Ela faz a curva sem frear, põe duas rodas sobre a calçada, derruba uma lixeira amarela, daquela que se recolhe vidro, e parte cantando pneu. Sinto as garrafas fazias rolarem no assoalho do carro e encostarem nos meus calcanhares. Elas tilintam nas curvas, de um lado para o outro. Sinto um molhado no pé, talvez a garrafa vazia de cerveja não estivesse tão vazia assim. Mais uma curva, a traseira do carro passa a milímetros do poste. Ela gira o volante para o lado o posto, o veículo patina na rua e corrige, mantendo-se reto. O barulho das rotações do motor é agradável, uma espécie de música sem sentido, de ruido grasnado estrondoso. Ambíguo, indescritível, agradável. Noto que estou sem cinto de segurança. Tateio em meus bolsos em busca de meu maço de cigarros. Tenho apenas dois. O ponho na boca, pego meu esqueiro (no bolso oposto) e o acendo, fazendo aquela ponta inerte iluminar-se na escuridão do interior daquele carro.

Ponho o cinto de segurança.

Valentina estava sem.

Para ela, pouco importa voar a 130 Km/h pelo pára-brisa da frente. Tudo bem que eu acredito piamente que isso é impossível, uma vez que Val dirige muito melhor quando está completamente embriagada. Buscava naquela loucura uma noção de realidade, acreditando que tais moinhos eram gigantes, cambaleava de garrafa em garrafa, de problema em problema. O violão velho sambava no banco de trás, entre trancos e barrancos. Cada curva violenta, cada desvio, cada acelerada. O palpitar fundo daquele coração feminino, pulsante, esborrotante. As mãos seguravam o volante como o vaqueiro que segura o arreio do boi, mantendo a máquina controlada, porém a beira de enlouquecer.

– Você ainda me ama!!? – grita Valentina. O som do motor cada vez mais agudo. Em seu rosto borbotavam lágrimas que escorriam pelas bochechas, fazendo o seu nariz escorrer um translúcido catarro. Não haveria resposta para esta pergunta. Eu deixei claro para Valentina os riscos de se envolver com alguém como eu. Não faço as pessoas felizes a longo prazo, nem exijo que me façam feliz. O sofrimento não é uma opção, é apenas algo que será adiado. Maquiavel já dizia “uma guerra não evita-se, mas protela-se e nunca ao próprio favor” eu colocaria tal afirmativa para o sofrimento. Valentina sabia que nossos momentos felizes seriam modificados por sombrios momento de tristeza e auto-destruição. Ela saberia que não há fidelidade em gatos vadios fadados a morrerem solitários por não conseguirem se adequar ao convívio no seio familiar. E no auge dos seus 30 anos de idade, tudo que ela queria era calma, paz, tranquilidade.

Agora ela está a 140 Km/h numa madrugada perdida, me indagando sobre amores invisíveis. líquidos, instáveis. No período pós-bar, depois de uma longa noite de bebedeira e lamento. O vento forte apaga o cigarro. O flash dos radares brilham atrás de nós, talvez ela consiga perder todos os pontos de sua carteira de motorista naquela única noite. Porém, conheço a Val, provavelmente este carro esteja no nome da sua avó cega. E mesmo assim, uma batida nesta velocidade não restaria muito para pagar alguma multa. O álcool no meu sangue me impede de ficar nervoso, talvez o sentimento suicida me impede de preocupar-me com minha vida. Valentina repete sua pergunta mas não tenho como responder. Ela deve me tratar como uma doença, como um vício impossível de ser sanado. Sim, é isto que eu sou. Um vício. Alguém que trará o que se espera para depois desaparecer levando as cores. Penso que realmente deveria morrer de uma maneria trágica e dolorosa, neste acidente de carro talvez? Não sei. Penso que o amor é algo que passa, que não se respira, que desaparece. Não existe o amor verdadeiro, o casal de velhinhos.

O amor é um sentimento que vive no hiato do sexo oral e da ejaculação.

E o “gozar” já foi. Estávamos em um ambiente suicídico: Eu. Valentina, e a chance de morrer.

– Você nunca me amou – ela afirma, chega em sua conclusão lógica. O carro diminui a velocidade até parar. Ela começa a chorar, e a chorar, e a chorar.

– O amor não existe.

Fomos para casa. Trepamos. Dormimos.

Se o amor é dissolvido, a morte é o estado perfeito da matéria.

 

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