Eu enterrei a garrafa vazia de cerveja na areia da praia. Está nublado e é tarde. As ondas vão, as ondas voltam. Poucas pessoas caminham, conversando, com os filhos, sozinhas, vendendo. Me livrei do vendedor que me importunava e continuei observando o ir e voltar das ondas. Eram quatro garrafas vazias na areia, uma na sacola e outra eu estava abrindo. Elas esquentam com o passar do tempo, perdendo o sabor do “recém saído da geladeira” E as coisas frias são as melhores para os paladares bobos.

Sem nenhum contexto especial, era minha forma mágica de matar a crise de ansiedade. Pegar um ônibus, comprar algumas cervejas e ver o mar reclamar. Estar em casa respirando num saco fazia a voz da morte falar no meu ouvido. Meus discos e meu lugar escuro não ajudariam a pobre alma arranhada que eu tenho superar mais uma vez meu estado psicológico sobrepujar meu estado físico. Me ver definhando no escuro, deitado no sofá, assistindo a patética programação da televisão. Suando picas numa sala quente, onde a ventilação do mundo se torna um ventilador, morto como a alma do bêbado Josué da esquina lá de baixo. Aqui, nestes pensamentos mundanos que ululam na minha cabeça sempre, consigo abstrair.

Os roupantes de raiva, as vontades de auto-destruição e de destruir. Mais uma garrafa na areia, mais um pouco de gosto amargo na boca. Beber é sofrer, viver é sofrer. O mar parece convidativo para um mergulho sem volta, será que se eu nadar em linha reta chego nos Estados Unidos ou na África? Não me importa, seria comido por tubarões no mínimo. Lembro que não sei nadar e abro a última. A noite vem caindo devagar, estou aqui aprumado a não sei quantas horas. O cinza se tornando azul, o azul tamborilando na areia, encharcando os pés de uma criança barulhenta. Seus gritos e risos não eram incômodos, eram divertidos, uma pequena fagulha de alegria. A mãe arrastava a menina pela areia, falando ao celular. As duas desaparecem na longitude da minha vista. Tudo vi ficando cada vez mais denso e as luzes do pier se acendem.

Pouco a pouco as meninas e os meninos chegam, toda a juventude que vem para se divertir. Hoje é sábado, eles vão brincar e sorrir. Penso nas coisas que fiz e que deixei de fazer. Muitos anos antes eu era um daqueles, lá no pier, aproveitando também a vida. Você fica velho, prefere a solidão, faz parte. Estar sozinho é a melhor companhia, pois já sabemos em que vamos nos decepcionar, e este é meu caso, o velho e a decepção. Com esta garrafa já sem nenhuma temperatura negativa, ficando cada vez mais leve, o fenômeno da sede mesmo com bebida acontece, é o ruim de ficar vendo o mar por tanto tempo. Como se tivesse mergulhado espiritualmente nestes braços vagabundiais deste elemento azul alquímico.

Enterro a quinta garrafa na areia, vou deixar este lixo aqui para que as tartaruguinhas morram. Toquei um que se foda para a vida. Vou matar o resto da noite em algum bar, resolver minha ansiedade com outro veneno.

E logo o mar virou um borrão escuro nas minhas costas, levando minhas sobras para a sua profundezas. Misturando o vidro, o plástico e as lamentações em mais um pecado que eu cometo.

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