Feliz natal, mulher invisível.

– Escrito entre as 04:00 e as 05:00 do dia 25/12 –

O cinzeiro recebeu meu cigarro com carinho. O último brilho avermelhado daquela ponta faleceu no fim da antiga relíquia de vidro. Apenas os condenados a câncer ainda possuem um cinzeiro em casa. Mesmo com a morte deste último ponto de luz ainda é visível as luzes de natal na minha janela, sim, fora ela que decorara tudo. Se dependesse de mim a árvore natalina permaneceria de ano em ano estática no cantinho sujo deste apartamento, pegando poeira e lamento. Mas ela é muito cuidadosa, enfeitou tudo mesmo sabendo que o que tínhamos não tardaria tanto quanto a duração da própria árvore. Ela queria apenas um lugar para que seu natal não fosse igual aos outros. Quem não quer que o natal seja diferente? Dai estamos neste romance parasitário até agora, onde nos aproveitamos mutuamente do sentimentalismo um do outro, para que no fim saiamos completamente destruídos desta porcaria.

Vejo que a luz do notebook não a incomoda. Ele está acomodado nas minhas pernas. Ela está dormindo do meu lado. Sono profundo. Bebemos o bastante para três noites. Quem gostaria de ver o Papai Noel sóbrio? Enquanto escrevo este texto penso nas vontades dela, no que ela gostaria de fazer. Quando visitei a primeira vez o seu apartamento, não tão distante daqui, era uma coleção empoeirada de lembranças vazias. Sem porta-retratos, sem memórias recentes. Apenas uma pessoa que vive de se mudar, de mudar de lugar, de mudar de ideia. Não queria porto seguro, mas já estava cansada desta vida. Uma vontade de realizar uma grande mudança sem ter por onde começar, quem deseja começar de fato uma grande mudança? Dá trabalho. Porra, os armários só tinham mantimentos e algumas garrafas vazias. Sim, eu vasculho a casa delas, não sei, uma mania. Já fui pego algumas vezes, até pareço um ladrão. Ela tinha algo de interessante em não ter nada realmente interessante. Comida de cachorro sem ter um cachorro.

Era o cachorro fantasma, a vida fantasma, a vida sem esmo. Agora ela dormia como um anjo, no limiar dos 30 anos, sua fertilidade já não seria a mesma coisa, teria sonhos de um dia ser mãe? Pensei em acordá-la para perguntar isto, mas esta pergunta geraria uma cachoeira de várias outras perguntas e a aba da música havia parado de tocar. Ela também se vira, me procura, apoia a cabeça na minha perna. Fecho o Notebook e o resto do texto vai rolar só na minha cabeça. Na latinha um resto de cerveja quente que bebo sentindo o gosto de cinzas de cigarro. Porcaria, não havia usado o cinzeiro. Agora tem cigarro indo para o meu estômago. Que se foda. Ela é linda, eu teria filhos com ela, teria mesmo. Compraria um cachorro para justificar aquela comida no armário. Sim, compraria. Mas seria eu possível dar algum tipo de alegria duradoura para alguém? Na minha foda dou orgasmo, algo que dura alguns segundos e desaparece. E a verdadeira e genuína felicidade? Aquela que dura vários momentos em intermédio a tristeza? Não sei se eu haveria a capacidade disto, talvez esta seja a maior insegurança de quem não se segura em lugar nenhum. Agora, ela, jogando a vida fora, com um homem invisível, com um cachorro invisível, como uma mulher invisível, dura e fria, envelhecendo, morrendo.

Sem passado.

Na manhã de natal eu perguntarei a ela o que gostaria da sua vida.

Acendo mais um cigarro. O terceiro da noite. Ela murmura algo, dorme profundamente. Lá fora a madrugada lentamente se torna manhã.

Feliz natal, mulher invisível.

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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