Esses dias eu estava em minha humilde residência, deitada em meu confortável chão fresquinho, assistindo uma série bem legal da Netflix, quando de repente começa a tocar um funk proibidão.

Surreal!

No último volume, sem pudores e, logicamente, sem nenhuma repreensão dos vizinhos,  a não ser da tia Maloca que não tem medo nenhum da morte… Rolou o som por quase três horas ininterruptas. No início fiquei com raiva, depois pensei em chamar a polícia, mas depois de algum tempo parei para ouvir com crítica.

Difícil missão foi essa!

As músicas de palavrões e expressões chulas, depreciativas, machistas e com muita ostentação; contudo trazem uma verdade latente dos relacionamentos atuais.

Vivemos um tempo em que é tudo muito rápido, aonde as pessoas já não tem mais tempo para se conversarem (e quando tem esse tempo, não querem conversar). A era digital tem aproximado quem está longe, tem distanciado quem está perto e tem tornado muito mais diretas as interações sexuais.

O antigo romantismo, aquelas regrinhas de galanteios estão cada vez mais em desuso; as intenções não são mais floreadas com promessas falsas de amor eterno e fidelidade, tão pouco existe a preocupação com a humanidade e individualidade alheia já não importam mais. Veja que hoje não existe mais privacidade, somos vigiados 24 horas por dia por câmeras, podemos ser fotografados e nos tornarmos motivo de chacota “mundial” a qualquer momento e sair sem celular é praticamente impensável.

Diante  tamanho desprendimento, para quê se falar de amor? Nem as músicas sertanejas  trazem mais o romantismo sofrido nas letras, a conversa é mais direta, na verdade, o que faz sucesso é essa objetividade na fala.

Nada mais é escondido, nem as intenções “românticas” em relação ao outro. Em tempos de construções pré fabricadas, os relacionamentos de hoje começam pelo telhado: primeiro se transa (porque é a intenção primeira), se for gostoso se pergunta o nome e com o tempo se apresenta à família, quem sabe um dia role casamento, para se ter umas fotinhos legais e no momento que um enche o saco do outro; encerram-se as relações e segue o baile…

Numa sociedade tão direta e reta, tão cheia de objetiva e desapegada, não existiria nenhuma forma de expressão mais sincera do que o funk. No funk não existem máscaras e é dito o que se quer e bem entende, se revela na música o que se deseja fazer no escondido: homem se sentir poderoso e mulher se sentir humana e primitiva (nem princesa, nem vadia e às vezes as duas coisas).

No final das contas, o funk desmascara os desejos mais profundos de homens e de mulheres e é isso que choca quem ouve e ainda pensa o corpo e as relações humanas com os olhos de gerações passadas.

Pra mim, particularmente, é um som inquietante e enfadonho, apesar de extremamente atraente quando o assunto é “balançar a raba“; contudo, não critico quem gosto, não julgo nem descredibilizo, pois como disse, o funk é pornográfico e ostentativo é apenas uma leitura do mundo pelos olhos de uma geração que desenvolveu uma forma diferente de amar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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