– Inicio de 2010 –

Eu tinha dezoito anos. Havia abandonado o colégio aos dezesseis e feito um ano de supletivo. Todos os meus conhecidos estavam recebendo seus resultados dos vestibulares enquanto eu recebia uma ligação das farmácias Pague-Menos dizendo que eu havia passado no teste e iria para minha primeira entrevista de emprego em uma das farmácias próximas ao parque do Cocó.

Eu não sabia andar por aquelas áreas, estudei bastante o trajeto. Não era perto de minha casa e se eu vacilasse não chegaria cedo.  Tomei o ônibus com umas duas horas de antecedência, o trânsito maluco me tomou uma hora inteira E uma chuva, que me atingiu exatamente quando saltei do ônibus me fez correr e me abrigar sob o abraço de um viaduto.

O tempo corria muito rápido. Entre o dilema de chegar na minha entrevista de emprego molhado ou chegar atrasado, decidi abrir caminho em meio a chuva, pelo menos o gerente veria meu esforço e me contrataria. A farmácia ficava localizada num conjunto de lojas que parasitavam o mercado Frangolândia. Esta farmácia existe até hoje. Eu havia chegado às 07:51, nove minutos adiantado. Alguém já havia passado um pano no piso, e o cheiro de lavanda infestava todo o ambiente. Gôndolas psicopaticamente arrumadas me traziam a ideia de perfeccionismo naquele lugar.

O gerente perguntou se eu sabia limpar banheiros e eu disse que sim. Perguntou se eu sabia espanar e eu disse que sim. Perguntou se eu sabia lavar e eu disse que sim. Não sei se ele capitou minha não sinceridade. Me despedi e retornei para minha residência, agora sim, recebendo o abraço frio da chuva.

Não fui trabalhar exatamente naquela farmácia. Fui para a outra próximo ao Hemoce da José Bastos. Era a Pague-Menos número 63 e esta foi minha numeração durante dois anos entre os outros Auxiliares de Serviços Gerais.

Todos estavam começando suas graduações e eu limpava o chão de uma farmácia Pague-Menos.

 

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