Alice Coltrane me ganhou com a introdução da música Turiya And Ramakrishna. Alguns amigos letrados em Jazz diziam que ela desvirtuava muito e por causa disto eu nunca havia dado uma chance para a pequena Alice. Quando decidi escutar e tomar minha própria opinião, quando consegui compreender as notas rápidas daquela dama no piano, no turbilhão de emoções que apenas o Jazz pode dar. É quase dar um soco na própria cara. É quase se cortar com os cacos do espelho que acabei de quebrar (por acidente). É quase roubar livros de uma livraria famosa. É quase me tornar o conselheiro de uma garota por saber que ela é nova demais para ser nada além do que o seu pai ausente. É quase de madrugada pensar que está ficando mole, que virou um velho bobo, observador de estrelas, que não divide os novos textos em uma lógica perfeccionista única e exclusivamente porque o baixista da música citada na introdução é muito bom. Ron Carter, que orgulho deste baixo!

Mas alguém bate a porta. Eu sei quem é, é sempre ela. É horário de voltar do colégio. Ela passa aqui, está escrevendo uma redação sobre escritores velhos que ainda estão vivos. É, eu ainda estou vivo. Quando penso que ela está escrevendo uma redação para o colégio, aquela vagina nunca se transformará numa boceta para mim (talvez nos próximos dez anos). Penso que ela poderia ter escolhido outro tema, outro escritor. Penso que ela poderia estar fazendo algo útil na vida. Escrever não dá orgulho para ninguém. Era ela. Falo para ela entrar antes que eu seja eu acusado de algo.

– Como você está? – fecho a porta na sensação de fazer algo errado.

–  A mesma de sempre. Me dá um cigarro – estendo a carteira, ela puxa um cigarro e o acende – minha mãe andou desconfiando que estou fumando. Ela era fumante, agora que aceitou Jesus apenas toma sonífero.

Vou para a sacada em silêncio. Cadeira, mesinha redonda, copo de uísque, cinzeiro, cadeira. Neste lugar passei a maior parte da minha vida. Ela me segue, perguntou como eu ainda escuto isso.

– “Alice Coltrane”. Era mulher do John Coltrane?

– Sim, Harpista e Pianista.

– Não sabia que alguém tocaria Harpa no Jazz.

Ela tira as sandálias. Está usando meias cumpridas e saia que escorrem pelos joelhos. Seu rosto de quem ainda busca interesse na vida, seus dedos de quem se masturbara e dividira o conhecimento. Seu corpo de “serei interessante, me espere”. Ignoro, também acendo um cigarro para mim. Estamos sentados em silêncio. Ela começa a tomar nota e a tarde vai indo embora. Me faz perguntas sobre os processos de escrita, coisas mais triviais. Sempre as mesmas perguntas. As respondo. Um carro vermelho me chama a atenção sem grandes motivos, apenas vejo a dificuldade do homenzinho em fazer aquela curva…

– Você transaria com alguém de quatorze anos? – eu engasgo, tomo o uísque sem tirar o cigarro da boca. Ela continua: – digo, você nos seus textos já transou com tantas mulheres, como se tivesse vasto conhecimento. Não é crime se houver consentimento.

Os carros no horizonte pareciam mais interessantes. Algo nela me deixava profundamente triste, não sei se era o sorriso ou os sonhos. O que ela estaria projetando? Uma aventura? Uma proteção? Via naquele pássaro engaiolado um anseio de vida e de morte. Eu sei que viver é dor, mas não existia um sentido na sua dor. Mal conhecia a história de seus pais, família e algo além. Talvez uma nova geração que queria a loucura, mas não sabe que cada escolha tem uma consequência.

Que cada curva tem um filho da puta.

Que cada cigarro é um dia a menos.

Nossa, me tornei um moralista.

– Meu pai sempre me disse – enchi o meu copo de uísque, de novo – que quem dorme com criança sempre acorda mijado. Metade destas mulheres dos meus textos nem sequer existiram. Eu escrevo o que as pessoas gostariam de ser, falo coisas que elas gostariam de ouvir. De alguma forma me nutre também, vivo uma vida que eu gostaria que fosse minha vida. No fim, nem toda foda do mundo tem graça. Você vai encontrar um cara que te faça feliz, vai encontrar uma moça que te faça feliz, sei lá. Vai acabar dando certo de alguma forma.

Ela não tomou nota.

– O que falta em mim para que eu seja uma das mulheres dos seus textos?

– Ter perdido as esperanças da juventude – sorri. Me senti um Papai Noel. Ela me parece um texto que está difícil para sair. Aquela tarde demorava para virar noite. Tudo que eu queria era ficar solitário, só minhas músicas e minha respiração. Mas meu narcisismo impedia que eu não a recebesse. Talvez ser lembrado numa redação merda seria o melhor legado que eu poderia ter. Isso e viciar um adolescente em tabagismo.

Ela voltou mais algumas vezes. Nas suas vãs tentativas eu prometi que um dia eu a transformaria na personagem principal de um dos textos. Depois disto desapareceu nos caminhos da vida. Mudou de escola, de bairro, de família, de vida, ah foda-se. Como sou prolixo, a promessa feita está sendo cumprida. Como não lembro mais seu nome, não o terá aqui.

Penso que poderia ter fodido contigo naquela época, teria fodido toda sua vida numa paixão imbecil juvenil, um Vladmir Nabokov de araque, vivendo na luxúria indolente de escritores de redações sobre babacas bêbados. Posso dizer que você, de alguma forma, fodeu comigo, sim, como aqueles homens loucos da bíblia que são visitados por anjos e o mal acontece.

Tive que comprar outro disco da Alice Coltrane, pois me arrependi de ter dado o meu a ela como presente.

 

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