Eu acordo no meio de um sonho. Pensei que este “acordar” também era um dormir. Talvez fosse cedo demais, talvez eu tivesse perdido a hora colocando o celular diversas vezes no modo soneca. Quem nunca? Nos últimos dias eu tive cada vez menos motivo para acordar. Todas as vezes que eu acordei lamentei por não ter continuado dormindo. Sonhar era algo magnifico, pois eu conseguia ir num mundo onde todos os problemas não poderiam me pegar. Dormir era meu principal passatempo, dormir era meu principal hobby. Dormir era a coisa que eu mais gostava fazer. Agora observando todas as horas que acabo dormindo, vejo também que, em minha idade, deixar currículos se torna cada vez mais difícil. Me contento com os empregos menores que pagam o aluguel deste apartamento. Me contento em saber que não haverá uma certeza no futuro e nem trabalho para que este futuro seja certo. A única coisa que eu quero é dormir.

Mas eu acordo no meio de um sonho. O relógio diz que ainda são duas da madrugada. Insônia!!? Isso me deixaria louco. Tenho medo de esta loucura me pegar. Tenho medo de precisar sentir a dor de estar acordado madrugadas a fio, sentado na cama, obrigado a ficar preso assistindo televisão ou nas imbecilidades cíclicas da internet. Temo que se eu não consigo dormir nada mais fará sentido.

Novamente a vontade de morrer invade meu corpo.

Me sinto fraco. Tento procurar na minha mente recém-despertada o motivo do meu acordar. Tento refletir com o que sonhara, mas acho que estava num período entre sonhos onde caímos nas trevas da consciência. Eu deveria estar perdido no vácuo escuro da mente, querendo sair, ou querendo chegar a algum lugar. Tal sensação me deixa sem ar, ansiedade. Quero pensar com mais clareza e não consigo. Hoje é sábado, são duas da manhã. Eu acordei às duas da manhã. Temo não conseguir mais dormir.

Insônia?

A campainha toca. Não tenho porteiro no prédio. Qualquer pessoa pode subir, qualquer pessoa pode descer. Era comum que velhos abandonados fossem até o último andar se jogar e cair por 19 andares até o frio calçamento.

Eles normalmente faziam isto na véspera de natal.

Um raio de medo passa por mim. Moro neste apartamento há cinco anos. Nunca recebi visita. Nunca apertaram a campainha que tem padronizadamente do lado de cada porta. Por outro lado me trouxera uma tranquilidade saber que foi um motivo esterno eu ter acordado. Meu sono estava salvo, minhas horas nos mundos belos que existem no interior de minha cabeça não seriam afetados por cruel doença chamada insônia.

Quem poderia ser? São duas da manhã e a vida ainda não existe nesta hora. Trabalhei como guarda noturno durante uns três anos, vi o que era uma vida noturna numa cidade grande. Com drogados se arrastando de um lado para o outro como zumbis, com prostitutas e travestis vendendo-se por nada ou pouco disto. Estive em locais perfeitos fazer coisas erradas. Vigiei cada pedacinho de coisa valiosa dos vândalos da noite, que andam em seus cardumes de coragem, pois temem realizar seus atos pecaminosos de maneira solitária. E agora, as duas e cinco, tudo que resta no mundo é silêncio e pensamentos escusos. Até mesmo na madrugada de sábado o silêncio tinha o seu lugar.

A campainha soou novamente.

Me vesti. Dormia pelado por pura preguiça. A cama se solteiro desarrumada permanecerá assim. Desde criança minha mãe brigara comigo por nunca arrumar a cama. Estou apenas com uma calça moletom cinza escuro. Quando eu o vestia sem cuecas eu conseguia sentir meu pau roçando no tecido da calça. É uma noite quente. O começo do ano normalmente é assim: quente e úmido. Sinto o calor lá de fora, quando saio do frescor do meu quarto e seu ventilador. O apartamento é antigo, todo o chão é revestido por taco. Faço barulho ao andar. O chão está frio. Com os pés descalços eu chego até a porta de entrada. Não é um apartamento grande. 55² de poucos móveis. A sala é grande e vazia e a cozinha essencial. Não me interessa comprar coisas novas, não me interessa coisas que substituam o que eu já tenho e o que já funciona.

Ela estava lá, me esperando. A distorção da lente do olho mágico não permite identificar quem é a pessoa. Não consigo ver suas pernas. Não consigo ver sua cabeça. Apenas consigo ver que existe uma pessoa do outro lado da porta e que ela veste algo parecido com um vestido vermelho. Penso em ficar quieto, esperar que esta pessoa fosse embora. Se eu não abrir, logo estarei livre disto tudo, logo voltarei a dormir o dia inteiro, como planejei para o domingo. Acordando apenas para pedir comida, comer parte do que pedi e voltar a dormir. Penso em toda minha semana, penso que se eu ignorar este visitante, minha rotina estará salva, nada acontecerá e tudo será como antes. O visitante é um ponto de disrupção. Como o selvagem que invade as vilas, destrói as casas e estupram as mulheres. O visitante trará desgraça pra a minha vida, trará morte para o meu lar.

O visitante me manterá acordado.

Não quero. Concordo comigo mesmo em não abrir esta porta. Concordo em observar até o momento que aconteça a desistência, e que eu simplesmente veja O visitante desaparecer no corredor. Indo embora para sempre.

Sento-me no chão e espero. O visitante não fala, nem se move. Vejo os seus pés pela brecha inferior. O corredor é iluminado e sua sombra se projeta para dentro. Ele espera pacientemente os quatro minutos que estou ali (do meu acordar até aquele momento) Toda esta eternidade não durou, toda esta angústia é minha.

E a campainha toca mais uma vez.

Penso que este inferno nunca acabará e eu ficarei preso neste looping. Como eu gostaria retornar para o meu sono. Como eu gostaria de voltar a sonhar com sei lá o que. Como a vida é mais fácil quando apenas desistimos de viver e existimos. Não era isso que eu queria, mas era isso que eu tinha. No fundo era isso que eu queria mesmo. É, eu quero isso. Quero voltar para a minha cama e acordar apenas segunda, ir para o meu trabalho e voltar a dormir.

— Leandro, você está ai? — disse o visitante, batendo na porta. Meu coração subiu para a garganta por três motivos: 1, eu conhecia a voz; 2 ela sabia meu nome e 3 eu precisaria abrir — abre, por favor!

Ela está de costas. Encostada na porta. Vi seu corpo deslizar e sumir pelo olho mágico. Escuto um barulhinho de choro. Eu tenho certeza que era ela. Também sabia que ao abrir esta porta nunca mais as coisas seriam do jeito que eram. Sim, era real. Ela estava chorando, ela estava de volta, ela estava aqui, depois de todos estes anos, depois das nossas vidas completamente destruídas, cá estávamos nós.

Lá estava ela. Levantou-se quando eu abri a porta.

O casaco cobria o vestido vermelho. Carregava uma mala marrom, que parecia pesada. Os cabelos loiros se esparramavam. Ela não era loira, agora estava loira. Os joelhos ossudos e magros. Suas curvas estavam lá, sempre estiveram, desde os nossos tempos infantes.

— Não vai me convidar para entrar? — ela diz. Um sorriso tímido aparece. Seu corpo está desnivelado por causa do peso da mala. Ela sorri. Eu a ajudo com a mala, ela adentra meu apartamento e meu destino está traçado.

Seu corpo rebola uma sensualidade. Sinto coisas que eu não sentia desde os onze anos de idade. Sua mala marrom está realmente pesada. Uma mala de couro marrom, muito masculina. Tranco a porta, acendo a luz da sala. Estamos silentes, frente a frente. Tímidos? Não sei. Ela está usando uns óculos Ray-Ban escuros. Está de madrugada, todas estas coisas surgem como interrogações na minha cabeça. Tento parecer alguma coisa que não consigo. Ponho a mala no chão, buscando o que falar.

— O que houve? Achei que nunca mais iriamos nos ver. Eu fiquei sabendo que você casou. Quer um drink? Fique a vontade. O sofá não é muito confortável, mas… fique a vontade — minha voz está áspera. Minha cabeça dói. Ela se senta, cruza as pernas. Vou até a cozinha, demoro um pouco. Volto com duas xícaras cheias de vodca com limão.

— Eu sabia que estava morando para cá, mas não tinha certeza do endereço. Dei um golpe de sorte de pedir para uma colega do telemarketing ver onde você morava. — ela beberica, o batom suja a borda da xícara — Está trabalhando?

— Sim. Trabalho no porto, ajudante de cargas e descargas. Eu era para ter sido o prodígio. Mais esperto entre os primos.

— Até mais do que eu, lembro-me desta época.

— Mas as coisas não deram certo. Também não sou o mestre da resiliência. Agora estou aqui. Durmo mais do que o normal, vivo menos o que eu posso. Bebo e vivo. Sinto saudades quando só precisávamos nos preocupar com nosso segredo — ela repete baixinho, nosso segredo, segurando a xícara com as duas mãos como se estivesse bebendo chá. — mas e você Laura?

Laura bebe uma profunda golada.

— Você sabe até aonde?

— Fiquei sabendo do casamento e só. Marisa também teve um filho, você está sabendo disto? Mas de você, só do casamento. Não nego que fiquei muito triste em saber que você estava trepando com outro homem.

— Mas é isso que as esposas fazem. Trepam com seus maridos e aguentam caladas suas ordens — o sarcasmo estampou seu rosto. A bebida queimo sua garganta — posso acender um cigarro?

— Acenda dois.

Ela acende o cigarro. Me dá um, me aproximo e ela acende o meu. Estamos próximos. Seu cheiro é estranho. Mudara o perfume. Que idiota eu sou, ela não teria o mesmo perfume durante quinze anos. Vejo seu rosto mais de perto. Algumas rugas de preocupação começam a brotar. Os cabelos loiros pintados escondem o que? Cabelos brancos? Ela é uns dois anos mais nova que eu, mas parece ter minha idade. Ela põe o cigarro na boca e sopra uma fumaça que trás junto pedacinhos de alma. O brilho da ponta do cigarro reflete nos óculos escuros. Sua boca está séria, seu jeito está sério. Ela é fria.

— E seu marido? — pergunto.

— Meu marido? Estou fugindo dele — ela tira os óculos. Seu olho direito estava roxo. Laura cruza as pernas, trabalha no cigarro e assopra a fumaça. Seus olhos buscam focalizar a xícara vazia. Uma lágrima escorre na sua bochecha e isto me assusta. Ela sempre foi muito forte. Ela, apesar de mais nova, era mais forte que eu. Não sei em quantos fragmentos ela estava partida, mas juntar estes cacos não seria tarefa muito fácil — não foi um casamento tranquilo desde o começo. Mas demorei muito tempo para notar o problema que ele se tornava. É policial. Um grande policial. Mas trazia a violência para casa. Tive que ir embora. Ou era isso ou coisa pior.

— Se quiser ficar por aqui, não tem problema. Vou pegar mais vodca.

Sirvo uma, sirvo outra xícara. A vodca está pela metade. Decido levar logo a garrafa e por causa disto esqueço os malditos limões. Quando volto Laura já está sem o casaco. Seu vestido vermelho, tomara que caia, deixa seus ombros alvos à mostra. A idade não danificou aquela obra de arte. Ela está linda, tão linda como da última vez que a vi. Fico parado a olhando. Ela sabe no que estou pensado. Ela também sabe como atrair meu desejo. Ela sorri. Agora um sorriso dos que me dava quando éramos adolescentes.

Eu não lembrava como era sorrir.

Laura bebe a vodca de uma vez e enche o copo novamente.

Eu bebo minha vodca lentamente. A garrafa está pela metade.

Sentamos próximos em silêncio. Ela se apruma, deita-se no meu ombro. Encolhida com os pés no sofá. Ela usa salto alto. Deve ter saído às pressas. Seu corpo é quente e eu a abraço. O silêncio nos dominava mesmo com a vontade de dizer tantas coisas. O relógio denuncia as horas: três da manhã. Sinto que Laura está chorando. Quero dizer algo, mas não consigo.

— Queria que tudo tivesse sido diferente. Queria que nossas vidas não tivessem tomado este rumo. Como se a última alegria que eu tive foi contigo. Como se era obrigação viver nesta tragédia. Por que Leandro?

Eu não sabia a resposta. Laura continua:

— Naquele casamento eu desejei por todas as forças que fosse você, deveria ter sido você. O Roberto foi um jeito que deram, um jeito porque todos apontavam o dedo para mim, todos me julgavam Leandro! Você sabe muito bem o que foi este julgamento!

Eu sabia.

Eu a beijei.

Nosso beijo foi se misturando, se misturando, se misturando. Eu nunca senti a boca de outra mulher na minha boca, eu nunca mais tinha sentido esta excitação que eu sentia agora. A garrafa de vodca cai, está quase vazia e o líquido não derrama. Ela me beija forte, me beija como se quisesse me matar. Me beija como se fosse sua última salvação. Mesmo com o olho roxo ela continua linda. Ela passa a mão no meu corpo. Meu pau está gigante e avolumado na calça de moletom. Tomo sua nuca para mim e aperto o seu rosto no meu rosto. Ela arranha minhas costas e vamos inclinando no pequeno sofá cinza de três lugares. Estou deitado. Ela tira o vestido. Começa a me beijar enquanto me masturba, começa a me beijar e eu sinto o passado voltando, começa a me beijar novamente e novamente. Cada peça de roupa que vai chegando ao chão é uma carícia nova. Somos como pessoas que passaram meses sem comer ou beber atacando um banquete. Somos pura excitação.

Sua boceta, que saudade, a primeira e única. Afundei meu rosto naquela boceta e ela puxava minha cabeça. Nossa nudez era linda e errada. Foda-se tudo. Os seus gemidos abafados deixavam meu pau ainda mais duro. Enterrei o rosto na sua boceta, sem tempo para detalhes descritivos. Depois subi e começamos a foder, se mais, sem menos, sem medo, sem culpa. Fodiamos, fodiamos, fodiamos. Fodiamos como fizemos no passado. Conhecemos o corpo um do outro como dois moradores de uma casa centenária. Entrar naquela boceta era uma delicia, seus gemidos eram música.

Fodiamos e o mundo era mais feliz.

Fodiamos e as horas passavam.

Sua xota brilhante deslizava no meu pau. Seus seios grandes balançavam. Ela sentada no meu colo, seus olhos fechados. Ela gemia e dizia “me fode, me fode, me fode”. Nunca fui bom com palavrões. Ela apenas deslizava seu corpo lindo e sua boceta maravilhosa no meu pau e gemia. Era como se a cor de tudo voltasse. Como se nada dos últimos dez anos tivesse sido real. Estar dentro dela era o meu maior desejo e talvez o motivo dos meus sonhos. Quantas vezes me masturbei pensando neste dia, que enfim, havia chegado. Agora Laura estava lá, nua e deliciosa. Eu aperto sua bunda ela desce no meu pau, gememos. Não quero gozar, quero que isto dure para sempre. Ela levanta do meu colo e me diz “como na última vez”.

— Isso faz muito tempo.

— Eu sei.

Ela se apoia no sofá, com sua bunda empinada. Adentro e fodo cada vez mais rápido. Seu gemido se torna cada vez mais alto, e cada vez mais forte eu começo a foder. Sinto vir, sinto a vontade, sinto que tudo está prestes a explodir. Eu sei quando ela goza, dai decidimos inconscientemente gozar juntos. Ela se tremelica toda enquanto eu solto meu esperma no fundo do seu ser, sem medo nem vergonha nem pudor.

Já tínhamos feitos isso antes.

Fizemos durante toda a adolescência.

Eu estava com saudade de Laura.

Laura é minha irmã.

 

2 – ANTES

 

Laura dorme comigo na cama. Estamos nus. Seu pelo pubiano, a pequena pelagem que lhe cobre o sexo esfrega em minha perna. Vejo em seu rosto que ela está dormindo profundamente, uma tranquilidade que há muito não sentia. Eu estava feliz, também era um sentimento que há muito eu não sentia. Seu pequeno roncado de cansaço, junto ao calor de seus sentimentos. Seus seios pressionavam em meu corpo. Naquele limiar entre estar acordado e dormir tive um sonho que era mais o voltar de memórias.

Eu nasci primeiro. Laura veio dois anos depois. Minha primeira memória dela era acordar com seu choro. Nossa mãe corria para o quarto e a amamentava. Eu olhava com o canto dos olhos, fingindo dormir, Laura sugar-lhe todo o seio que um dia foi meu. Via a pouca luz que escapava pela fresta da porta entreaberta o bebezinho que Laura ela, os olhinhos marrons quase escuros. Lembrava um filhote de gato.

Crescemos como crianças solitárias. Nossos pais estavam sempre ocupados demais trabalhando e conseguindo um padrão de vida um pouco superior aos demais. Quando não era isso, estavam brigando. Íamos para escolas de crianças ricas, comíamos comidas de criança ricas, fazíamos aulas que só crianças ricas podiam pagar. Não sei ao certo se éramos ricos. Todas as conversas de nossos pais eram referentes a quantas dívidas tinham e o que poderiam vender para viver. Nisto brincávamos juntos. Também ensinava a Laura muitas coisas. Ela mostrou-se mais esperta do que eu muito cedo, sempre conseguindo coisas que eu nunca consegui. Sempre enrolando, mentindo, as vezes até subornando, de modo infantil, para que suas vontades sejam feitas. Por um lado eu a protegia fisicamente, principalmente no colégio, onde não existia “homem não bate em mulher” como ela me protegia intelectualmente, uma vez que quando eu me metia em enrascada Laura sempre vinha com uma argumentativa fantástica. Esta era nossa parceria.

Éramos uma espécie de Bonnie e Clyde.

— Olha o que eu tenho aqui! — eu disse. Era um domingo. Estávamos na casa de nosso tio. Um grande churrasco em família, uma das nossas tias iria se casar, a tia mais nova que tínhamos. Uma grande festa, churrasco e etc. Éramos as únicas crianças na casa. Mostrei para Laura o meu achado na exploração ao quarto do nosso tio. Uma fita, um filme pornográfico. Achamos graça naquela capa, todas as mulheres nuas — será que um dia você vai ficar feiosa como estas mulheres na capa?

— Vai se foder Leandro! — eu tinha dez anos, Laura tinha oito. Éramos espertos o bastante para nunca falar palavrões na frente de adultos.

Colocamos a fita no videocassete da sala. O filme começa com uma música ridícula e algumas mulheres beijando uns caras. Eu e Laura estamos assistindo aquilo com se fossemos assistir o Rei Leão. Depois vemos um casal se beijando e tirando a roupa. Não tinha muita explicação. O homem parecia ser um encanador e começou a beijar a dona da casa. Eles se jogam no sofá e começam a tirar a roupa. Tanto eu quanto Laura nunca tínhamos visto aquilo, uma vez que nunca vimos nossos pais se beijarem. Não sabia o que Laura estava sentindo, mas meus neurônios espelhos começaram a deixar meu pauzinho infante duro. Uma sensação que eu só sentira quando passava muito tempo sem mijar. O casal já está completamente nu, o pau do homem no vídeo já esta monstruosamente grande. Lembro ter olhado para Laura e seu rostinho branco já estava vermelho. Foi a primeira vez que eu lembro ter visto minha irmã como uma menina bonita. Na época seus cabelos eram curtos e castanhos, desciam-lhe ao rosto de maneira perfeita e lisa. Vestia um vestido azul, com alguns detalhes. Ela repara que eu estou olhando para ela.

— Quer imitar o pessoal no vídeo? — ela pergunta. Faço que sim com a cabeça e me aproximo. Tentamos imitar o beijo do casal no filme, sem muito sucesso, pois nem eu nem ela sabíamos sobre a utilização da língua. Tento puxá-la mais para perto e começo a sentir uma sensação esquisita, porém boa. Eu digo:

— acho que tem que usar a língua que nem aquele cara.

Meto a língua na boca da minha irmã. Uma sensação boa corrói nossa alma. Sinto uma sensação muito forte que logo passa. Apenas o medo invade nossos corações com o barulho da porta abrindo. Paramos de nos beijar alguns segundos antes de Tia Flora adentrar na sala e nos flagrar assistindo ao filme “As Caçadoras de Rolas”. Ela não viu nosso beijo, mas não conseguia externar alguma sensação. Perguntou onde tínhamos achado aquilo, depois foi tirar o vídeo e nos mandou brincar.

Penso até hoje no que foi aquilo. Agora Laura está na minha cama. Dorme profundamente. Faço carinho nos cabelos de minha irmã. Minha frágil tola. Sinto uma raiva enorme de mim mesmo, passei a vida dormindo, passei a vida esperando um momento mágico onde ela retornaria. Deveria ter ido atrás, deveria ter a protegido. Ela Casou-se com um homem agressivo, com um filha da puta que fez o que fez. Sinto uma raiva profunda de mim. Meu coração bate mais forte. Laura acorda, olha para mim, volta a me beijar e repousa novamente sua cabeça no meu peito.

Fecho os olhos e lembro.

Não sei se houve alguma denúncia de nossa tia. Mas poderia causar um problema na família saber que a fita era do meu tio, um homem casado. Bem, nunca soubemos de fato. Eu e Laura nos tornamos mais próximos. Fazíamos tudo juntos e logo não tínhamos tantos amigos. Planejávamos nossas coisas, nossas fugas, nossas vontades. Nossos pais poderiam ter achado estranho se não tivessem trabalhando tanto, não sei. Este trabalho nunca trouxe frutos de verdade, pois sempre ouvia falar sobre as mesmas dívidas.

Eu havia arranjado cigarros. Comprei dois, disse que era para o meu pai. Fomos para o quintal e começamos a fumar. Um ano havia se passado do evento do filme pornô. Eu havia quase esquecido. Tínhamos outras preocupações. Iriamos em breve para outras escolas, iriamos nos separar. Pelo menos passar dois terços do dia separados.

Laura tossindo pela não prática de fumar falou:

— Não quero ir para outro colégio. Estamos bem onde estamos.

— Eu sei Laura, mas é o jeito. Nossos pais não conseguem pagar o nosso colégio — dou uma tossida.

— Queria ir embora.

— Eu também.

— Eu queria sentir aquilo que eu senti te beijando — eu disse. Laura ficou em silêncio. Tossiu um pouco mais.

—Achei que tinha interesse em outras meninas. Ouvi dizer que você era caidinho pela Flávia.

—Não sei quem é Flávia.

—Eu também gostei daquilo. Não sei o que foi, mas também gostei daquilo. Quando estou tomando banho eu me lembro daquele filme e me sinto estranha. Lembro-me do nosso beijo.

Escutamos um barulho. Nos livramos dos cigarros. Eleonora, nossa empregada nos chamou para almoçar. Perguntou o que estávamos aprontando. Nada dissemos, apenas corremos para dentro da casa.

Naquele mesmo ano fomos para colégios distintos. Nossos pais queriam que nos tornássemos pessoas de sucesso, logo fomos matriculados em colégios de turno integral. Só estávamos em casa de noite. Eu via cada vez menos Laura, e ela cada vez menos me via. Precisávamos estudar muito, precisávamos de notas boas para viver o sonho de outra pessoa. Aos treze anos me via muito solitário. Sempre no meu quarto estudando, ou no colégio com meus amigos. Às vezes conseguia conversar com Laura, coisas poucas, coisas triviais, não sei se, por termos crescido estávamos nos afastando. Também começamos a brigar muito. Quando estávamos juntos brigávamos. Discutíamos. Era uma amizade fraternal desfeita para se tornar uma grande inimizade.

Brigávamos e nos distanciávamos.

Fiz algumas outras amizades no colégio. Ela também. Era parte do nosso crescimento. Era parte da nossa rotina. Aos quatorze alguns dos meus amigos tinham suas namoradinhas. Nenhuma daquelas garotas me interessava. Eram estranhas, eram feias, eram rudes. Não sei. Eu sempre fui mais reservado, mais calado. Sem muito senso de humor. Por ignorá-las talvez isso tenha chamado mais suas atenções. Começávamos os joguinhos sexuais, todos queriam saber quem tinha beijado quem e quem já tinha beijado. Eu fingia que nunca havia beijado ninguém, mas na verdade, este segredo vinha comigo, pois meu primeiro beijo fora com minha irmã e sabia muito bem como a sociedade iria digerir aquela notícia.

Pouco sabia de Laura. Sei que ela tinha suas amiguinhas, e às vezes ela iam lá em casa. Ficavam apaixonadas por mim, porém Laura simplesmente dizia que eu era Gay. Ficava puto. Que merda! Suas amigas davam risada. Eram umas idiotas. Nenhuma delas me interessava, mas também não precisava que Laura criasse estas difamações. Também sabia que Laura levantava de madrugada e ia para o banheiro fumar. Por diversas vezes eu ouvi seus passos no corredor, Por diversas vezes eu via limpando a boca e escovando os dentes.

Eu fazia a mesma coisa.

—Todos nós achamos que você é gay Leandro — um dos meus amigos me dizia. Estávamos na sala de aula e o professor ainda não havia chegado. Eu estava com dezesseis anos na época — você não se interessa por nenhuma menina! Até a Gabriela te deu bola! Se eu pegasse a Gabriela e seria o cara mais feliz do mundo!

—Não sou gay Edgar. A Gabriela não me interessa!

—Eu acho que você é gay sim Leandro. Todo mundo acha que você é gay Leandro — Edgar zombava. Curiosamente a última notícia que eu ouvi dele, é que ele estava casado com um rapaz. Isso é irônico. Todos na sala começaram a rir. Quando somos jovens temos o ego maior que a barriga. Por mais que eu não me importasse tanto com o que diziam, eu não era gay. Não me interessava por homens. Também não me interessava por aquelas meninas, elas não tinham graça. Não tinha uma razão de ter graça.

—A irmã dele disse que ele se encontra com rapazes direto no quarto! — disse Glória, uma guria gordinha e feiosa. A apelidamos de gorda escrota.

Eu fiquei puto. Laura tinha espalhado isso!?

—Vou provar que não sou gay.

Levanto-me, vou até onde Gabriela estava sentada. Ela olha para mim. Seus cabelos loiros e cumpridos são lindos, mas nunca tiveram nada especial.

—Gabriela, eu sei que você gosta de mim — eu digo. Ela está um tanto desconsertada. Ela está sentada apoiada na mesa do professor. Sua testa está na altura da minha boca. Tomo-a pelo queixo, sem esperar por sua resposta e começo a beijá-la. Faço como aprendi nos diversos filmes pornográficos que assisti dos quatorze para cá. A beijo profundamente. Puxo sua cintura para mim e colo seu corpinho magro e esquelético no meu corpo. Só consigo pensar em uma pessoa enquanto eu a beijo.

Só penso em Laura.

Todo mundo da sala começa a bater palma e a gritar.

O professor chega.

Meus pais foram chamados. Acabei na diretoria. Meu pai ficara orgulhoso de mim e minha mãe me repreendeu. A casa estava um silêncio. Acreditei que Laura não havia chegado. Entrei no meu quarto e fiquei em silêncio. Do outro lado as nuvens começavam a formar as primeiras gotas de chuva. Eu havia chegado mais cedo, estava numa espécie de castigo. Algo imposto por mim mesmo. Precisava provar mesmo que eu não era gay? Estranhamente nada senti com aquele beijo. Nem desejo, nem excitação. Só pensei em Laura, nada mais.

Mas ela é minha irmã.

Eu não deveria sentir isso por minha irmã. Uma culpa invadia, afogava, sufocava. Talvez todas estas coisas me deixavam doente, foi então que eu havia decidido que morrer era a melhor opção. Era a primeira vez que eu pensava seriamente em suicídio. Pensando nisto dormi e assim sonhei que estava espiando Laura tomando banho. Eu a via espumada, passando xampu. Não conseguia ver nem sua vagina e nem seus seios, como se minha vista estivesse bloqueada. Eu sentia que a espiava, por detrás da fechadura. Não conseguia sentir nada além de desejo. Nada além de tudo! Acordei com os gritos de Laura no meu quarto. Ela estava furiosa por algum motivo. Disse que eu era um mau caráter por ter beijado Gabriela! Que eu deveria ser gay.

—Você é um traidor Leandro! Seu safado! Seu filho da puta — eu não entendia. Não entendia o motivo de sua raiva. Ela gritava, isso significava que estávamos sozinhos?

Ela chegou mais perto. Achei que iria me bater. Laura estava linda. Seus cabelos castanhos e curtos faziam um corte perfeito. Seus olhos amendoados e femininos. Seu cheiro de suor (ela havia acabado de chegar do colégio). Tinha quatorze anos, quase quinze. Seus seios estavam grandinhos, seu corpo atraente. Não havia notado? Ela cresceu e não notei. O desejo cresceu e não notei. Ela estava puta da vida. Eu enterro minha mão nos cabelos de sua nuca e a puxo para mim.

A beijo exatamente como os caras beijam as mulheres nos filmes pornô.

Ela se assusta, ela resiste, ela derrete.

Nosso beijo se torna mais forte, mais profundo. Somos irmãos gritou tanto na minha como em sua cabeça. Não importa. Estávamos sozinhos, nos beijávamos. Eu dormia apenas de bermuda e ela vestia a camisa e a saia do fardamento do colégio. Ela sobe no meu colo, estamos nos beijando cada vez mais forte.

—Por que está fazendo isso? — Laura repetia no meu ouvido, como um sussurro ou um gemido. Tirei sua blusa. Os seios não eram tão grandes assim. O sutiã branco fazia metade do papel naquele tamanho. Mesmo assim aquilo me deixou muito mais excitado. Sinto sua boceta ficar cada vez mais molhada. Afasto sua calcinha e ela desliza no meu pau. Seu rosto se contorce com alguns segundos de dor e tudo começa a se transformar num prazer errado.

Cada vez mais errado e cada vez mais prazeroso.

Um pouco de sangue escorre pelo meu pau. Levanto seu sutiã e começo a lamber seus seios. Meio que eu não sabia o que fazer. Eu estava comendo minha irmã. Ela gemia baixinho, era mais dor do que prazer. Era mais errado do que certo. Era mais tudo do que nada. Ela esta no meu colo. Estamos trepando, estamos sentido prazer. Sinto o calor da sua boceta no meu pau, como se fosse algo estranhamente mágico e distinto. Voltamos a nos beijar e a sensação fica cada vez mais forte, mais animalesca. E quanto mais forte fica mais tudo se torna nuvens de gemidos e amor. Suas unhas navalham minhas costas e um sentimento de dor invade e se mistura a tudo que era bom. Aquela sensação única de gozo começa a invadir. Eu digo em seu ouvido quase sem querer:

—Vou gozar!

E ela diz:

—Também!

Talvez o que eu disse tenha a feito gozar.

Passamos o resto da tarde deitados em nossas camas, como um casal normal. Sua boceta espremida na minha perna. Eu sentia o seu calor. Sentia o seu coração bater forte. Não sei se ela pensava o mesmo, mas eu havia perdido minha virgindade.

Sim, eu havia transado com minha irmã.

 

3 – DELEITE

 

Eu estava cozinhando. A mala de Laura ainda estava na sala. O barulho da cafeteira borbulhando o café enchia a cozinha de vida. Levo a mala pesada de Laura até o quarto. Ela dorme profundamente. Seu olho arroxeado parece bem melhor. Está completamente despida. Seus seios, sua bunda, sua boceta. Meu pau entumece. Tenho vontade de retornar aos lençóis e lambê-la até que o mundo se torne um lugar mais bonito.

No momento certo eu ponho o açúcar. A vida fica doce, o café fica doce. Não sinto vontade de dormir. Meu cigarro ilumina a penumbra daquela manhã. O domingo crescia em minha janela. Conseguia ouvir as famílias se reunindo para ir à praia. Conseguia ouvir a vida se mexendo do outro lado, buscando um motivo para ser uma vida, para ser um motivo, mesmo que fútil. O cigarro queimava o tampo da mesa, minha mente estava muitos anos atrás. Eu e Laura começamos a transar com mais frequência. Voltamos a nos tornar inseparáveis. Lembro-me num domingo igual a este. Eu havia adentrado no seu quarto. Trancamos a porta e lá estava eu, olhando para sua boceta recém-raspada. Minha língua passeava por aquela carne virginal como um cachorro que lambe o melhor amigo. Ela se contorcia. Abafava os gemidos no travesseiro. Nossos pais dormiam no quarto em frente. Minhas lambidas se tornam mais frenéticas e seus pezinhos se contorcem. Tremem, arquejam.

—Põe a camisinha — ela diz.

Começamos a foder, ou fazer amor. Fomos irresponsáveis na primeira vez, mas tal coisa não se repetiria. Pensava que Laura poderia engravidar de mim e isso não poderia ser explicado de uma forma convincente. Eu penetrava e pensava em todos os meus amigos que estariam batendo punheta nesta hora, vendo algum vídeo pornô. Eu não era mais um deles. Sorria em pensar que já possuía uma vida sexual ativa aos dezesseis.

Só não podia falar que era com minha irmã.

As amigas de Laura estranharam o seu afastamento. Matávamos aula para nos encontrar, passar mais tempo juntos. Era bobagem, iriamos nos encontrar em casa, mas precisávamos de adrenalina. Nos beijávamos em locais onde poderíamos ser reconhecidos e depois disfarçávamos. Em pouco tempo Laura nem falava mais com as outras meninas, da mesma forma que eu não falava mais com os outros meninos. Vivíamos para nós, queríamos a nós. Éramos o que tínhamos. Ou isso ou nossos pais ausentes. Ou isso ou nossa gorda empregada.

Preferíamos nossas descobertas.

Nossos segredos.

A maneira que eu masturbava Laura, ou a maneira que ela me chupava o pau.

—Eu realmente estava louca por um café — assusto-me. Volto de anos no passado para o presente. Laura veste apenas uma calcinha e uma camisa minha. Seus cabelos estão desgrenhados e seu rosto amassado. Eu dou um sorriso sincero, digo que o café está pronto.

—Vou comprar pão pra gente.

Laura me beija. Sua mão desliza no meu rosto. Ela me beija e chora. Me beija e me abraça.

—Me desculpe, eu não queria casar. Eu juro! Senti sua falta todos estes anos.

—Eu dormia, dormia para sonhar contigo. Sonhar contigo era minha única alegria de viver.

Seu coração dispara. Eu a beijo mais forte. Ela se senta sobre a mesa. O café borbulha. Está doce. Tiro sua calcinha que delicadamente percorre o longo caminho das suas fortes pernas. Começo a chupá-la como fazia antigamente.

Começo a chupá-la como fiz no seu aniversário de 15 anos, enterrado naqueles montes de camadas daquele vestido de aniversário. Ela passou a festa inteira sem calcinha só para me deixar louco. Dançamos a valsa naquela noite com uma vontade enorme de se beijar. Uma das convidadas havia perguntado se eu era o namorado de Laura. Não neguei, disse apenas que era seu irmão.

E rimos disto, pelados, naquela mesma noite.

Pensei nisto hoje e ri. Ri enquanto fazia-a gozar com minha língua. Ri quando fodemos naquela mesa, naquela cozinha, naquela manha de domingo com famílias indo para praia. Era igual há quantos anos atrás?

Eu com dezessete.

Ela com quinze.

—Poderíamos nos casar e fugir — ela disse, num sábado de março — quando você fizer dezoito anos, eu vou estar com dezesseis. Fugimos e casamos. Ninguém nunca saberá que somos irmãos.

—Ainda falta quase um ano inteiro para o meu aniversário. Podemos planejar tudo. Eu ganho algum dinheiro, podemos juntar e ir embora. Dai consigo um trabalho e podemos viver tranquilamente. Tudo o que eu quero é viver contigo.

Tudo que eu queria era viver com Laura.

Nos meus sonhos eu ainda estava com Laura.

Quando soube que ela iria casar, pensei seriamente em tirar a própria vida, foi a segunda vez que pensei nisto. Agora eu estava ali, transnado com Laura como na nossa juventude.

Eu estava sorrindo. Joguei o cigarro fora e entrei na padaria. Era poucas quadras do meu apartamento. Meu corpo fedia a um suor de sexo, minha boca com gosto de xoxota. Eu era um grude humano na fila do pão e não me incomodava. Comprei os carioquinhas e me mandei. Não pensei em pegar o troco. As ruas eram calmas, apenas pessoas que vivem nos domingos. Velhos e tudo mais. Penso que poderia comprar um presente para Laura, alguma coisa que ela gostasse. Laura sempre curtiu livros e havia uma livraria no caminho de casa. Procuro alguma coisa que ela gostaria de ler na vitrine. Grande parte destes livros eram desinteressante, outra grande parte autoajuda. Como se as livrarias fossem farmácias e os leitores pessoas doentes.

Uma figura me chamou a atenção. Ele olhava fixamente para mim. Notei seu reflexo na vitrine. Estava com um boné sem identificação, camisa polo e bermuda. Não parecia ninguém que poderia morar ali. Uma figura estranhamente parruda encarava minha nuca. De tudo isso o que mais me incomodou foi o fato dos óculos serem parecidíssimos com o que Laura usava. Aquele sujeito me incomodava. Comecei a andar em passos largos na rua oposta a minha. Se estivesse me seguindo não daria a posição de onde eu morava. Ele não me acompanhou nem de vista nem de rosto. Pensei por um instante que poderia ser um homem cego. Um dos bares na rua de trás poderia ser atravessado. Como se fosse um corta caminho entre ruas paralelas. Não sei se este individuo sabia disto. Atravesso o bar e pego um ônibus que passava. Mesmo sendo apenas dois quarteirões de minha casa, se eu realmente estivesse sendo vigiado estaria dando uma pista falsa. Converso com o motorista e ele para na esquina do meu apartamento. Faço um tempinho e, quando a rua esvaziou eu entrei. Não havia porteiro, ninguém que poderia de fato me identificar.

Laura sempre foi silenciosa. O barulho do rádio e o som do chuveiro encheram aquele apartamento de vida. Laura enxugava o cabelo. Vestia-se com uma camisola. Preparo ovos. Sorrimos e conversamos. Digo a ela que pode ficar o tempo que quiser.

Digo a ela que estava com saudade.

Não digo que talvez eu tenha sido seguido. Poderia ser paranoia minha. Mas decidi que iria juntar um dinheiro e me mudar com ela para outro estado.

Quem sabe casar.

Eu e Laura usávamos um anel semelhante, uma forma obscura de mostrar nosso compromisso sem que as pessoas de fato soubessem o que era. Foi ideia dela. Eu acatei. Gostaria de perguntar se ela manteve este anel guardado. Eu ainda o tinha, mas o evitava, pois só trazia dor. Comemos e atualizamos nossas vidas e os acontecimentos.

— Tenho medo dele me encontrar. Eu fugi sem deixar carta nem nada. Apenas peguei uma quantia em dinheiro e saí de lá. Sofri muito Leandro. Tentava escapar, mas não conseguia. Nossos pais forçavam uma barra desde sempre, tentava explicar para a mãe o que acontecia, mas era como se tivessem colocado aquele homem na minha vida para me punir. Uma vez — dizia Laura entre as garfadas — ele me ameaçou com sua pistola. Ele empurrou o cano da arma na minha bochecha, disse que iria espalhar meus miolos por aquela sala. Eu reagi, gritei para ele, disse que podia disparar. Era melhor morrer do que ser uma puta! Puxei uma faca. Eu iria mata-lo. Tinha que mata-lo, mas ele era muito mais forte. Me deu um soco que apaguei. Acordei no hospital militar com o prontuário de atropelamento.

E suas histórias eram cada vez piores.

Ou ela fugia.

Ou ela morria.

Ou ela matava.

Passamos aquele domingo deitados na cama. Hora trepando, hora conversando.

Conversávamos sobre a juventude.

—Estou grávida!! Ela disse entrando no meu quarto, mais branca que um papel. Nos assustamos mas era alarme falso. Por dois dias eu acreditei piamente que seria pai, mas fora apenas um atraso. Começamos a usar a pílula que logo foi descoberta por nossa mãe. Começávamos a ficar um tanto quanto descuidados. Por duas vezes Laura foi quase pega fazendo oral em mim. Outra vez, estávamos tomando banho juntos, quando nossos pais chegaram e eu tive que escalar a pequena janelinha do banheiro e dar a volta no quintal nu, torcendo para que nenhum vizinho ou familiar me visse. Era como se, intimamente, quiséssemos ser pegos. Como se existisse um desejo que aquele segredo fosse revelado e que todos pudessem testemunhar nosso amor.

Era uma loucura. O nosso medo era que esta loucura também virasse desejo. Uma espécie de ousadia, não sei. Todos os planos estavam arquitetados. Iriamos fugir e nos casar assim que possível. Todas as vezes que via aquele pequeno anel no meu dedo lembrava de nossos anseios proibidos. O cheiro de seus cabelos no meu travesseiro, o cheiro de seu corpo no meu corpo. Queríamos dormir juntos, mas era impossível, arriscado, loucura. Aproveitávamos o máximo das tardes, pois era nosso momento de solidão. Fazíamos disto nossa rotina romântica e sexual. Laura comprara lingeries diferentes, e eu pesquisava formas para satisfazê-la. Meus colegas conversavam sobre sexo, eu tinha sexo sempre.

Tudo isso para depois, ficar mais alguns anos sem. Depois que nos separamos eu nunca mais senti prazer com outra mulher. Era como se aquelas carnes não possuíssem sabor. Como se aqueles dias não fossem prazerosos. Como se nada mais fizesse sentido. Eu decidi que dormir era o melhor, pois assim poderia ao menos sonhar com Laura. E agora que ela invadia minha vida, saindo de meus sonhos, trazia uma felicidade completa.

—Você me faz muito feliz — eu disse em seu ouvido. Tomávamos banho, eu havia acabado de voltar do trabalho. Disse em seu ouvido. A água escorria por nossos cabelos, por nossos corpos. Eu sentia apenas o prazer explosivo e a louca vontade de gozar.

O esperma misturado na água.

Vou e volto do trabalho e Laura está lá. Estou juntando dinheiro. Nós vamos embora.

—Você lembra? — são duas da manhã. Eu me lembrava.

Tínhamos indo para a casa do tio Emanuel. Uma casa de praia.  Não lembro em que época era, mas creio que estávamos nas férias do meio do ano. Não queríamos viajar, fomos obrigados. Teria muitos familiares e seria muito perigoso trocar olhares. Fingimos estar brigados durante todo tempo. Nossos pais estavam felizes. Todos estavam felizes. Foi uma longa viagem. Eu e Laura ficamos muito tempo sem nos falar, eu sentia saudade, sabia que ela também, mesmo quando compartilhamos o mesmo veículo.

—Melhor não tentarmos nada — eu disse discretamente — nossos primos vão encher a paciência. Vou tentar dar uma escapada de madrugada.

— Venha. Vou dormir sem calcinha só para você.

Aquilo me deixou mexido. A boceta de Laura era fenomenal. Tentei esquecer reste detalhe pelo resto do dia. No almoço em família eu sentia direto o pé de Laura subindo minha perna e esfregando o meu saco. Ela fazia sem olhar para mim mesmo sentada na minha frente. Nos bolinávamos em segredo diante de todos. Meu tesão aumentava em cada momento. Tudo naquela praia era um saco. Tudo o que eu queria era estar com Laura.

E Laura queria estar comigo.

Ela vestia um biquíni azul florido, bem pequeno. Eu fiquei todo o tempo na piscina para esconder meu enorme pau duro na sunga. Ela ria com nossas primas e primos conversavam e brincavam. Sempre nos encarávamos e ela mordia os lábios numa maneira de tentar me sacanear. Nossa escapada não dera certo, estávamos três dias sem trepar. Tanto eu quanto ela subíamos pelas paredes.

—Estava me masturbando no banheiro — Laura disse para mim, escorada na borda da piscina — eu queria mesmo era seu pau.

—Todos estão aqui fora, podemos tentar uma rapidinha lá dentro, na sala mesmo.

—Tem coragem?

—Tenho, mas tem que ser rápido — eu digo. Laura sai da piscina. Seu corpo todo molhado e delicioso.

Queria segurar sua mão, mas era perigoso. Olho em volta, vejo todas as principais ameaças se divertindo. Nossos pais no churrasco mais ao longe e os primos na piscina.

Laura fica de quatro. Estamos apoiados na mesinha de centro. A luz do sol entra pelas janelas e é bloqueada pelas cortinas. Lá fora só escutamos o barulho das risadas e a música alta. Vejo as costas de Laura, a bunda de Laura, a boceta de Laura. Ela está completamente depilada e lisa. Completamente deliciosa. Não tínhamos muito tempo para preliminares nem nada. Precisávamos ser animalescos. Eu via cada gotícula de água em seu corpo e a delicia que era adentrar aquela xota minha, unicamente minha. Laura dá um gemido de dor e logo um murmúrio de prazer. Vamos ao nosso ritmo: ela apoiada na mesinha de centro, eu mandando ver. A sala era bem grande, com um bar, uma televisão gigante e um tapete colorido. Os porta-retratos caíram no nosso movimento frenético. Quando trepávamos o tempo parecia parar, tudo era prazer e aquele estava sendo nosso melhor sexo. Eu sentia a pele da sua boceta na pele do meu pau. Eu sentia a vontade de ejacular vindo, mas a ânsia de segurar e fazer aquilo durar muito mais, durar uma eternidade. Eu escuto os gemidos de Laura, toco no seu seio. Ela está completamente nua, era uma péssima ideia isso. Mas sua pele, queimada pelo sol, suas costas deliciosas, seu cabelo esparramado, sua bunda e sua boceta. Todo o completo conceito da obra, musicada com gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos, gemidos…

Até que um grito nos fez sair do transe e da transa.

Nossa tia (não a mesma que nos pegou assistindo pornô quando criança. Outra tia) derrubara um panelão de maionese no chão e gritara. O grito alarmou a todos e logo a sala estava cheia de familiares. Eu e Laura estávamos indefesos. Ela de quatro, completamente nua e eu com meu pau dentro dela. Todos nos assistindo deu um flash de tesão antes de toda a tragédia.

Nossa mãe desmaiou quando viu a cena.

Eles não sabiam o que fazer. Nos vestimos. Eu disse que nos amávamos. Mas não poderia existir este tipo de amor, não deveria existir.

Fui mandando para morar com minha madrinha poucos meses depois.

Laura foi mandada para a casa de uns amigos de nossa mãe em outro país por algum tempo. Tentamos nos comunicar, mas era impossível.

Sim eu me lembrava.

Nossas vidas se destruíram por completo por causa de nosso amor. Nem a vida de nossos pais fora a mesma. A história se espalhou. O casal de irmãos que eram namorados. Que queriam se casar. Nos mandar embora foi a melhor escolha para eles, mesmo que isso significasse nossa completa destruição.

O amor iria nos destruir.

Eu deveria ter Lutado por Laura, mas me acovardei. Depois que ela voltou do exterior, casou-se, apanhou, e fugira para cá. Agora estou trabalhando dia após dia, para que possamos concretizar nossos sonhos de adolescência.

Agora penso nisto todas as vezes antes de dormir. Com Laura ao meu lado.

A beijo mais uma vez.

—Te amo — eu digo — te amo, minha irmã.

 

4 – TRAGÉDIA

 

Laura não atendera ao telefone. Eu sempre ligava às 16:00 dizendo que estava saindo do trabalho, ou que iria fazer hora-extra. Era quase quatro meses juntos com a mesma rotina, a mesma forma de realizar as coisas. Liguei mais uma vez as 17:00 e Laura não atendia. Decidi não ficar para a hora-extra. Decidi que precisava ir embora. O crepúsculo era real. O sol desabou no fundo do horizonte de uma maneira mais pesada. Estava muito calor, eu sentia meus dedos suarem e minhas pernas doerem. Como se eu estivesse febril, como se estivesse doente. A condução cruzou a cidade. Não tinha trânsito, parecia ser um sonho. Todos estavam dormindo, o silêncio imperava. O trocador mascava um chiclete e por vários minutos o barulho do mascar se misturava ao som da vida. Aquele chiclete em sua boca era a representação da vida mundana, sendo mascada e mascada por um ser que não sabe ao certo se vive ou existe.

Era meu caso.

Eu existo.

Tentava buscar uma consciência naquela existência, mas esta consciência não existia. Todo o calor do mundo, naquele fim de tarde alaranjado me mostrava que tudo seria em vão, nada seria real. Terem me separado de Laura, terem me mandado para longe. Uma crueldade, outra crueldade. Eles torciam para que meu corpo fosse encontrado enforcado, fosse encontrado apodrecido. Eles preferiam investir em Laura, pois a menininha da família, depois de alguns anos de terapia no exterior, poderia voltar e ser o sucesso. Escolheram pensar que eu não existo, escolheram me excluir. Laura havia casado, Laura esteve com outro homem, com outra história, enquanto eu definhava e dormia, sem querer acordar. Não era culpa de Laura, ela tinha se agarrado ao que sobrara, porém não sabia que este resto seria um pesado fardo, um profundo fardo que, na pior das hipóteses, seria o seu fim. Penso o quanto esta condução demora a chegar ao seu destino final.

Penso que não consigo aproveitar nada da viagem.

Desço em frente à padaria. Compro nossos carioquinhas e um pudim que Laura gosta muito. Estou cansado, foi um dia duro de trabalho, seria mais duro ainda. Faltava muito pouco. Logo estaríamos sumidos no mundo, logo nada mais nos impediria de finalmente amarrar o nosso amor. Logo teríamos nossa própria vida, a vida que foi tirada de nós e agora estava retornando. Sabia que viver com os sorrisos de Laura, com suas lágrimas, e com seus sonhos me daria o motivo melhor para viver. Saber que nosso elo estranho, bizarro e pecaminoso fora feito para ser unido, e desta forma será unido. Era verdade, era real. Não precisaria mais dormir para esquecer, não precisaria mais torcer para não acordar. Era real, eu não acreditava. Nunca fora tão feliz nos últimos meses. Como se toda a angústia dos últimos dez anos tivesse valido a pena.

Porém a angústia sempre volta.

A porta do meu apartamento estava aberta, escancarada. Eu entro, o silêncio vem junto comigo como um encosto. Minha garganta arde, meu coração palpita. Eu sabia que havia algo estranho, porém demorei muito para tirar conclusões e a única coisa que eu consegui sentir foi a pancada na cabeça e a visão escurecer.

Fazia tempo que eu não tinha um pesadelo. Não lembro o que era, mas me incomodou muito. Com a vista turva a primeira coisa que vi foi Laura, amarrada em uma cadeira com sangue escorrendo por um ferimento no supercilio. Ela estava amordaçada. Notou quando eu acordei e começou a chorar.

—Vocês dois são nojentos — disse uma voz grave.

Eu tentava entender, mas a dor não me deixava raciocinar. Eu tentava bloquear todos os pensamentos autodestrutivos, coisas que me viam em momentos de estresse. Eu tento levantar, porém também estou amarrado. Um homem anda pelo quarto. Moreno, careca, alto. Muito forte. Sua voz é áspera, estranha. Ele anda de um lado para o outro, está segurando um cabo de vassoura partido.

Ele está armado.

Laura tenta falar alguma coisa, mas não consegue. O homem lhe esbofeteia e eu sinto uma explosão de raiva e ódio. Sinto como se meu peito ardesse em chamas, sinto com se pudesse arrancar a cabeça daquele homem. Ele vê que estou com raiva, sente meus olhos arderem. Ele é experiente. Muitas vezes já o olharam com estes meus olhos assassinos e ele simplesmente ignorou. Ele sabe como lidar com isso, sabe que apenas a violência consegue arrumar as linhas tortas na vida. Ele murmura algo e me dá outra pancada na cabeça. Minha vista escurece. Sinto o sangue brotar. Laura grita, mas a mordaça abafa seus gritos. Estamos no nosso quarto. Mesmo com a vista escura eu vejo nossa cama, sinto saudade do corpo de Laura grudado ao meu.

—Sua puta — diz o homem — pensou mesmo que iria fugir de mim? Eu perdi tudo, perdi tudo caçando você. Eu sabia que ia te encontrar, sabia que as coisas não iam ficar assim. Sua mãe me disse que era bem provável que estivesse com seu irmão, mas não pensei que seria tão grotesco a ponto de vocês serem um casalzinho. Que nojo eu tenho de você! Que nojo.

O homem cospe e continua:

— Eu tenho vontade de te estuprar e depois abrir suas entranhas aqui mesmo. Mas o nojo que eu sinto de ti é tamanho que eu não tenho esta coragem.

Mais um tapa. Escuto o barulho de algo quebrar. Laura está sangrando muito. O sangue rubro cobre um dos olhos.

—E você é o irmãozinho não é? Ouvi muito falar de você. Um funcionário merda com um salário de fome. Acha mesmo que eu não ia te encontrar. Estou de olho em você há muito tempo, te seguindo, te acompanhando. Observando os seus passos. Eu precisava ter certeza, queria te causar o máximo de dor. Fui paciente, como um caçador, fui paciente, mas agora esta farrinha acabou. Seu filho da puta, eu comeria o seu cu aqui só para sentir o prazer de te foder, seu merda, só para você saber como é bom comer a mulher dos outros — ele aperta a arma na minha testa, o cano me faz um corte. Laura grita, mas o som é abafado — seu filho da puta, acha que vai ficar com minha mulher assim?

Ele me bate com a arma, caio para o lado e escuto algo quebrar de verdade. Sinto que a cadeira afrouxou um pouco. Tento forçar, mas não consigo. Estou muito tonto, estou com falta de ar. Ele esta balbuciando algo. Vejo que aquele homem enlouqueceu por completo. Vejo apenas suas pernas indo para lá e para cá, caído ao chão, amarrado a cadeira. Estou forçando, sinto que a cadeira está cedendo. Não sei, acho que ele pensa que desmaiei. Ele fala com Laura. Ele grita com Laura. Escuto tapas, escuto gritos abafados, escuto choros. Laura grita pelo meu nome. Laura se desespera. Ela sempre foi muito calma, muito estratégica, muito certa. Muito forte. Ouvir seus gritos de desespero, ouvir o barulho da sua pele sendo agredida, ouvir o som de seu sangue escorrer pela testa. Eu sentia apenas ódio, mais uma vez não podia fazer nada, mas uma vez minha covardia e minha inércia. Laura gritando com seu marido lembravam as brigas de nossos pais.

Lembrava os tempos que nos abraçávamos e nos protegíamos, ainda crianças, destas violências obscuras, deste medo, desta agressão.

—Papai não vai parar de brigar com mamãe? — perguntava Laura, com seus quatro anos.

—Eles sempre param. Sempre param — eu disse.

Eles não iriam parar. Eu precisava me livrar daquela cadeira. Eu forço muito mais, sinto meus músculos doerem, sinto as cordas cortarem e o sangue brotar. Sinto meu coração pulsar mais forte.

Eu vou te salvar Laura.

Não irei fracassar.

Meu coração para. Minha respiração cessa.

O disparo abafado faz o mundo ao redor congelar.

Sinto que o tempo parou por completo. Semelhante àquele silêncio que subitamente escutamos quando os carros param de passar. Um amigo meu dizia que era a visita de um anjo. E sim, um anjo nos visitava.

Um anjo cruel.

Faço uma última força, a cadeira finalmente quebra e eu consigo me levantar, com muita dificuldade.

O sangue esparramado pelo chão e pela cama. Aquele homem está parado com sua arma na mão.  Nem ele parece acreditar no que acabara de fazer. Eu observo a cena, aqueles segundos estão congelados no tempo, estão congelados no espaço, estão paralisados. Aquilo nunca largaria minha mente, aquilo nunca mais me deixaria dormir. O sangue que brotava do peito de Laura escorria por toda sua roupa. Brotava como água do chão sujo. Ela tentava respirar e não conseguia. Seus olhos assustados me viram uma última vez antes de perderem a vida e se tornarem inertes.

Laura estava morta.

Toda nossa história passa na minha mente, todos nossos momentos e nossas alegrias. Mais uma vez separados, mais uma vez o fracasso impera minha vida. Mais uma vez a dor toma conta no meu lamento. Eu não conseguiria resistir, não suportaria a dor de ver este caixão descer pelo buraco, não suportaria a dor de saber que Laura morrera ali, na minha frente, por minha culpa. Deveria ter sido mais cuidadoso, deveríamos ter ido embora. Num mundo de deveríamos nunca a medida certa é tomada, cometemos erros e isso custou a sua vida. Laura olhava friamente para o lado. Sem conseguir se despedir. Sua mordaça ensanguentada, seu rosto cortado e inchado. Seu peito perfurado pelo projétil da pistola. Atrás apenas o borrão do sangue. Foi um tiro no coração, sem muitos estragos, estético. Sua mãe ficará orgulhosa do enterro que a filha terá.

Apenas a explosão de raiva me põe cego. Aquele homem tirou tudo de minha vida. Laura era o que me restara de um dia de felicidade, também era toda minha felicidade. É certo que não devemos projetar a nossa felicidade em outras pessoas, mas eu e Laura éramos anjos com uma asa só. Só poderíamos voar se estivéssemos juntos. E agora, sem Laura, era apenas uma queda livre, fria e mortal para o inferno doloroso. Apenas a explosão de raiva que me seguia. Uma raiva que nunca imaginei que teria, uma dor misturada com ódio e rancor. Eu, nem em mil anos, poderia vencer aqueles montes de músculos que o marido de Laura era. Nem em mil anos, nem em mil vezes eu poderia vencê-lo.

Mesmo assim me atiro para cima dele, como um zumbi possesso. Ele dispara mais duas vezes e eu sinto a bala me rasgar o abdômen. Sem dor nem ardência, apenas uma sensação estranha que meu espírito começou a vazar. Seguro a arma com toda minha força. Ela esta quente, dolorosa. Brigamos pela posse do artefato mortífero. Nesta altura a polícia já fora chamada, nesta altura os jornalistas deveriam estar em nossa porta, filmando o combate do século: o homem que comeu sua irmã contra o corno vingativo. Minha força nunca fora tamanha. Brigávamos pela arma como quem briga pela própria vida. Ele dispara mais uma vez, e mais uma vez à bala me acerta em algum lugar. Eu não senti. Apenas a dor me trouxe força. Força o bastante para disparar uma única vez em sua cabeça e fazer os miolos do marido de Laura se espalharem pela cama.

Seu corpo desaba no lençol onde eu e Laura transamos pela primeira vez (depois de nos reencontramos, claro).

O sangue esparrama transformando o branco em vermelho.

A parede oposta completamente suja.

Meu sangue escorre, quente pelas minhas mãos. Estou nos pés de Laura, peço perdão, peço perdão. Choro. Sinto meu corpo esfriar, sinto que o sono que sempre quis chega. Sinto que finalmente poderei dormir sem que me incomodem mais. Finalmente o motivo de viver se faz completo. Agora meus sonhos serão únicos, agora o frio que tenta me capturar poderá ter minha alma, mas não meu amor. Agora tudo dependerá do tempo que deixa de existir. Consigo ouvir as sirenes lá fora. Estas que me acordaram muitas vezes durante meus sonos. Consigo ouvir sua voz em minha mente. Estou feliz, não deveria estar, mas estou. Fecho os seus olhos com meus dedos e me aprumo em seu colo Seguro as frias mãos de Laura. Enfim a dor chega, mas chega tarde. Enfim o anjo da morte está aqui.

Enfim, ficaremos juntos pela eternidade.

Laura, minha irmã.

 

 

Fotografia de https://twitter.com/Nuditivity

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