Talvez, se eu tivesse te conhecido antes. De todos os sorrisos dados no passado, provavelmente eu seria dono de uma parte deles. Nosso tempo juntos tinha prazo de validade, eu sei, quando eu te conheci sabia muito bem quando iria dizer adeus. Também penso que quando te conheci, não saberia que deveria ter te conhecido antes. Somos frequentemente invadidos pelos sentimentos confusos, pela ideias difusas, pelos minutos, segundos e horas que não pertencem a nós. Nos nossos opostos, seguimos caminhos paralelos, destrutivos, e distintos.

Você me disse que já tentou morrer.

Todos nós tentamos morrer pelo menos uma vez na vida. Nas marcas da sua alma, nas marcas da sua pele eu entendi que a morte, quando te sorriu, também quis te fazer sorrir. Mas não devemos confiar na morte, ela mente para nos levar. Ela é tão solitária quanto eu e você, ela é tão triste quanto eu e você, ela nos quer, nos deseja, talvez por sermos especiais, talvez por sermos estes Kamikazes indo em direção ao vento divino. Talvez, se eu tivesse te conhecido antes, te ensinaria que estes remédios que aos montes matam, podem curar quando não tomados. Que este passado que marca a pele, também pode ser uma força vinda do obscuro, para que a pele esteja mais forte. Que rir faz parte, chorar também, que amar é a maneira mais concreta de se enganar.

E de se entorpecer.

Eu te disse, você precisa amar!

Eu te disse, você precisa aprender!

Você precisa se masturbar numa manhã de sábado solitária, escutando Chet Barker, afogando-se no próprio deleite da alma.

Você precisa deixar de ter medo. Mas, o medo é você, tu me disseras, que o medo é o que te faz estar aqui. Que sua briga, sua vontade de estar viva é a briga com o medo. Eu também tenho medo, também tenho medo desta briga, de perder, de me encontrar perdido, desencontrado.

Lembrei do seu sorriso.

E os cabelos cacheados molhados.

Se eu tivesse te encontrado antes, talvez teria sido dono dos seus sorrisos, dos seus beijos, do seu corpo.

Do seu prazer.

Das vezes que te ensinei sobre as estrelas, e sobre tomar decisões. Quando me meti na sua vida tentando concertar, mesmo sendo o ferreiro do espeto de pau. Na honestidade da nossa despedida, na honestidade do te vejo amanhã, vejo também a honestidade do “dificilmente te verei de novo”. Mas imagino-te no futuro, vitoriosa, cansada, crescendo. Imagino que não se esquecerá tão fácil de mim, pois a semente que pus em sua cabeça germinará. Quando menos esperar terá se lembrado de mim.

E das coisas que eu dissera.

Mas, eu me tornei um animal otimista também. Me dissera para abrir os olhos e o sorriso. Terei isto na minha parede até que a cola se termine e na minha mente até que meus dias se acabem. Terei nas quartas e quintas algumas nostalgias. Pensamentos estes, do passado, que serão ainda mais um bloco no eterno quebra-cabeça da vida.

Mas se eu tivesse te conhecido antes, quem sabe não seriam as semanas todas.

Eu te imagino na minha cama às seis da manhã, pensando na besteira que acabou de fazer.

Eu te imagino na sua cama, às seis da manhã, com insônia, medo e planejando o que vai fazer.

Nestes dos universos paralelos, você é você, com seus erros e acertos, na eterna busca do sorriso. E agora, ao sorrir pensará que pelo menos este que está estampado no seu rosto agora me pertence.

Como também o que está no meu rosto também te pertence.

E nestes dois universos paralelos, em um meu cheiro ficou no seu travesseiro, no outro, na sua mente. Nestes dois universos eu serei distante, um pouco ranzinza, mas te farei rir. Nestes dois universos você, através do seu jeito teimoso fará o mundo acontecer, aprendendo cada passo (tardio), aprendendo cada sentimento, palavra, gesto, silêncios e barulhos. Me faria professor, mas também aluno. Ensinaria a ti coisas mundanas, tu me ensinaria coisas angelicais, e nesta completude nosso tempo decairia, pois somos almas que vivem na ampulheta dos desejos.

E um dia te veria partir, de qualquer forma.

Este dia chegara antes das nossas descobertas. Mas se tivéssemos nos conhecido antes…

 

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