(I)

O nome das pessoas envolvidas será alterado para manter o sigilo. 

Ela preparou o espelhinho de maquiagem com o pó e me ofereceu. Eu aspirei aquela linha branca e senti meu cérebro formigar. Ela aspira também e dá um risinho. Estamos no sofá da sua casa e são duas horas da manhã. Temos algumas garrafas vazias em nossa coleção e o assunto já terminara. Agora a ideia era ficar louco, uma entrada divina para a primeira das quatro noites. Ela prepara mais uma carreirinha para ambos. Era todo o pó que ela tinha guardado para momentos difíceis. No auge dos seus 32 anos de idade a genética tinha sido muito favorável. Todos diziam que aparentava no máximo 27 anos. Olhos asiáticos misturados com brasileiros, cabelos curtos, corpo de dançarina. Sim, ela dava aula de dança do ventre nos momentos livres, porém trabalhava como técnico administrativo de uma gráfica.

Eu também trabalhava lá, no estoque.

Seu nome é Nara, ela mora num apartamento próximo à praia. Antes que eu chegasse até a sua residencia ela se maquiava. Uma maquiagem que tentasse esconder as primeiras rugas que apareciam. Ela pensava “estou louca”, pois depois de ter fracassado em seu casamento com um estrangeiro, ela tinha convidado um rapaz dez anos mais novo para passar o carnaval. Sim, ela estava. Tinha me convidado para passar a noite de sábado em seu apartamento, pois no outro dia iriamos até o hotel fazenda Mar e Luz.

E agora que ela tinha convidado um garoto do estoque, dez anos mais novo, que conversava sobre coisas que ela se interessava, e que tinha um jeito sedutor na voz, sentia-se nervosa tal qual os relacionamentos falidos na adolescência. Ela reclamaria consigo mesma por não conseguir amar, não conseguir uma estabilidade. Nunca sonhara em ter filhos, talvez fosse uma perda de tempo, mas invejava as amigas que estavam grávidas, casadas, felizes. Nara se maquiou para a minha chegada. Sim, estava linda com aquele batom vermelho escuro, para bem mais tarde, cheiramos pó no seu espelhinho de maquiagem e por fim ficarmos nus. Ela pensaria, durante a madrugada, que fodera com um rapaz que trabalha no estoque e que era dez anos mais novo.

– Então, esta é da boa! – é coisa do meu primo. Ele trabalha na televisão, é ator, tem acesso ao melhor – Nara tenta se vangloriar de algo tão pífio. Ela deve ter pago uns duzentos reais naquele saquinho de oito gramas. Tínhamos sugado as duas rapas, agora nossos cérebros formigavam. Servi vodka e sorri.

– Uma das melhores. Eu gostei mesmo do seu apê. Pequeno e conservado. Bela estante de dvds. Aposto que encontro muita pornografia lá.

– Só lésbica. Gosto de ver meninas se lambendo quando estou triste.

– Você tem algo de estranho que eu adoro – digo sorrindo. Ela está envergonhada em partes. É uma noite quente, ela esta a vontade. Uma pequena alça do sutiã aparece, branca, contrastando com sua morena pele. Conversamos mais um pouco sobre trivialidades, quando ela realmente entra no assunto:

– Saímos amanhã cedo. Temos que chegar no hotel fazenda às 10 da manhã. Tem uma pequena cerimônia de abertura, é bem divertido. Eu mesma só fui uma vez, mas foi bem legal. Muitos dos meus amigos vão estar lá, vão adorar te conhecer. Faz tempo que não passo o carnaval lá. Fui com meu ex-marido, ele que me apresentou. Só dá para ir de casal e até então eu não tinha alguém para ir. Que aceitasse, sabe?

– Então podemos nos considerar um casal?

Ela ri.

– Sim, estamos juntos aqui não estamos.

Nos beijamos.

Quando transamos eu senti que ela não fazia isso há muito tempo. Mais importante que o sexo, ela queria dormir sabendo que havia alguém preenchendo aquela enorme cama vazia.

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