Ela queria uma morte lenta numa vida rápida. Balançava-se viciada em tudo que era ruim, tudo que não prestava. Ela queria aprender a cantar as músicas que ninguém mais cantava, também gostava dos ritmos que ninguém mais dançava. Como quem corre com lobos, ou tenta viver com raposas. Nas ruas, seus pés estavam sujos, pois ela vendera seus sapatos para comprar mais um pico. Na rua, suas pernas eram magras, seus cabelos desgrenhados e sua boceta cabeluda e suja. Não sabia a idade, nem o que estava fazendo. Dormiria eternamente nas calçadas banhadas pelo sol matutino e pelas lágrimas noturnas. Dormiria onde homens urinam e cagam, sentindo o cheiro do azedume de uma noite ao relento na rua. Não comeria, a droga mata a fome, a droga mata a dor, a droga mata cada pedacinho de alma que resta no fundo dos seus olhos. Ela queria morrer, também queria uma nova chance. Ela queria uma oportunidade única, uma tentativa suprema de ter dado certo. Ela não queria ter sido abortada tão velha.

No fundo, este caminho ela escolheu.

Na violência em sua casa. Na sua mãe e nas dores e nos machucados. No casamento falido e nas algúrias do padrasto. Ela aprendera que beber perfume era o melhor para aliviar as dores. Ela aprendera que fumar cigarros, que trepar descontroladamente, que viajar até o fundo do poço era o melhor caminho para uma vida sem uma vida. Agora, observando o brilhar das estrelas de onde ela estava, pensar no que ficou para trás e que não existe algo para frente. Pensar que cada dia ela terá menos um dia, até desaparecer nas cinzas imperceptíveis do asfalto. Pensar que seus ossos não terão uma lápide.

Que não sabia que a mãe havia morrido.

Agora ela cruza os seus olhos cor de amêndoa com os meus. Estou do outro lado da rua, arrumado para ir ao trabalho, esperando uma folga dos carros para atravessar. Em uma fração de uma fração eu vejo o que ela poderia ter sido e vejo o caminho que tomou. Ela ainda é bem jovem, mas tudo que consumira destruiu cada minuto de vida e jovialidade. Nada restara além de uma carcaça vazia cheia de vícios e dores.

Parecia muito comigo.

Ela me pede uma grana.

Garanti o seu almoço de hoje.

 

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