O Dia em que virei Embalsamador

Dizem que você nunca esquece o primeiro cadáver que embalsama. Mas eu não me lembro do meu. Acho que era uma velha. Mas os primeiros três ou quatro eram tão parecidos: Velhos, gordos, frios, mortos que não consigo me lembrar ao certo.

Me lembro que uma delas era fumante… As veias da perna estavam tão entupidas que a máquina não conseguia bombear o formol pra dentro do corpo. Normalmente nessa hora é quando o sangue, empurrado pela pressão da máquina, começa a jorrar pelo nariz e boca do cadáver. Mas no caso da fumante, tudo o que saiu foi um líquido preto que parecia cheio de fuligem, serragem, ou carvão.

Um dos embalsamadores teve de abrir o peito dela com um costótomo – um alicate grande que serve para cortar costelas – para drenar o resto do sangue. Ele removeu o coração e os pulmões – que estavam negros – os embebeu em formol e os colocou de volta, enchendo o resto da cavidade de serragem de madeira, o que iria impedir que qualquer resto de líquido dentro dela vazasse.

Enquanto uma das alunas limpava o rosto do defunto com uma esponja e detergente, eu fui costurar a incisão que havia sido feita em sua coxa para a injeção de fluido na artéria femoral. E vou te dizer: Rapaz, aquilo foi difícil. O excesso de gordura debaixo da pele tornava aquilo muito escorregadio. A gordura entrava entre os dedos das luvas cirúrgicas e fazia com que a agulha escorregasse e quase perfurasse minha mão.

– Nunca costurei nem roupa – eu disse, lutando com aquela pele banhada em gordura cor-de-cheddar – tinha que começar logo com ela?

– É bom que daí você já aprende no modo hard! – o professor respondeu, enquanto observava os alunos trabalhando. Eu olhei de novo para aquele líquido preto que descia pelo ralo na mesa de metal e disse:

– Então esse é o nosso futuro? – me referia ao fato de eu e ele termos acabado com um maço de cigarros em uma tarde de plantão naquela funerária.

– Isso? Filho, o pulmão dela deve estar bem melhor que o meu!

O humor dos embalsamadores era, como esperado, mórbido. Pareceu o lugar certo pra mim, depois de ter decidido abandonar minha carreira brilhante ao lado da elite intelectual paulistana, indo a congressos e cursos renomados para aumentar o meu Lattes.

O que aconteceu? Bom, pra falar a verdade eu nunca gostei muito de pessoas, mas acho que isso já deu pra notar. Muitos me disseram que seria loucura seguir uma carreira na área da saúde ou da educação sendo um misantropo. Mas eu odiava a área de exatas. Eu havia feito um curso técnico de mecânica e odiado aquilo. Então eu havia caído em um dilema: Eu odiava trabalhar com pessoas, mas também não queria trabalhar com máquinas. O que restava então?

“Corpos”, foi a resposta que me veio à cabeça no antigo apartamento em São Paulo, enquanto assistia a um filme no qual um garoto embalsamava corpos no necrotério com sua mãe. Estando em São Paulo, não foi difícil encontrar um local que oferecesse um curso disso, e eu não pensei duas vezes.

E lá estava eu, durante quatro dias, em um plantão de oito a dez horas por dia, aprendendo a milenar arte da preservação de cadáveres. Tá certo, não a milenar, eu não aprendi a arrancar o cérebro de corpos pelo nariz com uma pinça para mumificá-los (apesar de ter arrancado quilos de algodão pelo nariz com uma pinça para embalsamá-los), mas eu aprendi a como preservar um corpo e prepará-lo para uma última visita da família.

É engraçado, agora que pensei… Eros e Tanatos, sexo e morte. Eu me tornei um estudioso da sexualidade humana pela psicanálise e agora começo os estudos da morte pela tanatologia. Acho que Freud ficaria orgulhoso. E me pergunto em que resultarão todos esses estudos.

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Autor: davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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