Amnésia

Acordei sobressaltado, e vi que não estava em meu quarto. Ouvi o apitar das máquinas, olhei em volta, e vi algumas pessoas deitadas em camas como a minha, todas ligadas à máquinas. Havia um tubo transparente enfiado em meu braço, mas ele não estava conectado a lugar algum, e eu sentia dores por todo o meu corpo.

“Que merda que eu estou fazendo aqui?”, pensei, olhando para o teto. Fiz a primeira coisa que me veio à cabeça, não de maneira racional, mas quase que instintiva: Levantei e abaixei meus quatro membros, um de cada vez. Perna esquerda? Ok. Perna direita? Ok. Braço direito? Ok. Braço esquerdo? Ok. “Pelo menos está tudo funcionando”, pensei. “Bom, vou ficar aqui de boa, até alguma enfermeira passar por aqui, aí eu pergunto para ela o que aconteceu”.

Meu rosto e minha mão estavam enfaixados. Eu usava uma camisola grande, sem cueca, e estava coberto por um fino lençol. Pensei que se tivesse uma ereção ali, com alguma das enfermeiras passando, seria o fim, mas então pensei que aquilo devia ser a menor das minhas preocupações.

Do meu lado direito havia várias pessoas dormindo, mas do meu lado esquerdo, apenas uma. Era um homem branco, careca, ainda vestido com as roupas corpos, apenas descalço. Seus pés estavam sujos, suas roupas eram humildes, e ele tinha um corte na cabeça com vários pontos fechando-o. Eu me perguntei o que teria acontecido com aquele homem. Seria uma facada? Uma garrafada? Seria ele perigoso? Talvez fosse apenas um acidente de moto.

Algum tempo se passou enquanto eu pensava, e uma enfermeira entrou no quarto e começou a olhar os pacientes dormindo. Quando ela se aproximou da minha cama, eu perguntei:

– Moça, você sabe o que aconteceu comigo?

Ela olhou para o meu rosto enfaixado por alguns segundos, então olhou em alguns papeis que estavam presos na borda da cama, e então disse:

– Você foi acidente de moto.

E então saiu andando rapidamente para fora do quarto. “Você foi acidente de moto”, essa frase nem ao menos fazia sentido, mas eu a entendi. “Bom, eu não tenho carta”, pensei “então devo ter sido atropelado por uma”. Mas eu não conseguia me lembrar. Fiz um esforço, mas as últimas imagens que vinham à minha cabeça eram eu saindo de casa para cortar o cabelo. Tranquei o portão, subi na minha bicicleta, desci com ela da calçada, e… Nada.

Minha família entrou no quarto um tempo depois. Pareciam bem preocupados, mas felizes em me ver acordado. Minha mãe disse que eu havia tentado cruzar a avenida na esquina da nossa casa com minha bicicleta, e uma moto me acertou no lado dela, me jogando no asfalto. Os vizinhos chamaram ela e ela estava lá quando o socorro chegou. “Mas o médico disse que você não quebrou nada”, disse. Ela disse que eles fizeram vários exames, tiraram minha roupa e me deram pontos depois que me trouxeram para o hospital. Eu não me lembrava de nada.

“Foi um milagre”, ela disse. Eu ri daquilo. Minha tia disse, mais tarde, que era meu anjo da guarda que me havia salvado. “Claro que foi”, pensei com ironia enquanto tomava um shake estranho que eles continuavam me servindo no hospital.

Tive alguns flashes de lembranças da cena de médicos ou enfermeiros me levando pelo corredor em uma cadeira de rodas, tirando minhas roupas e me colocando debaixo de um chuveiro frio. Eu estava tremendo, minha mão doía muito, e eles esfregavam um sabonete em minhas feridas, o que ardia bastante. Tirando isso, o dia correu normal. Uma enfermeira veio colocar uma fralda em mim um tempo depois. Disse que era para eu “não ficar com o bumbum de fora”. Eu estava mais preocupado era com a parte da frente, na verdade, e ela viu tudo.

No dia seguinte eu fui para casa. Eles me levaram em uma cadeira de rodas até a entrada, mas na verdade, nem era preciso. Nunca soube do motoqueiro. Minha família disse que ele havia chamado a ambulância e prestado auxílio até o final, então eles não iriam processá-lo. Meus membros estavam todos funcionando, então não me importei.

Um tempo depois, acho que no dia seguinte, estava contando para um amigo meu sobre o acontecido, e me lembrei de um sonho que havia tido no dia anterior ao acidente.

– Foi estranho, cara – eu disse – sonhei que estava deitado no asfalto quente da rua. Tinha algumas pessoas em volta, os vizinhos. Estava muito quente, mas aí senti um deles jogar água gelada de uma garrafa na minha testa, e o agradeci mentalmente por isso. Eu sentia uma dor inimaginável no meu corpo. Parecia como se cada osso do meu corpo, a parte central de cada membro e das minhas costas, doesse na mesma intensidade, e eu sentia aquilo e não conseguia me mexer, nem abrir os olhos, por causa do sol. “O que aconteceu?” perguntei. “Você sofreu um acidente”, um deles disse. “Não se levanta, o resgate já está vindo”, outro disse. “Levantar?”, eu pensei, “viado, eu não consigo nem me mexer!”.

Eu ri na hora que me lembrei dessa parte do sonho. Parecia surreal pensar naquela resposta naquela situação.

– Você falou isso para ele?

– Não, eu… Eu acho que só pensei. Aí uns bombeiros chegaram e foram me colocar na van do resgate, e eu me lembro que a dor que senti quando eles me levantaram para me colocar na maca chegou a um nível extremo. E aí eu ouvi eles fechando a porta da van. Espera aí…

– O que foi?

– Caralho, isso não foi um sonho, cara. Foi isso o que aconteceu mesmo!

Minha memória, não completamente, é claro, havia voltado, mas não da maneira que eu esperava. Eu simplesmente me lembrei de um “sonho” que havia tido antes, e voilá, lá estava ela de volta.

Eu não sei o que é mais bizarro: Você lembrar de uma dor excruciante que você tecnicamente não sentiu, mas sabe que sentiu por que as memórias dolorosas voltaram, ou pensar que quando eu estava agonizando no asfalto, a primeira resposta que seu cérebro conseguiu pensar em dar a um gentil cidadão que o estava ajudando foi com sarcasmo. Parece que o sarcasmo já virou parte de mim.

Ah não, me lembrei de algo mais bizarro do que isso. Quando disse para minha mãe que havia recuperado parte da memória, contei a ela a parte do vizinho gentil que jogou água sobre minha cara enquanto estava no asfalto quente. Quando disse aquilo, sua expressão se tornou uma de desconforto, ou até nojo, e ela disse:

– Ninguém jogou água na sua cara enquanto você estava no chão, filho – ela revelou – aquilo era seu sangue.

As vezes é bom você não lembrar de algumas coisas.

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Autor: davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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