Textos

O observador de mendigos.

Talvez eu veja neles um possível futuro de todos nós. Eu ainda olho para a minha dignidade, vendo a possibilidade de abandoná-la Em diversos níveis de falta de (dignidade), andar maltrapilho, sujo e cagado, descalço no asfalto quente ou no chão molhado, com cabelos grudados pelos intermináveis dias sem banho, pelas feridas nas pernas e os inseparáveis amigos caninos. Olho para estes párias da sociedade como se olhasse para um espelho de probabilidade. Olho para estes, que sempre carregam uma garrafa pet, com algum líquido obscuro, as vezes para “limpar” pára-brisas, as vezes para beber e morrer, as vezes apenas água, quente, sem graça, sem cor, pega numa poça com os mesmos adjetivos, simplesmente buscando vida.

Os andarilhos sujos que nos cumprimentam, que pedem moedas em troca do seu almoço ou vício. Dormem nos duros chãos da vida, nas duras calçadas sem fama. Bebem e escarram, suas casas são feitas de estrelas, pó e vento. É muito difícil tentar deduzir o que os levaram ao relento. Talvez, num exercício máximo de empatia, pode-se aferir que eles estão lá fugindo daquilo que nos mata diariamente. Não que a verdadeira felicidade se encontra na sujeira da rua, na pouca higiene e na comida do lixo. Provável que o que eles desejam são as coisas que descartamos, se agarram aos pedaços de papelão que, para nós, é inútil, mas para eles é o mundo.  Nas suas garrafas plásticas sujas, nas pernas enegrecidas. Não trepam, não amam e não são amados. Quando trepam, se trepam, é quase um gesto de pena, e não amor. Fazem na rua o que fazemos às escondidas. Cagar, mijar e trepar, o fim da dignidade humana é estar cagando em público.

Ou andar descalço.

Eu os observo, vejo o que é ignorado, vejo o que todo mundo quer esconder. Dormem como cadáveres nas calçadas. Alguns podem até morrer, de fato, mas serão esquecido como todos os outros. Tentam se aglomerar para que o frio não venha levá-los, tentam se juntar numa comunidade pútrida, porém firme, nas suas convicções de sobrevivência. Indago a mim mesmo como podemos não enxergar aquele que mora na calçada das nossas casas, daqueles que perderam tudo, que o mundo se justifica em algumas moedas trocadas, uma garrafa pet, papelões e chão duro. Esquecemos que tais pessoas também são pessoas? E nós somos pessoas?

Podemos ser os próximos mendigos.

Podemos estar ali, ignorados por todos, chutados, desmazelados. Cagando, mijando e trepando no chão. Sem roupas limpas, sem comida descente, sem um teto ou uma cama. Podemos ser os próximos a dormir no chão, como cadáveres. Morrer nas esquinas, desaparecer sem ter um dia, sequer, existido.

Os observo como se visse uma possibilidade de futuro. Algo que eles vivem dia a dia sem coragem de morrer. Vivem o dia a dia sem que os dias notem sua existência.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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