Textos

O doutor se jogou pela janela.

Para Juliana Ribeiro

Eu estava sentado no divã. Sentado, não deitado. A porta da frente do consultório explodia em uma pesada da equipe de resgate, junto aos policiais e jornalistas. Em pouco tempo aquele pequeno consultório psicológico tinha sido tomado por mais pessoas que eu conseguiria contar. O consultório estava entre o vigésimo primeiro e o vigésimo terceiro andar, num pequeno prédio comercial no centro. A suja janela aberta albergava a metade do corpo do Dr.Psicólogo. Sua gravata esvoaçava com o forte vento dos andares superiores, e sua mão segurava a pequena madeira conduzente da pífia janela. Uma segunda pessoa, também parecido com um psicologo gritava “não faça isso, sua vida vale muito!” e pulsilanimamente o Dr. Psicólogo nada dizia, apenas deixava esvoaçar-se com o vento. Me perguntava o porquê de ser ignorado pelas forças policiais, e pelos outros inúteis que adentraram aquele recinto, eu estava lá, sentado no confortável divã, um camarote para todos os eventos então disponíveis e o que se sucedia além de ser ignorado por tudo e por todos? Eu tinha a chave do mistério, mas a vida é mais importante que o mistério.

Fatalmente o Dr. Psicólogo iria cair e morrer. Eu tinha dito a ele que nosso futuro estava traçado, não haveria planos especiais, tudo é apenas uma repetição. Na sua repetição de sempre dizer “fale-me mais sobre isto” quando nada tinha de importante para dizer, eu finalmente disse: “talvez tudo isso seja uma simulação, estamos na simulação de outra pessoa, achando que nossa vida faz sentido, que tudo faz sentido, mas somos apenas uma linha de código, nada mais. Apenas deixaremos de existir para que a história continue. O Dr. Psicólogo me encarou, abaixou os olhos, fez anotações. Escreveu  por um longo tempo, levantou-se e  se pendurou na janela. Questiono-me o motivo, mas eu sabia que ele já havia pensado nisto antes de mim. Eu sei que o psicólogo ao analisar que o mundo nada mais era que sinais elétricos, pulsos cerebrais. Que nossa personalidade pode ser mudada com uma barra de ferro encravada em nosso crânio, e que tudo que somos e amamos não passam de memórias construídas. A simulação talvez estivesse aí. Aristóteles acreditou que o coração servia para resfriar o sangue, depois depositaram o dever do coração do receptáculo de sentimentos, e agora, tudo pode ser apenas uma simulação.

Antes do Dr.Psicólogo ameaçar ceifar sua própria vida ele gritou “não pode ser!” e eu disse que pode ser, que deve ser. As nossas memórias de infância, numa certa idade, começam a parecer mentiras. Nossas vontades sem sentido, nossos sonhos e anseios. Pergunte-se, eu disse para o Dr.Psicólogo “quem era o avô, do seu avô, do seu avô, do seu avô, do seu avô, do seu avô, do seu avô, do seu avô, do seu avô, do seu avô?” acha que, alguém que sobreviveu a todas as crises conseguiu transmitir a sua linha para cá? Então porque você se acha especial, uma vez que se somos tantos, e tão poucos conseguem fazer a diferença, o que nos torna tão especial como o da direita ou o da esquerda? eu disse: “se formos a simulação de alguma raça superior, apenas estaremos cumprindo o nosso papel de ser nada”

E nesta hora o Dr. Psicólogo acordou, ele estava suado, assustado, chorando. Suas mãos tremiam e seu remédio acabou. Sua esposa dormia ao seu lado, no sétimo sono, e seu filho era comido pelos vermes do cemitério, nem todas as crianças chegarão a vida adulta. “Estou enlouquecendo?” perguntava-se, mas a resposta via de meus lábios, sentado na cabeceira da cama, observando sua esposa “sim, você está louco”. Assim o Dr. Psicólogo saiu, tropeçante, cambaleante. O seu refúgio, a sua última linha de defesa, o seu consultório. Ficou agarrado naquele parapeito durante horas, no limiar entre o voar e o cair. Eu estava sentado no divã, também estava agarrado naquele parapeito. Eu notei que não passava de uma personificação da loucura, de uma doença, de uma tristeza, de algo que martelaria aquela mente débil durante muitos e muitos anos, até a beleza de sua morte. Eu era a coragem do suicídio, a vontade de se jogar, a vontade de simplesmente resolver tudo no silente momento da morte.

O que eu era, o que eu seria? Eu estaria me auto-destruindo?

Mesmo com os esforços de todos, com a gritaria, com sua esposa assistindo tudo, e com todas as motivações para o Dr. Psicólogo manter-se na grande simulação que a vida é, o sue corpo foi enterrado na manhã do dia seguinte, do lado da lápide do filho, nas condolências de familiares e amigos. Resolveria suas dúvidas sem uma resposta, mas rasgando a página do caderno. Cortara o ciclo de sua vida, destruíra o ciclo da incerteza. Agora epenas as lágrimas responderam questões indubitáveis de uma eternidade na solidão de um cair eterno.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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