Usamos a arte para expressar nossos sentimentos. Gosto de escrever histórias que aconteceram comigo e com amigos e preenchê-la de coisas boas para que a leitura seja graciosa. Muito que um artista põe em sua obra refle sua psiquê e sua história. Muito do que dizemos nas entrelinhas de cada pincelada está muito além que pode-se explicar no silêncio. Podemos sim, na arte, como telespectadores, juntar nossas peças e montar um quebra-cabeça maior.

Não gosto de ser o diferentão hipster que recrimina os filmes de super-herói e apenas aplaude o cinema cult. Para que filmes cults sejam feitos, é necessária as imensas bilheteria dos super-heróis e, obviamente, quando bem feito, existe espaço para ambos. Porém, de fato, algo que eu poderia reclamar do cinema novo é a falta de coragem de desafiar o telespectador. Buscam contar a história de maneira explicada, como se a vida precisasse de um narrador. Buscam ligar os pontos, juntar os fatos, buscam apenas o escapismo líquido sem, tentar no mínimo, tocar em alguma ferida cotidiana. Nem tão esdruxulo como um Nelson Rodrigues que mostrava de forma alegórica as perversões suburbanas da cidade do Rio de Janeiro, nem próximo de um Jean-Luc Goddard que, tenta atravessar a arte na história, fazendo uma película ímpar e de difícil acesso.

Alfonso Cuarón não busca ser rebuscado, tão pouco simples. Pode-se dizer que ele nos põe como uma entidade vigia, que observa a vida de uma família classe média alta. Cuarón não explica, não define quem é quem, não diz o que está acontecendo. A família apenas vive e nós observamos, tentamos juntar os pontos, tentamos aprender quem é quem. Aprendemos a se importar com aqueles desconhecidos, mas nunca nos apegamos ao ponto de chamá-los de família.

Não existe panfletismo. A história é o que é. Existe o patrão e existe a empregada. Não há vilões, pois, como na vida real, grande parte das pessoas possuem suas falhas de caráter mas não são terrivelmente más. Cléo, que por vezes é empregada, também é babá, faz parte da família, porém sabe que também não faz parte, mas antes de mais nada ela é humana e todos ali sabem disto e a tratam como tal.

Eu, que sou homem, pude convalescer de empatia pelos acontecimentos. É passado de forma sublime como o ser masculino pode ser danoso e destrutivo. Também aprendemos como a mulher pode sofrer por confiar em nós. Como é dito no filme “nós, mulheres, sempre estamos sozinhas” e posso concordar plenamente, pois nossas capacidade masculina de abandonar é factível e se “ROMA” é amor ao contrário, realmente, o contrário de amar pode ser traduzido como “abandonar”. Claro que o discurso do filme vai longe de batalhas pífias entre machismo e feminismo pois, não há o machismo e muito menos o feminismo, há vida, há coisas que acontecem, há a tristeza, o abandono e o mundo que gira. Talvez, como principal mensagem, pode ser dito que até mesmo o alicerce da família é frágil e instável e mesmo assim pode se fazer de tudo para que não desmorone.

Quero ir além das atuações que são impecáveis, quero ir além da fotografia que é linda e fantástica, quero ir mais além ainda do roteiro inteligente e da direção perfeita. ROMA é a tradução mais fiel do cinema como arte pensativa e interpretativa. A história é só uma, mas ela não é dada, não é contata de maneira normal. ROMA trabalha com fatos, com acontecimentos, com pedaços de fatos que são sussurrados pelos personagens, tentando esconder que, apesar daquela felicidade inicial, há algo errado.

E sempre haverá algo errado no seio familiar.

E sempre famílias perfeitas irão desmoronar.

Ao terminar de assistir queremos assistir novamente. É semelhante a uma música muito boa de uma banda ruim, você quer mais daquele trabalho e não há. Não que Cuarón seja um mal diretor, muito longe disto, mas critico o cinema e sua falta de inventividade de nos colocar dentro da vida de personagens inexistentes e nos entregar uma história ímpar e viva. Nos entregar que muito pode ser contada num chão em processo de limpeza, em estantes de livros, e na vida e rotina de uma simples empregada doméstica que fala num dialeto tão gosto de se ouvir.

De fato, o cinema é movimento e Roma é vida.

Nota: Na cena do hospital, todos os médicos são médicos de verdade. Assistam com esta informação extra.

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