Quando ela conseguir dormir.

– Para você, hoje, há três anos, eu recebi a notícia que você tinha partido.

 

Ela lentamente deslizou para dentro das cobertas no seu silencio da madrugada. Como se pudesse colocar uma dúvida dentro do seu coração, uma sensação de sozinha, de solidão. O relógio afirmava que eram três da manhã, a hora do demônio como dizem, a hora de que os justos dormem. Ela não conseguia dormir, há muito não sabia o que era sonhar, talvez as dores e as preocupações que martelavam em sua mente faziam que anos de evolução mantivesse sua quietude em alerta, todos os problemas acordavam quando ela punha sua cabeça no travesseiro. Nada poderia machucá-la, mas a saudade era o que mais doía. Tempos bons aqueles que ficaram para trás, agora com este tanto de responsabilidades e loucuras, agora precisando viver este dia após dia sem tempo para si. Na sua mente a pergunta martela: valeu a pena? Não haveria resposta, ninguém iria surgir no meio da noite com o tão precioso sim ou não. Ela veria o sol nascer e permaneceria com sono enquanto todos estão felizes.

Mas quando se fica muito tempo sem dormir, tudo perde o seu gosto de verdade. Era procurar um tesouro imaginário, uma vontade de viver, uma vontade de fazer tudo valer a pena. Eram nove da manhã, ela segurava seu café, subindo os milhares de andares do elevador. Eram dez da manhã e lá estava, sentada na frente de um monitor preparando os anúncios da empresa na rede social. Todos estavam felizes, sexta-feira, happy hour, dentre outras coisas. Todos viviam, respiravam, comentavam, faziam parte de um universo ultra, m universo que não tem uma saída de escape, que não se tem um motivo. Quase vivendo dentre a sombra e a luz, no fundo ela os invejaria, por que eles conseguiam sorrir, porque eles conseguiam dormir. No fundo ela queria que todos estes pequenos prazeres da vida regressassem, mas era pedir demais, estava afundada nas suas próprias dores, estava procurando alguma forma de dizer adeus.

Um dia ela decidiu que iria dormir para não acordar mais. Talvez num momento de desespero tomara esta decisão impensadamente. Se tivesse amigos, se tivesse conversado com alguém, esta medida drástica teria sido contornada. Dentre tantos “Se” ela acabou se esvaindo. Dormindo de fato, para sempre. Seu corpo foi encontrado muitos dias depois. A notícia foi dada no seu trabalho, e aquela raça sorridente recebeu em choque esta informação. Sim, entregara-se ao sono eterno. Rezaram por ela, mesmo ela nunca tendo acreditado em Deus. Choraram por ela, mesmo nunca tendo parado para ouvi-la, notá-la, observá-la. Agora cai o pano, desligam as luzes. Desce o caixão. Quem ela um dia foi, será um punhado de ossos no futuro.

Hoje ninguém mais lembra seu nome, suas razões e seus motivos. Todo esquecem e passam a viver a normalidade dos dias. Eu havia te notado, te observado, e até sentido suas angústias. Estava longe e quando resolvi me aproximar era tarde demais, recebi a notícia como os demais. Não acredito em céu ou inferno, mas, espero que tenha conseguido pelo menos o seu objetivo de descansar, dormir.

Se pudesse voltar no tempo, teríamos uma agradável conversa.

Se pudesse voltar no tempo, velaria teu sono.

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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