Feministas Nutella

Estávamos em um pequeno café perto da faculdade, depois da aula. Minhas colegas haviam ocupado duas mesas em uma pequena varanda que dava para a calçada, e tive que me sentar sozinho em um banco que ficava encostado na parede. Não me importei, afinal não pretendia conversar com elas. Ao invés disso peguei um livro e comecei a ler enquanto esperava o tempo passar até o começo das aulas. Não havia levado meus fones, no entanto, então fui obrigado a ouvir a conversa delas enquanto lia:

– Eu fui naquela balada no sábado – uma delas disse.

– E então? Como foi?

– Ai, eu não gostei não. Só tinha gente feia e pé rapada por lá.

– Sério?

– É. Eu achei que ia me sentir bonita perto delas, mas acabei de sentindo mais feia por estar lá.

Eu não sabia se aquelas pessoas eram bipolares ou só hipócritas, mas era sempre interessante ver como na sala de aula, durante as matérias sociais, a maioria era feminista e defensora das minorias, mas quando estavam em seus grupos na cantina ou fora de lá, eram um nojo de pessoa. Aquilo não era nenhum pouco incomum:

Um dia, logo depois de uma aula onde uma delas havia falado sobre “meu corpo, minhas regras”, nós fomos até a cantina comer alguma coisa. Estava calor, e a esmagadora maioria das garotas do campus usava shorts curtos. Apesar de eu não ver diferença nenhuma nos shorts, parece que entre elas devia haver um limite mínimo do tamanho deles, por que elas não deixavam de julgar outras garotas que usavam shorts um ou dois centímetros mais curtos. Uma delas dizia coisas como “nossa, olha aquela lá, está mostrando até a polpa da bunda, que coisa de biscate”.

Mas naquele dia, enquanto estávamos sentados em uma das mesas da cantina, uma garota gorda de outro curso passou pelo pátio. Ela usava um top, que deixava exposta sua barriga saliente, com a qual ela parecia não se importar. Uma das “feministas” da minha sala viu aquilo, e não resistiu em dizer:

– Nossa, olha aquela garota. Como que ela tem coragem de usar uma roupa daquelas?

– Verdade, né – uma outra respondeu – ela podia esconder aquilo, ninguém é obrigado a ver esse tipo de coisa.

O nível daquela estupidez me era doloroso, e eu disse:

– Então parece que o lance do “meu corpo, minhas regras”, e que ninguém deve julgar como uma mulher deve se vestir, só vale se elas forem gostosas, certo?

Elas ficaram surpresas, talvez por eu as ter contrariado, ou talvez por que o ego delas as havia feito esquecer que eu estava sentado na mesa.

– Ah, mas vai dizer que você acha aquilo bonito? – uma delas disse.

– Você fala isso, mas duvido que você iria querer ficar com ela! – a outra acrescentou, me chamando de hipócrita, e elas riram.

– Eu não tenho que achar bonito, nem que chamar ela para sair. Ela que se vista da forma que quiser. Mas se ela não segue os padrões de beleza e ainda assim se veste dessa forma, acho que vocês deviam parabenizá-la por sua coragem, e não rir pelas costas dela.

Débora era o nome de uma das garotas que estava naquela mesa, e a missão de sua vida, além de se formar na faculdade, era emagrecer. Não por motivos estéticos, é claro, pois isso seria fútil, e sim pela saúde. Ela também fazia aulas de pole dancing e vendia lingeries e artigos de sex shop, mas que também não tinham nada a ver com sexo ou sensualidade. Os artigos eram apenas para dar dinheiro extra, e a pole dancing era apenas por que “é um esporte muito difícil, que força muito os músculos do seu corpo, não tem nada de sexual naquilo”.

Ela morava na casa dos pais, em um dos condomínios mais luxuosos da cidade, e eram eles que pagavam todas suas despesas com academia, pole dancing, produtos de beleza, cabeleireira, psicóloga, gasolina, baladas e todos os gastos que tinha com seu cartão de crédito. Mas talvez seu gasto mais importante fosse com sua nutricionista, que a estava ajudando a emagrecer. Uma das dicas que a profissional havia dado a ela, foi a de que “dificultasse um pouco sua vida”, por exemplo, estacionando o carro “um pouco mais longe” da faculdade, para que assim ela tivesse que andar mais e gastasse mais calorias.

Essa era uma estratégia perigosa, no entanto, por que um dos dias em que ela fez o trajeto a pé, me disse que foi assediada no meio do caminho.

– O que aconteceu?

– Ah, eu tinha acabado de voltar do almoço, saí do carro e estava andando a avenida, e tinha um cara do outro lado da rua, acho que ele tava trabalhando na casa, era um jardineiro ou algo do tipo. Quando eu passei, ouvi ele fazendo uns “psiu”.

– “Psiu”? – perguntei.

– É, ele fez uns “psiu” umas vezes. Eu não olhei, só continuei andando, mas ele continuou fazendo até eu sair da avenida.

– Ele foi atrás de você?

– Não, ele ficou lá parado fazendo “psiu”, não disse mais nada.

“Puta assédio”, pensei. Fico revoltado quando esses machos opressores e privilegiados que não têm o ensino médio completo e que fazem um trabalho braçal de sol a sol em troca de um salário mínimo assediam as pobres burguesinhas universitárias que já têm de lidar com o sacrifício que é estacionar o carro dos pais 500 metros mais longe do portão da faculdade para queimar algumas calorias. É triste de se ver.

Alexandra era o nome de outra das garotas da mesa. Ela nunca havia se importado muito com esse tipo de coisa, mas aí começou a namorar com um advogado engajado nas causas sociais e decidiu começar a estudar assuntos sobre feminismo. E por “estudar”, eu quero dizer compartilhar textos de páginas nas redes sociais, já que não me lembro de ela ter lido sequer um livro sobre o assunto. Ela queria fazer parte daquele grupo, se identificar com ele, mas considerando sua classe social, deve ter sido difícil para ela encontrar algo do que pudesse reclamar, já que a única opressão que ela conseguiu pensar que sofria foi:

– Eu me sinto oprimida a passar maquiagem, por que acho que se eu não me arrumo, as pessoas vão olhar feio pra mim! Eu não consigo, por exemplo, ficar um dia sem tomar banho sem ficar me achando nojenta, mas os homens não têm esse problema, por que a sociedade não cobra isso deles como da gente.

As primeiras feministas, aquelas raiz, lutavam nas ruas para garantir seus direitos de voto, participação política e igualdade aos homens. E por causa disso elas eram presas, espancadas e mortas, mas isso não as impedia de lutar. Me pergunto o que elas diriam para essas feministas nutella que se sentem oprimidas a tomar banho e passar maquiagem, não por que do contrário são agredidas ou violentadas, mas por que “olham feio” para elas.

E claro, eu podia ter dito a ela que convivi a maior parte da minha vida com mulheres, e que foram elas (incluindo aquelas que estavam na mesa) que me disseram a minha vida toda que eu deveria sorrir mais, falar mais, emagrecer, fazer academia, corrigir minha postura, cortar meu cabelo, usar roupas melhores, parar de fumar, parar de beber, sair mais, transar mais, entre outras coisas. Eu podia ter dito isso, mas é claro que isso não faria diferença para nenhuma delas, já que meu cromossomo Y faz com que eu pertença à classe privilegiada e opressora, e me torna imune a qualquer tipo de cobrança ou estereótipo que a sociedade possa ter sobre os homens. Talvez por isso eu não conseguisse entender por que aquele “psiu”, era algo tão grave assim.

Na verdade eu, como homem, não deveria nem ao menos estar escrevendo esse texto, já que sou incapaz de compreender o sofrimento pelo qual todas aquelas feministas burguesas passam em toda sua vida. Mas fazer o que? Talvez eu seja apenas mais um machista opressor querendo tirar a legitimidade da causa pela qual essas heroínas lutam diariamente. Ou talvez eu só esteja cansado da hipocrisia delas.

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Autor: davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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