Textos

O Absurdo (existencial) do Segundo Turno de 2018

Obs.: Esse texto é para aqueles que estão desesperados com as opções para o segundo turno das eleições de 2018. Se você concorda com qualquer um dos candidatos, ignore, afinal, você não deve estar sofrendo com isso.

 

Acho que o pessimismo nunca me foi tão tranquilizador quando está sendo nesse momento. Ao longo dos últimos anos eu me esforcei conscientemente em aceitar o absurdo da existência e a insignificância de nossos desejos e ações no mundo. Aqueles que pensam que “mudando a si mesmo você muda o mundo ao seu redor” devem estar desesperados, pois agora percebem que não têm tanto poder assim, e que todos os diálogos e a truculência que tiveram nos últimos meses não serviram de muita coisa. Isso me lembra de Cioran, quando ele escreve “Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer?”.

Um amigo me enviou um texto de uma pessoa que escreveu que não irá votar em nenhum dos candidatos do segundo turno, por que o voto iria “legitimar aquilo que eles representam”. Votar em um deles seria “validar que o crime e a corrupção compensam”, enquanto votar no outro seria “dizer que o machismo e a homofobia são aceitáveis”. Eu disse que discordava daquele texto pela teoria, mas acabava concordando na prática.

“Como assim?”. Bom, por um lado, eu acho que já passamos da fase de votar em alguém por aquilo que aquela pessoa “representa”, baseando-se em ideais de ética ou honestidade. Esses ideais nunca existiram na política. É só estudar um pouco de história do Brasil e do mundo para perceber que é impossível votar em algum candidato baseando-se neles. Está na hora de ser pragmático e tentar escolher o “menos pior” (que inclusive foi o que ouvi muita gente fazer a vida inteira na hora de votar, não é agora que isso seria diferente). Na verdade, acredito que chegamos na situação em que estamos agora justamente pelas pessoas serem muito idealistas e pouco pragmáticas.

Por outro lado, o motivo pelo qual acabo concordando na prática, é que até ser pragmático está difícil agora. Os dois lados apresentam ameaças reais. Um deles apoia a ditadura venezuelana, onde a população é torturada e come carne podre. O outro planeja colocar vários militares no poder. Esse meu amigo que enviou o texto disse “agora é escolher entre morrer de tiro ou de fome”, e que pensava em não escolher nenhum, por que aí pelo menos teria a “consciência limpa”. Parece até ser uma boa escolha, mas eu o lembrei de que ter a consciência limpa não alimenta, nem protege contra balas.

Como pode então o pessimismo ser tranquilizador? Lidando com ele como os estoicos faziam.

Diferente dos otimistas covardes de hoje que adoram dizer para você “pensar positivo”, que “você pode tudo, basta acreditar”, que (de novo) “mudando a si mesmo você muda o mundo a sua volta”, os estoicos acreditavam que nada além de nossas escolhas estavam sob nosso controle. Nós não podemos mudar o mundo, nem as outras pessoas. Coisas ruins sempre acontecem, e na maioria das vezes, há pouco que possamos fazer para impedi-las. No caso da política, por mais politizado e “consciente” que você seja, deve lembrar que em uma democracia, seu voto continua sendo apenas um dentre milhões. Você é apenas um grão de areia num deserto, e não tem tanta influência sobre os grãos ao seu redor como pensa.

Qual era o conselho dos estoicos então? Não era “pense positivo”, ou “imagine o melhor”, mas sim, justamente o contrário: Pense no pior. Imagine o pior cenário possível, a maior desgraça que poderia acontecer no seu futuro. E depois disso, pense que por pior que as coisas possam ficar, você pode sobreviver. “Eu aguento”, é o que você deve pensar. Nietzsche vai mais longe e fala sobre o “amor fati”: Conseguir amar o mundo como ele é. Aceitar aquilo que você não consegue mudar e seguir vivendo, tentando ser feliz ainda em meio a todas as adversidades. Por que ninguém disse que a vida seria fácil. A vida de ninguém é.

Então – como eu disse na observação inicial, para aqueles que não gostam de nenhum dos candidatos – votar nulo para ter “a consciência limpa” é tão insignificante quanto escolher um ou outro candidato. Você não tem controle sobre o resultado das eleições. Você não tem controle sobre o futuro do país. O que você tem é um voto, e apenas isso. Então eu acho melhor ser estoico do que otimista. A ideia é diminuir as expectativas e tentar sobreviver decentemente, não importa qual for o resultado das eleições.

É assim que o pessimismo acaba sendo tranquilizador, pelo menos pra mim. A política, talvez pela primeira vez, parece refletir nitidamente a nossa existência absurda. Você pode tentar lidar com ela como Nietzsche, como os estoicos, ou como Camus*, que nos aconselhava a abraçar o absurdo e conseguir viver mesmo no meio do deserto. Se você aceita o absurdo da existência, aceitar o absurdo da política não fica tão difícil. Agora se você não o aceita, e angustia-se intensamente pela falta de sentido da vida, acabará sofrendo igualmente pela falta de sentido da política.

 

 

* Albert Camus foi um filósofo de uma linha chamada “Absurdismo”, que diz que o homem tem necessidade de buscar um sentido para as coisas, mas que a vida em si, não tem sentido, e por isso ele acaba se angustiando e desesperando com ela. Ele afirma, no entanto, que não é por que a vida não tem sentido que ela deixa de ter valor, e que podemos sim viver e criar no meio do deserto, aceitando o absurdo da existência. Cioran, citado no primeiro parágrafo, também era um absurdista.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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