Textos

O andarilho.

Eu era o último dos três amigos. O único que restou daquela pilha de memórias. Nas minhas malas; algumas roupas e outras tantas lembranças. Na minha mente as ideias e as palavras que poderia ter dito, naquela época, mas não tive coragem para dizê-las. Ando há muito, meus sapatos já estragaram mas eu continuo com eles, não mais como peças de roupa e sim como velhos amigos. Conheço cada buraco em suas solas e eles conhecem cada calo que me deram. Maltrapilho na estrada, os carros passam em alta velocidade e me ignoram. Vejo apenas as suas traseiras, brinco de memorizar as placas, brinco de imaginar que tipo de vida os seus ocupantes possuem. Olhos as crianças me encarando no vidro de trás, uma menina, cabelos dourados, olhos azuis, uns treze anos. Muito linda. Bastava esperar por uns dez anos e ela estaria na minha cama, tal qual vinho envelhecido. Dou um sorriso idiota com o flash de pensamento, penso muitas coisas erradas nas minhas andanças.

As pessoas que eu conheci devem acreditar que eu tenha morrido. Talvez que um dia me amou deva pensar em mim com nojo e asco. Eu penso em mim com nojo e asco. Vejo meu reflexo nos pífios espelhinhos das paradas de caminhoneiro, onde tenho ainda o hábito de possuir o mínimo de higiene, lavo a grande barba, escovo os podres dentes, sento um pouco e me preparo para seguir novamente meu caminho. Se tiver algum dinheiro eu como algo, senão, dou um jeito de arranjar um ou outro centavo, que podem ser convertidos em veneno alcoólico. Que sacia todas as minhas necessidades corpóreas por um longo espaço de tempo. Logo estarei com a terra do acostamento massageando as solas dos meus pés, logo terei o céu como teto e a lua como lâmpada. Logo meu estômago lembrará que existe, mas eu o ignorarei, tenho um longo caminho pela frente, mas, se me perguntarei para onde vou eu não sei responder.

Não vou para lugar nenhum.

Talvez apenas esteja fugindo das verdades que deixei para trás, fingindo que todas as mentiras não aconteceram. Eu me puno, isso é verdade, com a dor da caminhada eterna, da fome e da sujeira, com a sapiência que estarei só na chegada, estarei só na cova, estarei só no inferno. Inferno!? Eu já estou nele, condenado pelas escolhas erradas a andar para sempre nos acostamentos das estradas, descobrindo que se demora o dobro para andar um caminho que se leva 30 minutos de carro. Viver sem saber em que dia estamos ou que horas são. Dormir sonhando em não acordar, acordar pensando na hora de dormir, pois, nos sonhos eu posso sentar e descansar.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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