A melhor história que possamos contar precisa, necessariamente, ter no mínimo duas prostitutas e uma garrafa de uísque. Quem nunca esteve nesta situação inusitada pode-se dizer, com firmeza “estou livre de doenças venéreas!” No caso, me faltam as prostitutas agora, neste almoço de sexta, apenas pude trabalhar na meia garrafa de uísque. A operadora de telefonia me deixou esperando, não sei se este intermezzo de feriado acabou diminuindo o quadro empregatício destas ilustres empresas. Claro que, entre um gole e outro, a versão telefônica de Gymnopedie adentrava na minha cabeça e eu imaginava o próprio Satiê como um honorável trabalhador das indústrias telefônicas brasileiras.

A voz delicada e áspera da moça no outro lado da linha perguntou qual era o meu problema. Talvez eu tivesse  relatado sobre o meu alcoolismo, ou outros vícios que eu tenho na vida, das tentativas de suicídio frustradas por momentos de sanidade, ou pela voz que me acompanha nos momentos de silêncio me dando a certeza absoluta que, ou eu sou louco ou eu escuto Jesus. A garota do outro lado, nada tinha de culpa com isso tudo, ela queria saber do meu único e exclusivo problema de consumidor e se, no final da ligação, eu poderia dar a ela um elogio. Claro que,  eu não lembrava o motivo do meu contato. Dei um desconto para mim mesmo, meia garrafa de uísque ainda as 11:00 da manhã não trás longevidade para ninguém.

Elogiei, quebrado o protocolo, a voz da garota. Revelei que também fui um escravo das agencias telefônicas pelourinescas. Havia algo de simpático em mim, ou de tédio no dia dela, que desenrolamos a conversa. Por mais que aquilo tudo estivesse sendo gravado pelo supervisor, a atendente parecia bastante afável, me revelando coisas como a vontade de pedir demissão, os diversos remédios para ansiedade que tomava, e a vez que agrediu o ex-namorado, furando-o um olho. Demos risadas, boas risadas. Queria saber como ela era e uma foto de seu rosto chegou. Cabelos curtos, morena, olheiras  e sorriso facebookial. Nada mal, nada grandioso. Morava em outro estado, seu sotaque tinha isto impresso no seu falar.

Falei do meu pseudotrabaolho de escritor e como deveria ler mais gramática. Ela se interessava em leitura, mas não de maneira olímpica. As pessoas se dizem leitoras assíduas, mas o mais próximo de Shakespeare que um dia conseguiram chegar, foi no especial da Turma da Mônica. Éramos completamente incompartíveis, mas a imagem dela sentando no meu pau afastava completamente o fato dela  não conseguir diferenciar Beethoven de Mozart. Ainda sim, ela preferia, muito mais, os trabalhos de Hendel.

Seria de fato interessante, enquanto fumávamos nossos cigarros depois de trepar, conversarmos sobre a aleatoriedade de termos nos conhecido. Foi uma roleta russa, vida ou morte, destino. Ela, com todas as suas virtudes, e com todos os seus vícios, se fez de uma sombra do outro lado da linha para uma luz que, estava de calcinha vermelha no nosso primeiro encontro. Rimos e vivemos a aleatoriedade dos dias, e de como a surpresa acontece para quem consegue agarrar o não cotidiano.

Mas tudo isso é apenas filosofia.

Esta não é a melhor história que eu posso contar, mas, outro dia, eu estava com duas prostitutas…

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