Manual de como beber e não pagar.

Eu penso no nome de uma mulher, vem Gabriela. Poderia ser o nome da minha filha, poderia ser o nome da mulher que eu estou comendo, ou de uma mulher que eu tenha me apaixonado. Este nome samba na minha boca, aveluda na minha língua, desce pela garganta queimando, tal qual o pior uísque que se tem no mercado, aqueles que são vendidos numa garrafa de plástico mas respeitam a doçura e o desespero de quem o comprou. Quem se deitou com esta Gabriela estava desesperado, eu estava desesperado, talvez um tanto louco. Não emergiu nada de minha loucura, como notas soltas no ar, pouco improvisadas pela desdentada boca jazzistica de Chet Baker, sem prumo, a estibordo da madrugada enebriada, eu simplesmente cheguei no mal hábito de elogiar antes de comprar.

Gabriela fumava.

A amiga olhou para mim como para quem olha algo que fora pisado com o sapato.

Eu sorri. Eu e meus dois dedos de uísque barato na garrafa.

É Gabriela seu nome, ela trabalha na porra do bar. Estava em horário de pausa. Esta garota neste bar seria tal qual comprar um quadro de Rambrant e pendurá-lo no banheiro. Seu desperdício de vida seria notório, no auge dos 30 anos, vivendo de um salário médio, passando noites acordadas. As olheiras de preocupação, morando com a prima que se prostituía e as vezes até se apaixonava. Largou o interior na busca do clichê, e de bar em bar ganhando a vida da maneira que pode. Gabriela era a única irmã com um nome normal, talvez com um pouco de sorte conseguiria uma vida tranquila e uma morte sincera.

Talvez com um pouco de sorte, um anel de R$100, 00 no anelar esquerdo.

Mas o que Gabriela tinha para aquela noite? O sorriso podre de alguém que comprou um uísque numa garrafa de plástico e nada tem a oferecer do que orgasmos esporádicos, superlativados no texto escrito posteriormente. Existe poesia nas trepadas literárias, e a poesia é a maneira mais bonita de se contar uma mentira. Ela não teria nada a ganhar, eu a atenção e a paciência e alguma sobra. Sou bom com estas promessas.

A amiga perguntou o que eu queria?

– Minha garrafa está mais vazia do que cheia, você trabalha aqui, não é Ga-bri-ela?

– Estamos na pausa, tem outras pessoas para te atender – disse a amiga super protetora.

– Então não faria mal eu pagar uma rodada? São que horas, duas da manhã?

Elas bebiam como máquinas. O primeiro convite fora feito.

A parte da conversa com elas é trivial, esporádica, desinteressante. Eu aprendo o detalhe de suas vidas, as faço rir. Fazer rir é a melhor maneira de terminar uma noite acompanhado. Gabriela ria, ria, ria. Nossa pausa se estendeu alguns minutos a mais, logo elas passaram para o outro lado do balcão, continuamos a atender e eu virei um cliente VIP. Curioso como as pessoas mais trágicas são as melhores com as risadas.

– Saio daqui uns quarenta minutos – disse Gabriela.

Viro mais um copo.

– Não vou precisar pagar esta garrafa?

Ela não responde, isso é um sim. A missão da noite estava completa, beber e não pagar. Me esquecerei do nome Gabriela ao acordar. Ela esquecerá o meu ao viver. Poderia, no dia seguinte, jurar um eterno amor líquido, etéreo, úmido. Não seria de verdade, mas não seria novidade. Nada da vida de Gabriela é verdade, nada na minha vida é verdadeiro. Trepar com ela é masturbação. Busco as pessoas mais vazias para tentar me preencher com o nada.

E depois de alguns amanheceres a vejo novamente, na pausa do seu horário de trabalho, sendo recebido com um sorriso. Mais um sorriso dentre tantos outros sorrisos impressos na eternidade do meu ser.

 

 

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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