Era uma segunda feira, e seria meu primeiro dia de aula na nova faculdade. O instituto ficava à beira de uma rodovia que estava em obras, e eu teria que caminhar pelo acostamento para chegar até ele.

Pelo menos eu estava morando perto. O apartamento que eu havia alugado ficava a 10 minutos a pé do lugar. O bairro em si não tinha nada: Uma padaria, um restaurante que não funciona aos finais de semana e dois mercadinhos que fecham no horário de almoço. A maioria das lojas naquela cidade fechava para o almoço, o que era uma surpresa para alguém que vinha de São Paulo, como eu.

 Nos primeiros dias, o clima estava infernal, e era impossível sobreviver fora do alcance de um ventilador, mas é claro que no primeiro dia de aula tinha que chover.

Eu havia acendido um cigarro, e, no começo, ignorei os pingos que começaram a cair, por preguiça de tirar meu guarda-chuva da mochila, mas depois fui obrigado a fazê-lo. Para piorar, as obras haviam enchido o acostamento de barro, e eu estava usando meus tênis de corrida – que não uso para correr, mas por serem confortáveis – que ficaram cobertos de lama e areia. Por sorte eu não me importava com eles.

Finalmente cheguei ao instituto, mas tive de andar mais uns quinze minutos até o auditório onde seria a recepção aos calouros. Sentei no lugar errado, fui até o certo e então esperei que a apresentação começasse.

Não me lembro quanto tempo aquilo durou, mas sei que foi mais do que gostaria. Depois de apresentarem um vídeo contando a história do instituto e toda sua extensão, uma das professoras apresentou todo o corpo docente, com seus nomes, fotos e títulos que iríamos esquecer no momento em que a apresentação acabasse. Quando acabou, tivemos um breve “coffe break”, como virou costume dizer, e então voltamos para a pior parte da recepção. Não estava mais chovendo, pelo menos.

A apresentação havia acontecido em um palco com um microfone. Os “veteranos” haviam subido ao palco com “placas” amarradas em cordões para pendurar no pescoço. Os calouros teriam que subir ao palco, onde escolheriam um veterano para serem apadrinhados e então seriam entrevistados por eles. No palco. Com o microfone. Eu já estava me arrependendo.

Os calouros começaram a subir ao palco, um a um. As perguntas foram as de sempre: Nome, idade, cidade de origem, motivo pelo qual resolveu fazer o curso, e se estavam solteiros. Alguns responderam que aquele era seu sonho desde criança, outros, mais do que eu esperava, disseram que haviam escolhido de última hora ou como segunda opção. Havia até mesmo um homem que já havia cursado outra faculdade antes, como eu, na área de educação, e que como eu, havia largado por se desiludir com a área. Eu pensei em falar com ele no começo, por nossas semelhanças, mas aí vi que ele era barbudo e usava uma camisa do Che Guevara, então decidi esperar mais um pouco.

Quando chegou a minha vez, eu subi no palco e escolhi aleatoriamente uma das três garotas que ainda não haviam sido escolhidas. Depois de nos cumprimentarmos e ela colocar a placa em meu pescoço, a entrevista começou:

– Qual o teu nome?

– Conatus.

– Co o que?

– Conatus. É David, mas as pessoas costumam me chamar pelo sobrenome.

– Quantos anos você tem?

– 24.

– De onde você vem?

– Do interior de São Paulo

– E por que você decidiu fazer esse curso?

– Bom, eu fiz técnico em mecânica, mas descobri que não gosto de trabalhar com máquinas… Aí me formei em psicologia, mas descobri que não gosto de trabalhar com pessoas… Aí agora espero gostar de trabalhar com animais, por que estou ficando meio sem opções…

Eu respondi, fazendo um tipo de piada. Não olhei para a plateia para ver sua reação, mas a veterana parecia dar um sorriso desconfortável.

Depois disso, nós fomos almoçar o que os veteranos haviam preparado para nós, que era um pão com linguiça e refrigerante. Comi os dois que vinham no “combo” que tinham feito, e então fui fumar um cigarro. O povo estava conversando entre si sobre as atividades após o almoço. O planejado era que os calouros fizessem um tour com seus veteranos pelo gigantesco campus a partir da uma e meia da tarde, mas ainda era meio dia, e algumas pessoas falavam sobre ir encher a cara. Vi o comunista pegando carona com uma das veteranas gostosas e me arrependi de não ter falado com ele antes. Mas descobri que o bar onde eles iam ficava ao lado do instituto, e fui até ele a pé.

Quando cheguei ao local, vi o que parecia ser um casal de metaleiros sentado em uma das mesas, bebendo e fumando. O homem tinha cabelo comprido, e eles eram cheios de tatuagens e piercings. Quando me aproximei, a mulher disse:

– E aí, calouro? Bora tomar uma cerveja?

– Claro – respondi. Peguei uma lata no balcão e me sentei com eles.

– Gostei do estilo de vocês – disse – não esperava encontrar isso por aqui.

Logo mais alunas chegaram. Ronnie, o tatuado, bolou um beck com tabaco e nós fomos fumar perto do ponto de ônibus da faculdade. Esmeralda, sua namorada, foi com a gente. Eles me contaram sobre o bairro, e sobre conseguir casas melhores do que a minha nele. Também me falaram sobre onde conseguir chá, e tentaram me convencer a fazer uma tatuagem com eles.

Voltamos para o bar e continuamos bebendo e conversando com as alunas que estavam lá. Voltou a chover de leve, e nós entramos no bar com os bancos. A hora do tour se aproximava.

– Você vai? – uma das veteranas perguntou.

– Nem fodendo. Já não estava a fim de ir antes. Agora, com essa chuva…

– Não quer conhecer o campus?

– Eu vou ter cinco anos para fazer isso. Para que fazer isso agora, de uma vez, embaixo de chuva?

– E relaxa – Ronnie disse – a esmeralda tá lá há um ano e ainda não sabe quais são as salas dela.

Bebemos por mais um tempo. Eu pegava cervejas para mim, mas as veteranas preferiam corote de sabor. Na minha terra aquilo era conhecido como bebida de mendigo, mas elas pareciam não se importar.

Ronnie bolou mais um beck, dessa vez, puro, e as veteranas foram fumar com a gente. No caminho até o ponto elas estavam felizes e curtindo, mas quando chegaram lá, por algum motivo, começaram a ficar na bad.

Uma delas disse que odiava sua vida, as coisas estavam difíceis na faculdade e queria largá-la. A outra era bi, mas havia ficado noiva de seu primeiro namorado por que queria parecer normal com a família. As veteranas haviam tentado fazê-la desistir do noivado falando coisas ruins sobre o garoto, e perguntaram minha opinião.

– Bom, eu não posso dizer nada sobre o cara, já que não faço ideia de quem seja, mas se casar “para parecer normal” me parece besteira de qualquer jeito – eu respondi – além do mais, estamos em 2019. Tudo é normal.

A conversa não havia adiantado, no entanto, e as duas continuaram se lamentando enquanto nós fumávamos atrás do ponto de ônibus. Eu decidi “provocá-las”.

– Caralho, vocês fumam e de repente entram numa bad fodida hein? De onde tá vindo tudo isso? – disse, com certo humor.

– Você não sabe do que tá falando, calouro! – uma delas respondeu – essa cidade vai te destruir!

– Bitch, please – eu respondi, já bêbado e chapado – eu vim de São Paulo. Já estou imunizado contra isso.

Apesar de veteranas, elas tinham 19 anos, então eram mais jovens do que eu. Pensei que talvez estivessem sofrendo da mesma forma que sofri na idade delas, na minha primeira faculdade.

– Você não se importa com o fato de que vai ser pobre?

– Como assim pobre?

– Se você tiver um chefe, trabalhar em uma clínica, seu salário sempre vai ser muito menor que o dele.

– Ah, mas eu não estou querendo trabalhar em clínica, quero ir para a área de fazenda, produção animal.

– Ah, então você vai ser rico… – ela disse, parecendo refletir sobre algo – se eu não fosse vegan, eu também iria para esse ramo…

Aquilo fez muito sentido, e eu entendi de vez pelo que ela estava passando (pelo menos a parte da profissão). Eu me lembrei de que quando fiz psicologia, a área que oferecia mais emprego e remuneração mais segura logo de cara era a área de gestão de empresas, normalmente trabalhando com RH ou recrutamento e seleção.

Na época eu dizia, no entanto “eu não passei quatro anos estudando a constituição da mente e as maiores questões existenciais humanas para trabalhar como porteiro de uma empresa, decidindo quem entra e quem sai”. Eu queria trabalhar na clínica, resolver casos difíceis e ajudar as pessoas com suas existências particulares, e não trabalhar para o capitalismo, defendendo os interesses de uma empresa qualquer que enxergava seus funcionários como máquinas. Se eu tivesse que ser pobre por causa disso, era um preço que eu estava disposto a pagar.

Da mesma forma, aquela aluna, assim como muitas das outras no curso, queria salvar animais e resolver casos difíceis e não estudar cinco anos para acabar trabalhando em uma fazenda ou um abatedouro. Eu, por outro lado, havia escolhido minha área de interesse por ser a mais lucrativa inicialmente, assim como alguns de meus colegas haviam escolhido a área de gestão na psicologia.

Não havia paixão alguma na minha escolha. Enquanto aquela veterana sofria por correr atrás de seus sonhos, eu não sofria mais, já que meus sonhos estavam todos mortos. Foi isso que eu quis dizer quando falei que São Paulo havia me imunizado.

– Você consegue ficar de boa com isso então? – ela disse, e por um momento, foi como se estivesse lendo minha mente.

– Com o que? – eu perguntei, voltando de meu devaneio e não entendendo o que ela queria dizer.

– Com a vida. Você falou das bads… Você consegue viver o dia a dia de boa, tranquilo, sem tomar nenhum remédio?

Dei um pequeno sorriso ao ouvir aquela pergunta. Ao invés de responder, apontei para o beck que estava sendo passado, já em sua ponta final. Ela não entendeu, e então eu disse:

– Eu fumo diariamente.

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