Jair Bolsonaro apresentava sua sequência de ministros na televisão. Eu havia evoluído, morava no sétimo andar de um prédio que tinha porteiro. Logo o interfone tocou, mas eu estava com uma preguiça monstra de sair da varanda. Pensei em esperar um pouco mais, talvez eu estivesse sonhando e o interfone não tocara de verdade. Iria apostar todas as fichas que aquilo era uma justa imaginação de um ponto inexistente. Se houvesse, de fato, alguém, não seria a mim que procurariam.

O interfone toca mais uma vez. Reclamo mentalmente. Ao passar na sala desligo o televisor sem dar uma última olhada no circo se formando. Por um lado a política me animava, mas por outro iria me decepcionar. Políticos e prostitutas fazem parte da mesma família e sempre irão te decepcionar caso você se apaixone. Ver o mundo pegar fogo lentamente era uma diversão para mim, não acreditava nos vitimismos de um lado e estava vacinado contra as promessas do outro. Não ofereceria minha cara a tapa, apenas iria atender ao interfone e viver a vida, sem depender do governo, sem depender do mundo.

– Carlos? Claro, pode mandar subir – respondo para Geremias Figueiras, o porteiro. Homem sábio, casado, displicente. Contava para todo mundo sobre seus casos alheios, sobre as mulheres invisíveis que lhe davam bola. Um pobre coitado que só possuía um punhado de mentiras para contar. Isso é uma pitada de alcoolismo. Isso e uma violência contra si mesmo. Todas as vezes que passei pela portaria fui atualizado com o placar do último jogo. Tanto ele como eu torcemos São Paulo, mas nunca lembro de assistir aos jogos.

Carlos adentrara. Sempre trás cervejas. Resolvera o problema de minha preguiça. Eu precisaria descer, ir até o posto de gasolina comprar o meu combustível pessoal. Carlos resolveu meu problema por hora. Ele precisava falar sobre sua mulher. Eu servia como uma especie de conselheiro para o coitado. Não entendo de onde ele buscava tanta confiança em mim, eu apenas falava o que ele já sabia. Apenas dizia o que ele precisava fazer, coisa que ele nunca executara. Sua vontade mesmo era apenas conversar, desabafar, falar mal da mulher.

– Eu encontrei estas fotos aqui – ele me mostrava o celular de 1.200 que ainda estava pagando. Eu segurava o aparelho com medo dele desmanchar na minha mão. Várias fotos de sua esposa nua, em diversas posições. Eu olhei novamente para o seu rosto, que não parecia envergonhado. Apenas cruzado por tristeza – ela não me mandou estas fotos, e são antigas. Do final do ano. Digo, sabe, porque ela tirou estas fotos?

– Sei lá cara. Você tem viajado demais, não sei. Trabalhado além da conta. Elas ficam sozinhas e com o tédio tiram fotos e mostram para as amigas.

– Eu tenho quase certeza que ela está me traindo. Ela não me deixa mexer no seu celular. Estas fotos eu achei por acidente, ela colocou na nuvem que é compartilhada com meu celular. Quando ela notou eu já havia salvo.

Neste ponto havia uma encruzilhada. Eu sabia que ela estava o traindo, mas aquela mulher era tudo na vida daquele homem. A auto estima de Carlos não poderia ser mensurada, pois era ínfima. Seu desejo de casar fora iniciado ainda jovem, conhecera sua esposa, casara com ela e assim vivem. Ele viajando demais, como funcionário público muito bem remunerado. Não deixava a pobre coitada trabalhar, com um ciumes irracional porém motivado.

Eu tinha duas opções, plantar a ideia da traição e arruinar sua vida, ou ser o guru falso.

Olho novamente aquelas fotos. Sua esposa é linda. Uma morena baixinha, rosto redondo e cabelos lisos que vão até a cintura. Numa das fotos ela está de quatro, em outra ela se masturba. Não reproduzo o vídeo. Paro quando de deslizar o dedo para a direita quando encontro uma foto deles dois numa praia. Já estávamos na terceira cerveja, precisava mandar Carlos embora, pois precisava sobrar alguma bebida.

– Cara, acho que ela ia te mandar estas fotos e esqueceu. Acontece. Você viajou por quase três meses. Tenho certeza que deve ter traído ela um monte neste tempo – Carlos diz que não com convicção – eu sei, eu sei. Você está com minhocas na cabeça meu amigo. Vá para casa e durma um pouco, vai ver que sua esposa vai conversar contigo sobre estas fotos.

– Eu não sei, ela anda estranha a algum tempo. Agora estas fotos. Preciso clarear minhas ideias…

– Carlos, todas as vezes que você vem se queixar de sua mulher você se autodestrói, deixa de burrice homem. Vá para casa e seja feliz.

Carlos parecia melhor. Terminamos nossas bebidas e ele parte. Guardo as duas últimas garrafas sobrevivente na geladeira para mais tarde. Ligo a TV, sento no sofá. Bolsonaro ainda está discursando suas baboseiras. Começo a mexer no meu celular. Um modelo Nokia antigo, um dos primeiros a ter Touchscreen.

– Alô, ei, seu marido veio aqui – eu digo mudando de canal – ele me mostrou as fotos que você me mandou. Você deixou as fotos na nuvem e ele viu. Disse que você ia conversar disto com ele viu. Agora vê se não vacila. Ele viaja quando? Certo. Pode vir para cá. Beijo.

Anúncios