Era uma terça feira, e como em quase todas as terças-feiras, eu estava indo para a rodoviária pegar um ônibus para São Paulo. Normalmente eu vinha direto do curso, o que me deixava tempo o suficiente apenas para comprar a passagem, almoçar e pegar ônibus, mas como eu estava de férias, eu havia almoçado em casa, e depois que comprei a passagem, fiquei um tempo sem nada para fazer na estação.

Decidi fumar um baseado.

Saí da estação, indo até uma rua sem saída deserta, um lugar que costumava ir antes, quando tinha mais tempo para isso, acendi e fumei rapidamente, olhando em volta para ver se nenhum carro ou pessoa se aproximava. Depois que senti o grau batendo, acendi um cigarro para disfarça o cheiro e voltei para a estação, indo na direção de um banco de pedra onde costumava ficar sentado fumando antes do ônibus chegar. Coloquei meus fones de ouvido e liguei em uma música qualquer, me sentei e continuei fumando e esperando o tempo passar.

Estava sentado no banco, quando o vi se aproximar. Levei a mão ao fone meio que instintivamente, por saber que não conseguiria evitar aquela conversa. Assim que o tirei, pude ouvi-lo dizer:

– Não fuma essa merda, cara! Tão jovem, tá querendo morrer?

De novo instintivamente, devo ter feito a cara de maior desprezo que consegui demonstrar e disse:

– O que você quer?

– Primeiramente sua educação – ele respondeu, de maneira firme, mas com um sorriso, não se mostrando intimidar pela minha face – posso falar com você?

– Fala.

– Então irmão, eu sou detento do presídio ali atrás, saí em indulto pro natal, mas seguinte: Não tenho dinheiro pra voltar pra casa pra ficar com a minha família. Aí pensei “pô já faz nove anos que tô preso, vou fazer o que? Vou roubar? Não, né”, aí eu tô juntando – ele me mostrou um maço com várias notas de dois reais – se você puder me ajudar…

Normalmente eu não ajudaria. Depois que havia me reconciliado com meu egoísmo e aceitado-o, eu havia decidido que não daria mais esmola quando me pedissem. Mas não sei o que foi, talvez o momento em que eu estava, talvez alguma coisa na forma como ele se impôs, talvez a visão do maço de notas de dois me fez lembrar que eu tinha várias notas de dois na carteira das quais eu queria me livrar… De qualquer forma, dei uma das notas a ele.

– Valeu. Ah, vou fumar um cigarro também – ele disse e se sentou ao meu lado no banco de pedra.

– Aí, caralho – eu disse, ao ver aquilo – estava reclamando de mim agora pouco!

Depois que disse aquilo, me lembrei que estava falando com um detento ainda cumprindo pena em uma penitenciária, e que ele já havia reclamado da minha educação, e pensei em que merda eu tinha na cabeça para falar daquele jeito com ele.

– Nah, é que você é jovem. Eu fumo desde criança – ele respondeu, tranquilamente – ei, você fuma maconha?

Ele perguntou, e percebi que ele estava olhando meus olhos e rindo. Não vi motivos para mentir.

– Fumo. Por que?

– Tu tem uma cara de maconheiro.

– Ah, é que eu estava fumando um agora pouco.

Mais uma vez me veio o pensamento à cabeça de que eu não deveria ter dito aquilo. Por que eu havia dito, afinal? Eu estava com vergonha? Querendo explicar para o presidiário que minha cara só ficava assim quando eu fumava?

– Sabe como é, né? – continuei – duas horas de viagem… Chato pra caralho… Fumar um para relaxar…

– Sei… – ele respondeu – ou, me dá um baseadinho?

– O que?

– Me dá um baseadinho.

– Ah… Eu não tenho, aquela era só uma ponta que eu terminei de fumar e joguei fora – tive de mentir. Na verdade ainda havia boa parte dele escondido no meio dos cigarros.

– Ah… – ele pareceu desanimado por alguns segundos, mas logo mudou de assunto:

– Eu fumava pra caralho antes… Ainda mais depois que fui preso.

– Ah é? Vocês fumam lá dentro?

– Se fumo? Lá é o que mais tem!

– É? – perguntei, surpreso, e olhei a hora em meu celular. O ônibus partiria em 10 minutos.

– É… Cara, se o cara receber 50 mil pra levar 50 quilos de droga pra dentro o cara leva…

– Saquei. Bom, eu vou lá que meu ônibus tá chegando – disse e levantei do banco de pedra.

– Tá certo irmão. Valeu pela ajuda e boa viagem!

– Valeu.

Respondi e segui andando em direção da plataforma de embarque.

Não me parece muito sábio deixar detentos saírem no final de ano sem terem dinheiro para chegar em casa.