Um dos argumentos que é usado contra a existência de deus é a incoerência existente entre a biologia do animal humano, com suas pulsões e instintos e os supostos mandamentos “divinos” que obrigam o homem a ir contra eles. O discurso de Al Pacino em O Advogado do Diabo mostra bem isso, no qual ele acusa deus de ser um sádico por fazer esse jogo com a sua criação.

Na Bíblia Satânica, isso é descrito com mais detalhes, quando LaVey afirma que tudo aquilo que foi reconhecido como pecado pela Igreja foram ações geradoras da maior gratificação possível aos sentidos humanos. Sendo os cristãos negadores da vida – “niilistas”, como chama Nietzsche – o prazer seria intolerável a eles, e por isso eles precisavam impedir que seus fieis o sentissem.

Nada disso é novidade para nenhum ateu, e tal aparente contradição é eliminada quando se elimina a ideia de deus: Se nenhum deus criou o ser humano, então nenhum deus criou regras que contrariem seus instintos, logo, ele é livre para agir como bem entender. “Se deus está morto, tudo é permitido”, como escreveu Dostoievski.

No entanto, existe uma coisa que continua sendo contraditória às leis da natureza, ainda que eliminemos deus da equação. Essa coisa trata-se da vida em si mesmo: A própria vida, como fenômeno, parece ser uma contradição com as leis do universo.

Explicando melhor, a segunda lei da termodinâmica afirma que a quantidade de Entropia, ou seja, do estado de desorganização de qualquer sistema isolado tende a aumentar com o tempo até alcançar seu valor máximo. É isso que acontece com os organismos vivos, que tornam-se continuamente mais desorganizados com o tempo, até que seus corpos perdem a capacidade de se regenerar de maneira eficaz e esses organismos morrem. É isso que acontece com o universo, que caminha lentamente para a morte de toda a vida presente nele.

A vida como fenômeno, portanto, atua de maneira contrária à lei da entropia: O que move todo organismo vivo é sua programação biológica, que o compele a preservar sua vida e garantir a transmissão de seus genes para a sobrevivência de sua espécie. Logo, o que nos mantém vivos é essa constante luta de nossos corpos contra o processo de entropia presente neles.

Se espinoza chama a alegria de passagem para um estado de maior potência, de mais energia, então nos alegramos quando nosso organismo psíquico ou físico parece estar vencendo a entropia, e nos entristecemos com o contrário. A vida seria, portanto, como disse Cioran, uma luta contra a morte a cada instante, e a melancolia é sentida quando estamos perdendo. Me pergunto se esses filósofos um dia pensaram em usar química orgânica eu seus estudos. A meu ver, todos falam a mesma língua.

Talvez seja a partir deste mesmo princípio que Freud criou seu conceito da Pulsão de Morte. Esta trata-se de uma instância que tem como objetivo esgotar completamente a tensão presente em nosso aparelho psíquico. Em termos energéticos, isso significaria elevar a entropia do sistema psíquico ao nível máximo, indo além do princípio do prazer. Esse princípio, por sua vez, seria o responsável por impedir a total fragmentação do aparelho psíquico, encontrando diversos meios menos intensos de metabolizar sua energia libidinal enquanto o mantém protegido de maiores perturbações.

Por que é disso que se trata a vida, na verdade: A metabolização de energia, que circula entre estados mais e menos organizados de constituição. O curioso é que nossa existência não torna essas metabolizações mais fáceis, e sim mais difíceis.

Seria perfeitamente possível que a vida existisse na Terra apenas com produtores (plantas e algas) e decompositores (bactérias fungos e outros). A existência de consumidores de diferentes espécies é completamente desnecessária.

É claro que o aumento da biodiversidade torna um ecossistema mais eficaz em manter a vida de suas comunidades, por aumentar sua capacidade de adaptação a diversos ambientes e ameaças diferentes. Mas isso é apenas uma forma de conservar a vida, e passa longe de justificá-la.

Afinal, se a Entropia do universo aumenta com o tempo até chegar a seu nível máximo, qual a função da vida nesse processo? Qual o sentido da vida, um fenômeno que vai contra a evolução natural do universo? Qual a vantagem do surgimento de animais superiores, que irão lutar para se manterem vivos e transmitirem seus genes, prolongando, talvez, um processo que poderia acontecer sem que nenhum de nós estivesse aqui, lendo este texto?

Deus não criou os instintos humanos e então fez leis que vão contra eles para sua diversão, disso eu tenho certeza. Mas se foi ele que criou a vida depois de ter criado a Entropia, eu o acho igualmente um filho da puta.

Se não foi, o que acho bem mais provável, a existência de humanos que conseguem pensar sobre tudo isso não passa de uma enorme tragédia.

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