que você por isso.

Deve ser por isso que essas pessoas falam tanto sobre ter esperança: É preciso ter esperança no futuro, nas gerações futuras, nas crianças, nos alunos. Por que a esperança que elas tinham nelas mesmas, de fazer algo para mudar no presente já morreu há muito tempo. Ou talvez nunca tenha existido.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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