A última xota de 2018. A primeira xota de 2019.

A contagem regressiva decaia. Estávamos entre o cinco e o quatro, com copos e garrafas erguidas em celebração. Nos milhares de risos e rostos do bar Costa-Sul, próximo ao aeroporto, uma energia positiva invadia a nossa alma, espíritos de pobres coitados que não tem para onde ir no ano novo. Erguíamos nossas bebidas baratas, espirrando e derramando nos colegas ao redor, mas não havia ressentimento pelas roupas molhadas ou líquido desperdiçado, tudo era diversão bêbada dos últimos segundos de 2018. E que bons tempos viriam dali em diante, aquela sensação merda que tudo vai ficar melhor e nada mais será mais do mesmo.

Todo ano foi assim.

Os gritos de feliz ano novo ecoaram no pequeno estabelecimento. Moreira, o dono do bar, que nunca largava o sujo pano de limpar copos, escondia o sorriso no meio do grosso bigode, aquele povo todo, pagando, daria um bom começo de 2019. Muitos com a voz já pastosa cantavam e celebravam, os festejos haviam começado bem cedo, para alguns, vinte quatro horas antes da virada do ano.

Não era meu caso.

Pela primeira vez teria passado o fim de ano sóbrio.

Teria.

Michele está na minha cama. Michele, Michele, Michele. Os cabelos curtos e a tatuagem de rosa que não deu tão certo no ombro direito. Ela ganha a vida com sei lá o que, e dorme do lado direito da minha cama, virada de costas para mim. É dia 31, estou acordado desde as quatro da manhã.

Trepamos da meia-noite até as três, mas não consegui dormir.

Vi o dia nascer. Ela ronca baixinho, tomou minha última garrafa de Gim, e certamente acordará com ressaca. Viro para o lado, a abraço, estamos de “conchinha” e eu penso o quanto já fui mais romântico. As palpitações do seu coração, o seu respirar, o jeito de estar em paz com seu sono, no turbilhão de coisas que ela precisa ser, fazer, pensar, agir, amar, sei lá. Não me aprofundo nesta relação, como uma maneira de não criar um laço, algo que se partirá em breve. Michele é incrível, suas conversas, seus gostos, seu bom humor. Tudo se mistura numa grande dança cíclica, entre o estupor da embriagues e a clareza dos dias comuns. São dias comuns que amanhecem junto com ela, mas decide viver a vida dupla da normalidade e a loucura.

E eu sou a loucura.

Passo minha mão pelos seus dedos. Lá está o anel de noivado dela.

Este será o último dia que eu a verei, provavelmente. Próximo ano ela deverá escolher o caminho da vida normal. Seja lá qual for. Talvez resolver o problema da tatuagem terrível no ombro, ou resolver o problema do seu noivado. Sinto-a acordar, vejo ela virar, ficar de frente para mim. A gravidade age nos seios, derrubando-os um sobre o outro. Os cabelos desarrumados e a maquiagem inexistente de uma longa noite de sono. Ela não fala nada, apenas sorri. Nos beijamos. Cubro-a e meu pau fica duro. Trepamos como se estivéssemos num motel, com o limite de duas horas e nada mais. Transamos como se nossos pais fossem chegar em casa a qualquer minuto. Fodemos como se no mundo restasse tão pouco tempo que precisaríamos sacrificar nossas crianças para que elas não sentissem a dor de viver.

Ela foi embora às 16:00 do dia 31. Eu não tinha planos, não tinha desejos. A voz da morte começou sua argumentação no meu ouvido. Era ano novo, uma excelente época para morrer. Fiquei sentado grande parte da tarde na minha cama. Virei os dois dedo de Gim restantes na garrafa. Aquilo me bateu como uma piada de mal gosto, porém engraçada.

Decidi sair.

Automaticamente acabei parando no bar Costa-Sul. Lar dos sorrisos esporádicos e dos porres homéricos. Fiquei alguns minutos olhando para meu velho rosto no retrovisor. Caralhas, eu precisava morrer ou tomar um rumo.

Depois das zero horas eu decidi pagar uma bebida para uma guria recém chegada. Ela estava com as amigas, fazendo algum barulho. Todas pareciam empregadas domésticas dando uma escapada do trabalho para uma comemoração secreta de fim de ano. Elas não esperavam um tão nada quanto eu. Moreira repousou a garrafa de uísque “Professor”, disse que eu havia pago. Elas riram, provavelmente pensaram que sempre haverá um homem trouxa para pagar o beber delas.

Elas não estavam erradas, sempre haverá.

Não é do meu costume pagar bebida para os outros, mas está na minha lista de coisas a melhorar. Preciso me tornar alguém mais amável.

Com meu copo como cartão de visitas a aproximação é fácil.

– Quem está escapando do trabalho para tomar um trago de uísque levante a mão – seus sorrisos são uma aposta positiva para esta noite.

Mas não consigo dormir direito.

Agora com uma garrafa de uísque vazia sob o criado mudo de um apartamento classe A de 110m² e com Mariana deitada, dormindo do meu lado direito. Ela pediu para que eu não fumasse no quarto da patroa dela, mas toquei o foda-se. Já tínhamos trepado na cama de sua empregadora mesmo.

– Ela volta só no dia dois. Foi para a posse do novo presidente – Mariana dissera ao abrir a porta. A porra do meu gosto por estas garotas mais novas. Sua inexperiência ainda trará problemas. Morena bunduda, não teve as oportunidades que muita gente teve, porém, por mês, tirava mais que muito advogado formado.

Mas teve que deixar o filho gerado ainda na adolescência com a mãe, no interior do Ceará.

Faz parte.

A cama da patroa é enorme. Trepamos, trepamos, trepamos. Feliz ano novo. Uísque, e mais sexo.

Me viro, ficamos de conchinha. Deslizo minhas mãos pelas suas mãos. Não havia notado que Mariana possuía um anel de noivado.

 

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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