Elas sempre são as protagonistas. Meu desejo é fazê-las gozar (sexualmente ou da vida). Éramos muito mais jovens do que podia-se imaginar. Bebíamos em quantidade muito maiores. Riamos. Nossa juventude era tão promissora, nossa dor era tão legítima. Nossa fome era tão completa. Quando a juventude brilha na alma tudo é muito colorido. Desperdiçamos as cores da vida com o álcool, drogas e risadas. Desperdiçamos nas trepadas febris sem amor ou nexo. Eu fui um revolucionário de sofá. Quis brigar pela liberdade social de uma forma torpe. Aprendi muito novo que tais coisas não faziam sentido, e tudo o que eu precisava era viver e mudar a mim mesmo.

Minhas amizades femininas me confessavam coisas que nem suas amizades femininas sabiam. Sempre me posicionei como um amigo com beneficio. Eu nunca acreditei nesta amizade pífia e parasitária entre homem e mulher, uma vez que tais diferenças deviam ser acertadas no sexo. Também, desta forma, suas amizades se tornavam mais reais, pois uma mulher se torna completamente sincera depois de um orgasmo real. Me diziam dos acontecimentos, dos casos e dos estupradores. Me falavam dos segredos, das dores, das animosidades. Das vontades de se dizer não e da coragem de se dizer sim. Aprendi com suas vozes aos pés dos meus ouvidos que ser mulher era difícil: por um lado todo um histórico lhes obrigava a abaixar a cabeça, por outro lado uma luta nascida na vontade da mudança se tornava uma ditadura.

E são apenas estas palavras sinceras que se faziam ecoantes em tantas madrugadas que passamos em claro.

Elas eram sempre protagonistas, mesmo com este protagonismo se tornando uma espécie de briga midiática. Na doçura ou na raiva. Depois do orgasmo chegava as lágrimas, também vinha minha lamentação de não ter seguido a carreira acadêmica em psicológica. Poderia fazer rios de dinheiro com isso. Cada palavra dita naquela madrugada, cada história que eu ouvi, cada brincadeira. Elas eram protagonistas, eram obrigadas a dizer o não. Precisavam dizer o não. Quantas saíram da minha vida para seguirem vidas animosas, com relacionamentos abusivos? Quantas voltaram para minha vida mesmo não largando a vida de seu cônjuge? De amigo virei rota de fuga, ponto de escape, um único momento de risos em dias de lágrima.

Queria ter feito algo de diferente na vida de cada uma, queria ter dado um conselho. A casa do ferreiro tem espeto de pau. Eu também precisava de conselhos, mas precisava fingir se forte e decidido para cada uma destas que protagonizaram, mas precisavam de mim como um alívio cômico. Queria ensinar a elas o poder do “não”. Uma palavra tão difundida, tão poderosa. Ensinar que ninguém é obrigado a ficar aonde está. Que mesmo com os filhos e a família, que mesmo com uma vida construída, que mesmo com tudo não valia a pena viver tanto tempo neste estado de felicidade. Eu dissera: “diga não”, mas eu recebia o não. Como se fosse um vício pela tragédia todas elas preferiam a tragédia da segurança, de viver sobre a égide de seus algozes. Viver neste eterno sim, neste eterno não gozar, neste eterno esquecimento. Vivendo como minhas amantes, como minhas meninas lá de trás, dos tempos de juventude transviada.

Vivendo dizendo sim, quando deveriam viver o não.

 

 

 

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