Eu nunca entendi o que as pessoas querem dizer com “criar consciência”. A meu ver, a “consciência” não parece ser algo que possa ser “criado”, como se ela estivesse ausente e então se manifestasse do nada. Mas claro, a “consciência” é uma palavra abstrata, que pode ter vários significados, o que torna as coisas bem confusas, então talvez seja melhor começar o texto especificando minha própria definição.

A meu ver, o termo “consciência” pode ser usado de duas formas: A primeira, como substantivo, representa uma instância do aparelho psíquico, a parte racional, a Consciência, o Eu ou Ego humano (falando psicanaliticamente). A segunda, como verbo, representa o ato de tomar (cons)ciência de algo, ou seja, de passar a saber algo que não se sabia antes.

Alguém poderia questionar qual seria, então, a diferença entre usar o termo “tomar” ao invés de “criar”. Eu não me importo com terminologias, já que a linguagem como um todo é falha, logo, usar “tomar” ou “criar” não faz diferença alguma para mim. O que me incomoda mesmo é o que as pessoas querem dizer quando usam qualquer um desses termos. Usarei alguns exemplos para explicar.

Lembro-me que um dia, em alguma discussão aleatória na internet, um vegan comentou algo sobre não comer animais ser uma “obrigação moral” do ser humano. Como sou um relativista, usei o velho argumento cultural: Aos índios, não é pecado faltar à missa, já que eles não reconhecem o deus cristão como sua divindade. Da mesma forma, para a população ocidental não é imoral comer animais (com certas exceções). Logo, da mesma forma que não faz sentido querer que índios se sintam culpados por não irem à missa, não faz sentido querer que a população geral se sinta culpada por comer carne.

Para mudar esse tipo de comportamento, existe a tal “conscientização”, e talvez seja com essa palavra que a confusão comece: Por um lado, faz sentido chamar de “conscientizar” o ato de tornar alguém ciente de algo que antes essa pessoa não sabia. Mas o fato de a pessoa obter essa nova informação significa necessariamente que ela irá mudar seu comportamento? E se mesmo tendo aprendido as novas informações, ela não o fizer? Aí então ela não será “consciente”?

Quantas pessoas são conscientes de todo o sofrimento pelo qual os animais passam até chegar às suas mesas (muitas assistiram documentários a respeito, com cenas fortes) e continuam comendo carne? Quantas são conscientes de todo o dano causado em seus corpos pelas drogas e as continuam usando? Quantas têm consciência do sofrimento que moradores de rua, animais de rua, pessoas carentes, refugiados, habitantes de países em guerra, animais em extinção, a biodiversidade de florestas, rios e mares, bebês prematuros, pessoas doentes, crianças depressivas, adolescentes suicidas, adultos em crise, doentes mentais, doentes físicos, homens, mulheres, trans, negros, gays, índios, viciados, desempregados entre muitos outros seres passam, e isso não muda em nada seu comportamento? Então essas pessoas não teriam consciência? Consciência de que?

Tenho uma amiga vegan que resgata animais abandonados, mas gosta de dinheiro e não dá a mínima para a população carente, enquanto tive um professor comunista que chegou a construir casas para os pobres, mas come carne todos os dias. Ambos se consideram conscientes, e consideram que o outro não o é.

Por que isso acontece? Por que na verdade, o que as pessoas querem dizer quando falam que querem fazer as outras “criarem consciência”, é “eu quero que as pessoas concordem comigo”.

O segundo exemplo mostra isso melhor, e envolve o tal professor comunista: Um dia ele estava criticando ideias capitalistas, como sempre fazia em suas aulas, muitas vezes dando enormes voltas e contando histórias pessoais sobre sua vida (o que fazia com que ele precisasse marcar aulas extras para terminar sua matéria). Nesse dia em específico, ele chamou de “escrotos” alguns alunos de outra escola que “só querem saber de dinheiro” e “não se importam com o meio ambiente”.

A outra escola era um colégio de elite, onde os filhos de milionários recebiam educação de ponta para passarem nas melhores universidades e se tornarem profissionais tão ricos quanto seus pais. Ninguém ali estava interessado em salvar o mundo (assim como ele não estava interessado com o sofrimento dos animais que comia), então ninguém se importava com seu moralismo. Quando todas suas histórias não surtiram efeito algum, ele usou seu argumento final: “Tudo bem, eu tento trazer a consciência em vocês, mas se vocês não se importam com nada disso, não tem mais o que eu fazer. Eu tentei”.

Nota-se que era o mesmo argumento. “Conscientização”. Me pergunto se aquele fosse um professor capitalista, como ele iria tentar nos conscientizar sobre como o comunismo não funciona. Ou se fosse uma escola religiosa, talvez tentassem nos conscientizar do pecado que é fazer sexo antes do casamento ou falar o nome de deus em vão. Talvez você não concorde com a política de cotas, e aí então eles tentarão te conscientizar de que ela é importante.

Ou talvez você seja como eu, e ache que a linguagem é falha e que por isso não deva ser levado muito a sério, mas aí eles irão tentar te conscientizar sobre os perigos da relativização e a importância de ser politicamente correto. Em todos os casos, é o mesmo argumento: Eles têm a consciência, você não*. Eles transmitem essa consciência a você, caso você concorde com eles, ou, do contrário, continua sem tê-la.

E o mais irônico disso tudo é que muitas das pessoas que fazem isso não só são professores, como são professores que se dizem “humanistas”. Adoram citar as críticas de Paulo Freire ao “ensino bancário”, quando fazem exatamente o mesmo. Louvam o “pensamento crítico” quando uma sala de 30 alunos concorda com eles, mas quando qualquer um do rebanho os questiona, tratam as ovelhas como os críticos, e os questionadores como os alienados.

“Eu tento trazer a consciência a vocês”. Não, muito obrigado, senhor professor. Eu já tenho minha consciência, e tomo muito cuidado com quem permito influenciá-la. O que você traz é informação contaminada com seus próprios juízos de valor, e eu posso escolher concordar ou discordar deles.

Se você tem problema com isso, talvez devesse ter escolhido uma carreira militar, ou na igreja, onde não se pode discordar dos valores que são ensinados. Mas como são os senhores mesmos que pregam a famosa ideia do “pensamento crítico” (apesar de não fazerem ideia do que isso significa) para “criar consciência”, que tal serem um pouco menos hipócritas e um pouco mais humildes e admitir que o que vocês querem mesmo é que o mundo todo concorde com você?

É o que todo mundo quer, afinal. Alguns apenas têm mais consciência disso, enquanto outros se escondem atrás de falsos moralismos para não ter de olhar no espelho.

 

 

*PS.: É interessante notar também o quão dramático essas pessoas são quando estão simplesmente fazendo seu trabalho. Perceba que elas não usam apenas o termo “conscientização”, mas também falam de “abrir os olhos”, “libertar a mente”, “esclarecimento”. “Ensinar” ou “trabalhar” não é o suficiente para elas: Elas precisam se colocar como se fossem os salvadores da humanidade, e ainda têm a coragem de dizer que não se colocam como superiores aos seus alunos. A falsa modéstia (e a hipocrisia, como sempre) são a marca desse tipo de pessoa, que eu acho desprezível.

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