O manto da madrugada.

Com a boca cheia do meu pau e com minha mão enterrada em seus cabelos eu nada podia ouvir. Era madrugada, até os carros estavam silentes. Um ou outro gato miava, mas tal qual um cenário desnecessário para uma noite mundana qualquer. Lá fora o medo poderia imperar nas desguarnecidas esquinas sujas, com olhos arregalados para cada farol alto, lá fora ainda seria possível sentir o cheiro da cerveja esquentando nos copos e garrafas, no barulho dos bares e nas pessoas escoradas nas mesas de metal. Distante de tudo, na minha própria ilha, ela com o meu pau em sua boca, eu sentindo o prazer mais bestial do homem numa forma inútil de reprodução. Como se pudesse flutuar no vácuo perdidos e inertes naquele mundo não nosso. Conseguiria visualizar o ligar e o desligar das luzes, com a madrugada viva, um ser respirante, único e diferenciador. Um manto negro que derrama seu véu na normalidade do dia, quando as meninas saem das suas tocas e vão para as esquinas  e os meninos se tornam bestas-fera ameaçadoras e violentas. Eu poderia, se me concentrasse, escutar a batida de alguma música distante, o barulho salivante da minha companheira me impedia de ter plena atenção neste ruido de fundo. Seria a Terra se movimentando? Os sons espaciais? Impossível de se descobrir um dia. Apenas imperava o nada, do nada, para o nada. Num mundo completo por ilusões sensoriais, maneiras do nosso cérebro demonstrar que o que tinha lá fora era criado por nós mesmos, todas estas sensações, todo este tudo. Poderia imaginar agora os carros parados no sinal, não, não podia, eram quase três, os sinais apenas piscam tristemente em amarelo. Ninguém morre de madrugada num acidente de carro, ninguém morrerá num bar, bêbado e perdido, ninguém morrerá com uma puta sentada no colo, ninguém morrerá esta noite, ela disse uma vez, quando estávamos deitados no palco externo de um teatro, olhando as grandes árvores, ninguém morrerá e ninguém morreu até agora, porém o agora está passando, como os ponteiros dos relógios que destroem a inércia de um dia comum da semana. Uma fisgada forte, seguro para não gozar, ela para de chupar por um segundo e olha nos meus olhos, vejo que são castanhos claros, vejo o seu cabelo liso grudado nas costas caindo pelas ancas, caindo pelos lados, vejo sua cara de boba, antes de fechar na seriedade do seu ato, retornando a prática, retornando a fome. Penso nela exercendo sua profissão diurna comum para, de noite, aproveitar deste momento lúgubre comigo. Aproveitar sua juventude desperdiçada com atos sexuais inúteis, talvez até egoísticos com os milhares de espermatozoides morrendo em seu suco gástrico, daí também me sinto um inútil assassino genocida, matando minha própria genética por puro egoismo, No meio do pensamento uma buzina me desperta da alegria de viver, paramos por um instante, pensamos (ambos) que fosse o seu namorado, mas era um pensamento torpe, ele nunca chegou a visitá-la num dia de semana, talvez ela nunca tenha chupado o seu pau. Faz parte. Não nego, tais sustos também são conseqüências de uma madrugada dentre tantas que ainda vão existir  e nesta existência logo dormiremos e deixaremos que este dia tenha ido embora e tudo terá ido embora eu, ela, o namorado, a madrugada. O amanhecer é o maior assassino dos sonhos. Gozo, ela bebe tudo com vontade e uma pitada de nojo. Agora é a minha vez, lamberei sua boceta enquanto ela filosofa sobre a madrugada.

 

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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