Smoke on the Water é uma das melhores músicas do Deep Purple, porém uma das mais tediosas para se tocar num baixo. Camila masturbava contra baixo vermelho sem tanta energia. O volume da guitarra sobrepunha todos os outros instrumentos fazendo audível apenas o famoso riff “pam pam pam”. O vocalista esgoelava algo incompreensível. Nem seu inglês, nem sua capacidade de cantar chegava a altura de qualquer coisa que poderia ser adjetivado como bom. Entre um e outro desafino o baixo talvez fosse a única coisa que soasse positiva. Ela mexia-se tentando desvencilhar daquela lentidão. Brotava em sua mente diversos pensamentos, e isto sempre acontecia quando estava entediada. Lembrou da psiquiatra, lembrou dos remédios para déficit de atenção, lembrou que era uma merda quando os tomava com cerveja.

O peso do instrumento no seu ombro machucava. Não havia tanto glamour assim nesta vida musical. Estávamos em 2014, tudo de bom que um dia existiu na música já tinha sido inventado e o rock havia morrido pelo menos há uma década. Tudo aquilo era uma perca de tempo, pensava Camila. Poderia estudar inglês, poderia viajar para outros lugares, tanta coisa que podia fazer, que podia dedicar-se no lugar dos ensaios vazios. Seu namorado, o vocalista, não era a mesma pessoa, talvez nunca fora “A pessoa” e agora, que, Camila já possuía alguma idade a mais, via que aquele romance água com açúcar não passava de música ruim.

Camila me encontra no meio do grupinho de trinta pessoas que está assistindo a apresentação. Nossos olhos se cruzam e por um instante ela sorri. A vejo imponente no palco, com seu contra baixo. Sou o único que presta a atenção no instrumento, sou o único que entende esta sua dor de ser notado apenas quando para de tocar. Meu único motivo para estar ali, ouvindo aquela música sofrível, e não enchendo a cara no bar, era Camila. Via naqueles olhos perdidos um desespero sincero, uma vontade sincera. Via naquele palco uma unica força forte, com uma capacidade inigualável. Talvez estivesse exagerando, mas Camila precisava de algumas palavras positivas. Tudo soa como uma guitarra ou bateria ou vocal. Tudo soa muito alto, talvez alto demais. Tudo que vai muito alto cai muito rápido.

O nome da banda é Clasmídia. Não sei por que, ideia do vocalista.

Ela sorri e o vocalista notou. Estávamos nos encarando desde que o guitarrista terminou o segundo solo de 4 minutos. Smoke on the Water já estava maior que qualquer música do Pink Floyd, tudo isso porque queria inflar egos. Sua voz se tornara mais severa, e a guerra de olhares entre ele e ela ficaram mais contundentes. Ali no palco muitas coisas aconteciam, talvez coisas demais além da música. Também seria irônico dizer que a música era a coisa menos importante acontecendo ali. Camila queria por demais encerrar a apresentação e fumar um cigarro, habito meu passado a ela, também ir embora, quem sabe para minha casa.

Foi por isso que ela chegou atrasada da última vez.

E eu estava lá apenas para assisti-la tocar.

Em sua mente tudo se passava. Ela queria desistir, tinha o sonho de viajar de moto, quem sabe fazer estilismo e moda. Curtia desenhar, desde pequena. Curtia cozinhar também. Seu risoto era ótimo. Não sei se continuou a fazê-lo depois de tudo. Por gostar de música acabara tocando contra baixo como todo guitarrista frustrado. Tudo que se passa depois é história chata e Camila sabe dela muito bem. Ela pensa quando nos conhecemos, conversando sobre as bandas ruins. Bebemos Coca-Cola, e me surpreendi por isso, não havia nada alcoólico em nossa mesa até as duas da manhã. Em seu íntimo decidira: aquele era o seu último show.

Assustou-se com o vocalista falando no seu ouvido:

– Para quem está olhando? Eu vi que está errando um monte de notas! – não. O vocalista não tinha a capacidade de saber que notas foram acertadas e que notas foram erradas. Já era o quinto ou sexto solo na mesma música quando ele se aproveitou do silencio dos vocais. Estava possesso de raiva, como em todas as suas crises de ciumes que fizera o antigo baterista sair. Camila era uma Yoko Ono sem saber. O Vocalista retornava ao refrão – SmOoOoOooOKeee On ThE WAAAAAtteEeeeR!!!

E toda vez havia microfonia.

Camila suspirava fundo.

Fiz um sinal para ela com a cabeça. E fui para um dos camarins.

Desta vez era um solo de bateria com guitarra. Aquilo estava parecendo uma banda de Jazz. Camila desligou o contra baixo. Tirou os cabos e simplesmente foi embora. Nenhum dos integrantes notou a falta do instrumento. Nem mesmo o ciumento vocalista notou, uma vez que algumas meninas – de uns treze anos, no máximo – começaram a dar moral para o sujeito. Ele começara o refrão mais uma vez, e mais uma vez aquela micromultidão cantava. Comecei a pensar que os ensaios não eram realmente suficientes, pois aquela ainda era a quinta música e já estavam a tocando por uns quinze minutos. Antes desta, passaram oito tocando Smell Like Teen Spirit.

Camila abre a porta do camarim. Estou sentado em um grande puff amarelo. Ignoro completamente o aviso de “proíbido fumar”. Acho que colocaram este aviso só como piada.

– Com este show o sucesso é garantido – ofereço cigarro para Camila, ela aceita e se inclina para eu acendê-lo.

– Éramos para se chamar “os egocêntricos” – Camila tinha uma sensualidade ímpar na ora de tragar o cigarro. Ela guarda seu contra baixo na capa. e senta no meu colo. Nos beijamos, fumaça respirando fumaça. Duas chaminés interligadas. Nosso amor era câncer – estou pulando fora desta banda.

Estamos nos beijando. O som abafado dos instrumentos, a luz baixa e o cheiro de maconha entranhado nas paredes deste recinto. Um quartinho de 25m² chamado de camarim. Nunca na história da música sairá alguma banda digna de respeito deste ambiente. Camila está fantasiada de rockeira. Uma saia laranja curta e meia calça toda esburacada. Uma camisa preta dos Ramones com um corte especial, bem feminino. Seus seios são grandes, esfregam no meu rosto enquanto nos beijamos. Ela larga o cigarro e lentamente vai montando no meu colo. Estamos entregues a todo este movimento, a esta risada sarcástica que o mundo nos proporciona. Eu era muitos anos mais jovem do que sou hoje e Camila ainda não pensava em fazer tudo que, hoje, ela já fez. Estávamos mais vivos que qualquer outro naquele lugar, vivendo nossa música como rockstars de verdade: sem causa, sem consequência. Esquecemos de tudo, seu beijo delicado esfregava batom escuro em minha boca. Logo o delicado se tornou animalesco e aquilo virou de fato um amor momentâneo e valioso. Minha mão escala suas costas buscando seus cabelos que são curtos. Ela adora quando eu os puxo. Ela afasta a calcinha para o lado, eu abro o zíper da calça. Fazendo vestido o que deveríamos fazer pelados.

Seus seios saltam de sua blusa do Ramones. Da minha visão vejo o cabeçalho “Ramones” e um belo par de seios quentes e deliciosos. Nossos gemidos eram abafados pelo arranhar dos instrumentos, e talvez por causa disto não notamos quando estes instrumentos pararam de tocar. Camila gostava que eu metesse bem fundo e com isto ela me mordia forte o ombro. No meio do êxtase todo, apenas o barulho da porta nos atrapalhou.

– Que porra é essa! – o vocalista grita – que porra é esta, Camila!?

Ela nada responde. Apenas cobre os seios com a blusa, mas se mantem no meu colo. Os outros integrantes também estavam assistindo. Inclusive a namorada do baterista, uma baixinha invocada que não gostava que ele tocasse nestes lugares sujos.

Camila sai de cima de mim. Se recompõe. Ponho o pau para dentro da calça. Eu era um despudorado! Levanto-me com dificuldade daquela porcaria de puff. Nosso cigarro havia apagado pela metade, desperdício.

O vocalista começa a gritar comigo. Pergunta se estou ficando louco, aquilo de sempre. Camila estava com seu contra baixo, pronta para ir embora. Deixo o maluco falando sozinho e começo a sair daquele quartinho com Camila. O vocalista, em uma atitude estúpida, me puxa pela camisa e me dá um soco mal dado, quase como um soco dado por uma criança. Me pega meio orelha meio pescoço. Não faço expressão nenhuma, como se ele tivesse batido em uma parede de tijolos. O empurro no puff e ele cai sentado. Os outros integrantes apenas assistem risonhos. Beijo Camila na frente de todos e ela diz para o vocalista:

– Perdeu, seu babaca, agora vai tomar no seu cu.

Que menina boca suja. Saímos de la, fomos curtir.

E este foi o último show da banda Clasmídia.

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