O motivo pelo qual eu sou cético em relação a todo o hype em cima da “conscientização” como o primeiro passo para o futuro pode ser exemplificado de maneira bem simples:

Meu tio possuía uma mania de checar as maçanetas das portas de casa sempre que passava por elas. Mesmo que ele estivesse ficado duas horas sentado em seu escritório, com visão completa da porta, e por isso soubesse que ninguém passou por ali, ainda assim, quando ele se levantasse, ele iria checar a maçaneta. Isso não caracterizaria um TOC em si, mas somado com outras de suas manias com relação a segurança, era claro que existia um pequeno problema com paranoia.

Ele sabia disso, e às vezes falava para mim “eu tenho TOC”, “eu sei que tenho TOC”. Mas então completava, fazendo uma piada: “O primeiro passo para solucionar um problema é admitir que você tem esse problema”. Meu tio sempre foi uma pessoa muito repetitiva, contando sempre as mesmas piadas das quais só ele achava graça, então ele repetia essa com frequência.

Um dia, estávamos no carro, e ele disse de novo: “Eu sei que tenho TOC, o primeiro passo para solucionar um problema é admitir que você tem esse problema”. Mas nesse dia eu me cansei e disse: “Mas admitir o problema sem fazer nada para mudá-lo não resolve nada. Ficar para sempre no primeiro passo é tão inútil quanto não começar a andar”.

Nessa hora ele ficou em silêncio por alguns segundos e então disse “é…”. Acho que ele não voltou a fazer aquela piada. E claro, também não fez nada para resolver o problema.

A moral da história é que a conscientização pode ser o primeiro passo, mas sem que haja uma ação posterior a ela, ela é inútil. Isso pode parecer algo óbvio, ou algum tipo de discurso motivacional do tipo “faça sua parte”, mas não é. É uma crítica, na verdade, e uma acusação.

Por que quantos professores, educadores ou mesmo pessoas aleatórias você conhece que adoram fazer discursos escondidos atrás de suas mesas, palanques, ou mesmo teclados, que usam para fazer seus textões em troca de likes, mas que não fazem mais nada além disso? Talvez você seja um deles.

Só como exemplo: Eu tive um professor comunista que criticava o governo em quase todas as aulas, mas que não havia nem ao menos votado nas últimas quatro eleições. Ele não havia votado em branco, ou anulado seu foto, ele simplesmente havia tido seu título de eleitor cancelado após não justificar sua ausência mais de uma vez. Ele também escrevia longos discursos em seu perfil nas redes sociais, fazendo críticas à alienação presente em séries de ficção científica, mas bloqueava aqueles que discordavam de sua opinião.

Mas é claro, ele estava fazendo a parte dele: Ele era um doutor consciente que levava a conscientização às massas de seus alunos. Esses alunos, então, depois de tomar consciência de diversos problemas sociais, faziam uma boa redação no ENEM ou no vestibular, e, depois que passavam no curso escolhido, não precisavam mais pensar nesse assunto.

Mas o importante é que eles eram conscientes. E sabiam escrever bons textos no facebook.

O ponto que eu estou querendo chegar é que eu acredito piamente que podemos criar uma nação de pessoas bem educadas e conscientes que seja tão inútil para causar mudanças sociais quanto se fossem totalmente alienados.

Acho que prova disso é que nos últimos tempos, desde a época das Jornadas de Junho de 2013, passando pelo “não vai ter copa”, “não vai ter golpe”, e outros protestos fracassados liderados por elites intelectuais do país, o único que talvez tenha causado realmente medo no governo e na população foi feito por caminhoneiros sem ensino superior. (O que não falo para desmerecê-los, e sim para enfatizar como eles foram mais eficazes politicamente mesmo tendo menos acesso à educação).

Como no caso do meu tio, sei que apenas tomar consciência da existência de um problema não vai fazê-lo desaparecer. Mas também sei que, como no caso do meu tio, é muito mais fácil ficar eternamente no primeiro passo e achar que está fazendo alguma coisa.

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