Um pote cheio de coxa de frango frito. Daqueles engordurados que deixam os dedos grudentos e nojentos. Dizem que Dom João, aquele que veio para o Brasil fugindo de Napoleão, sim, este mesmo, ele guardava coxas de frango na roupa para poder comer depois. Um homem gordo e nojento, como todo rei deveria ser. Voltando ao pote, cheio de frango frito, daqueles que estalam na boca.

Sonhei com fadas e dragões.

Sonhei com a mais pura liberdade.

Um pote cheio de qualquer coisa, claro que se podia imaginar qualquer coisa quando se levanta do sofá, se desliga a televisão e se põe a imaginar. Em um passado não tão distante eu escrevia sobre literatura fantástica. Escrevia sobre guerreiros medievais e suas donzelas, escrevia sobre cavaleiros negros em seus cavalos com nomes bestiais. Escrevi sobre a lenda de um dragão que aprisionava a alma das pessoas em pequenos cristais como uma forma de tolerar a solidão.

Agora tudo se resume a um pote de frango frito.

Ainda tenho os manuscritos engordurados em alguma gaveta perdida. Ainda tenho alguns sonhos perdidos em alguns lugares. Ainda sonho em ser Tolkien.

Quando durmo, enfrento dragões. Sou filho das fadas com os elfos, brando minha espada flamejante e em uma batalha mortal, corto a garganta do lagarto gigante sendo banhado pelo seu sangue escuro cheio de ódio e pavor.

Acordo assustado, o balde de frango frito caiu.

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