Crônicas Textos

“Nós Temos que nos Posicionar”

Era uma sexta feira, último dia de aula da semana, e os alunos da minha sala decidiram ir até um bar para relaxar. Eu não estava muito afim de ir, por que já não via mais propósito naquele tipo de socialização. Eu simplesmente não conseguia me enturmar, e não gostava do ambiente que eles frequentavam. Eu preferia bares vazios e tranquilos, onde pudesse conversar sem ter de competir ou gritar, mas eles pareciam adorar lugares barulhentos e lotados, onde você não conseguia se virar na cadeira sem acertar o cotovelo em alguém sentado na mesa de trás.

Eu não esperava grande coisa, então, mas estava afim de beber, então acabei indo com elas. Corvo estava no meio deles. Ele não era da mesma sala, mas fazia o mesmo curso, e nessa época eu ainda não o odiava. Nós fomos juntos até o local, parecendo com uma daquelas hordas de zumbis que sempre bloqueiam as calçadas e aumentam minha misantropia, escolhemos uma mesa, sentamos, e ele foi pegar a primeira rodada de bebidas.

Assim que as garrafas chegaram, começamos a beber e conversar. No começo os assuntos eram os de sempre: Falar mal dos professores e comentar alguma coisa que tivesse acontecido em alguma balada, nada pelo que eu me interessasse. Mas então eles começaram a falar sobre política. As eleições seriam no próximo domingo e a situação estava caótica. O país estava polarizado, e as pessoas estavam preferindo perder amizades e brigar com familiares do que debater racionalmente. As pessoas nunca foram muito racionais, na verdade, mas naquele ano, estavam piores.

Vários dos que estavam na mesa falaram sobre as discussões e brigas que tiveram, pessoas com quem cortaram relações e bloquearam nas redes sociais por causa das diferenças de opinião. Logo aquilo se tornou uma grande câmara de eco, já que todos da mesa tinham uma visão mais ou menos parecida, e defendiam o mesmo candidato. Aquela conversa parecia mais com um monólogo coletivo.

Os ânimos do povo estavam elevados, mas eu estava apenas bebendo e lendo algo em meu celular, até que uma hora todos ficaram em silêncio e eu ouvi chamarem meu nome:

– David?

– O que? – disse sem tirar os olhos da tela.

– Sai da bolha, cara – Corvo disse – e aí, qual é sua opinião?

“Sair da bolha”. Aquilo era irônico, considerando que aquele grupo todo estava vivendo em uma grande bolha coletiva. Talvez eles estivessem com medo de que eu a estourasse.

– Sobre o que? – perguntei.

– Porra David – todos riram – estamos falando de política, e aí, o que você acha, vai votar em quem?

– Eu acho que o voto é secreto – disse, e enchi meu copo com mais cerveja. Alguns da mesa riram, outros pareceram ficar incomodados.

– Qual é, David, você está entre amigos! Ninguém aqui vai te julgar.

Eu ri e disse:

– Somos humanos, Corvo. Julgar os outros é o que fazemos. Mas não se preocupe, eu não me importo com o julgamento de vocês.

– Então por que você não fala?

– Por que eu deveria?

– Dialética, cara! Não é isso que a gente aprende? É no choque  entre ideias opostas que você cresce.

– Bom, eu já ouvi as ideias de vocês, e eu tenho as minhas, então pode deixar que a dialética eu faço na minha cabeça.

– Mas você não contribuiu para o debate do grupo.

– É que sabe, mesmo quando eu era católico, eu não era muito fã de contribuir com a cestinha das oferendas. E também nunca doei pra instituições de caridades. Acho q o que quero dizer é que nunca fui muito fã de contribuições

– Deixa ele – Débora, uma das alunas, disse, parecendo irritada – não adianta tentar falar com intolerantes.

– Eu não sou intolerante – respondi – intolerância é você excluir alguém por causa da sua opinião, ou querer forçar a pessoa a concordar com seu ponto de vista. Você tem direito a sua opinião, e eu devo respeitá-la. Mas eu não preciso ouvi-la. Existe aquela frase “posso não concordar com você…”, mas eu acrescentaria no final: “longe de mim”.

A mesa ficou em silêncio. Eu terminei meu copo e então disse:

– E afinal, por que vocês querem saber minha opinião? Eu não sou seu chefe, nem seu empregado, nem seu namorado, nem seu terapeuta. Não sou político, professor ou formador de opinião. Estamos no mesmo nível, então minha opinião não importa. Para que precisaríamos saber a visão de mundo um do outro? Pra ter assunto para as conversas de bar? O único motivo que as pessoas dão sua opinião é para que tenham suas ideias validadas pelas outras pessoas, para que alguém diga a elas “Você está certo”. Mas vocês já têm uma mesa inteira fazendo isso, além dos seus amigos nas redes sociais, então não precisam que eu participe. Já que é assim, eu prefiro continuar lendo do que dizer o que eu penso. Afinal, nada do que vocês falaram faz a menor diferença, de qualquer forma.

– Como assim não fazemos a diferença?! – Corvo disse, parecendo realmente irritado dessa vez – você acha que o que a gente faz aqui não importa?!

– Não – respondi calmamente – essas discussões acabam sendo apenas masturbação mental. Somos apenas formigas correndo de um lado para o outro em um aquário, com a ilusão de que fazemos alguma diferença, enquanto os humanos na capital decidem o nosso futuro. Seu posicionamento não importa. Brigar com amigos e famílias tentando convertê-los ao partido político que vocês apoiam é inútil. Cada um de vocês é apenas um voto dentre centenas de milhões, e toda a manifestação política que vocês fazem nas redes sociais ou na faculdade acabam sendo vistas apenas por aqueles que já concordam com vocês, já que aqueles que discordam bloquearam ou foram bloqueados por vocês. Então é, eu acho tudo isso uma grande perda de tempo.

A mesa ficou em silêncio. Corvo ficou sem palavras. Pensei novamente em voltar a ler, mas então uma das garotas disse:

– Mas David, nós temos que nos posicionar.

– Não, não temos não. Na verdade tudo o que temos que fazer é respirar, comer, beber, excretar e dormir. O resto todo é opcional. Aliás, já que eu já comi e bebi, e estou sempre respirando, acho que vou para casa excretar e dormir. Boa sorte no domingo.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

2 comentários em ““Nós Temos que nos Posicionar”

  1. Você precisa trabalhar isso aí…. Desculpe, mas vou descurtir a página. Chega de pessimismo!

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