Os Problemas da “Amizade”

Os brasileiros são tidos como um povo amigável, e são, em sua maior parte, sociáveis e extrovertidos chegando ao ponto de que se você é introvertido, é considerado frio e grosseiro. Pessoas de outras nacionalidades, como americanos ou europeus, são consideradas frias e grosseiras por eles, por não serem tão “calorosas” quanto eles são. Mas toda essa “amizade” esconde algo de podre por trás: A busca por tamanha proximidade se dá, na verdade, com o objetivo de tornar a vida mais fácil. E a vida em comunidade, onde as pessoas se ajudam e se importam umas com as outras, pode sim se tornar mais fácil, mas nesse caso, apenas no sentido em que possibilita a corrupção, a hipocrisia e a redução à mediocridade.

As pessoas te tratam diferente se você for “amigo” delas, sejam elas ou você profissionais, ou colegas de trabalho. Se elas te conhecem pouco, e você tem uma expressão séria e de poucos amigos, elas tenderão mais a fazer as coisas do jeito certo, como elas deveriam ser feitas, mas a partir do momento em que você se torna “amigo” delas (mesmo que essa amizade só exista na cabeça delas), elas começam a abusar desse laço com você. Por que você acaba de tornar a vida delas mais fácil.

O trabalho não é mais tão bem feito pelo funcionário como era antes, por que ele sabe que um chefe não ligaria para sua vida pessoal e o repreenderia, mas um amigo terá compaixão pela sua incompetência. Um colega de trabalho não pediria a alguém frio para fazer sua parte para ele, ou para corrigir os erros que ele cometeu, mas ele sabe que um amigo não o deixará na mão. Colegas e funcionários fazem o que deve ser feito ou esperam sofrer as consequências. Amigos esperam “consideração”.

“A consideração consiste em, por amor, ter por alguém uma opinião acima da justa”, escreveu Espinoza em seu livro “Ética”. E é aí que começa a corrupção e a mediocridade. Uma “opinião acima da justa” quer dizer que você, por amor, ignora aquilo que é justo e dá àquela pessoa privilégios que não daria a uma pessoa a quem não amasse. Lembrando que para Espinoza, “amor” significa “uma alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior”, e “alegria”, por sua vez, “passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior”, ganho de potência, o que Freud definiria como “prazer”. Você concede privilégios a uma pessoa e permite que ela cometa erros em troca de prazer. Isso é corrupção.

A pessoa, por sua vez, com seus lamentos, desculpas e acusações de que “você não tem consideração”, “você é cruel”, “certinho demais”, “chato”, “ninguém gosta de quem segue todas as regras”, ameaça privá-lo deste amor, esperando que, na esperança de conservar aquilo que te dá prazer, você irá ceder e permitir que ele continue cometendo os mesmos erros. Isso é chantagem emocional.

E a cada vez que esse plano dá certo, a cada vez que você cede, as pessoas que usam dessa chantagem se tornam mais e mais acomodadas, e seu desempenho, pior. Enquanto críticas, rigidez e justiça tornariam suas vidas mais difíceis, mas fariam com que essas pessoas tivessem de se esforçar mais para evoluir, a acomodação as leva apenas à mediocridade. É o que acontece quando “amigos” pedem sua opinião sobre seus trabalhos medíocres e, por consideração, você mente e diz que estão fantásticos.

Mas é isso o que nos tornamos atualmente. Um bando de medíocres e chorões que se acham todos flocos de neve únicos e especiais, todos a última bolacha do pacote. Escrevem textões nas redes sociais e se acham ativistas revolucionários, escrevem alguns versos em um blog e se acham poetas geniais, escrevem aforismas sobre seu dia a dia e se acham os novos pensadores da contemporaneidade, e isso só para falar da escrita, mas dá pra ver o mesmo em outras formas de arte, na filosofia, ciência, esportes, e todo o resto. Todos fazem o mínimo e acham que são grande coisa, por que sempre têm “amigos” para dizer a eles que eles são grande coisa.

Mas aí então, quando eles saem para o mundo real e vêem que ele não tem consideração, aí então eles se tornam amargos, se acham gênios incompreendidos e falam que são bons demais para um mundo que é injusto e cruel. Tão injusto e cruel quanto você foi quando não teve consideração por todos os erros e atrasos e desculpas que te deram no passado. É como se quisessem chantagear emocionalmente o mundo. Só que o mundo não cede à chantagens emocionais.

E você também não deveria.

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Autor: davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

Uma consideração sobre “Os Problemas da “Amizade””

  1. David,

    Seu texto está perfeito. Eu diria que em síntese ele diz que o lado bom é sempre o lado que eu estou e que quero permanecer. Se alguém cruzar a linha para o outro lado, torna-se um “inimigo potencial” que deve ser eliminado a todo custo, boicotado, xingado, excluído, etc… A amizade verdadeira não acompanha esse tipo de ideia, porque a amizade verdadeira está acima de qualquer posição que o amigo vá tomar, contra ou a meu favor. Se o amigo verdadeiro pode me dizer verdades que me machucam e mesmo assim conservar-se amigo, por entender que é na liberdade que se ama o outro, inclusive liberdade no divergir, então, encontramos aí um tesouro.
    Desde que o mundo é mundo e o homem se entende ser pensante as coisas caminham junto com os “interesses”, mas o amor e a amizade vão além desse mundinho tosco e egoísta que alguém insiste em criar para si mesmo.

    Abração, meu amigo!

    Drica.

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