Aquela garota escreveu seu próprio nome no espelho do banheiro com um batom vermelho. Era um clichê aceitável. O batom vermelho vivo, apenas um dentre muitos outros batons na sua bolsa.

Vermelho vivo.

Roxo-primavera.

Lilás Cinderela.

Preto.

Ela escreve seu nome, a letra cursiva era perfeita e bem redonda. Dizem que quem tem letra redonda tem dotes artísticos e uma percepção aflorada. Dizem também que quem tem letra redonda tende a usar mais o lado esquerdo do cérebro. O lado da criatividade. Não era um nome muito comum. Não se via muitas meninas com seu nome. Por causa da primeira letra ela sempre será a última em chamadas. Sempre amargará a última posição. Era sempre a aflição de receber por último a prova. Era sempre a última a ser escolhida nas coisas. Muito pelo seu nome e muito outro pela a inaptidão na prática de esportes. Era gordinha e tinha baixa auto-estima como toda outra garota da sua idade.

Mas possuía batons na cor azul céu estrelado.

Verde-oliva.

Rosa-francês.

Amarelo-alegria.

Fez a vogal de uma maneira graciosa. Parecia uma cara sorrindo. Ela estava sozinha naquele banheiro. Usava roupas de festa chiques e caras, um vestido prateado brilhoso que avolumavam ainda mais seu corpo. Ela odiou muito aquele vestido. Estava um pouco apertado. Os últimos dias fizeram a engordar um pouco. Nada como vomitar a janta em segredo e tomar alguns inibidores de apetite não resolvam, ela pensou com seu reflexo encarando-a no espelho. Espelho revelador este. Revelava a amargura em sua infantil alma. Pensava nas falsas amigas, aquelas que a acompanham desde o infantil. Nunca gostara delas de verdade, eram falsas com ela, sempre foram. Não era convidada para os aniversários mas mesmo assim sua mãe a levava. Ela precisava se enturmar. Ela precisava participar dos clubes dos livros dos quais não eram convidada, das festas, aniversários. Ela vai precisar chamar estas amigas no seu casamento, ela vai ter que chamar nas festas de natal. Eram suas amigas, as amigas que não tinham uma amizade reciproca.

A chamavam de “Peppa-Pig”. Ela ria mais odiava.

Seu nome era uma variante de uma flor.

Sua avó cultivava flores no jardim. Morreu por causa de um AVC. Caiu sobre os gerânios. Sua avó era uma pessoa doce e delicada. Ela não sabia o porquê da sua mãe não ter herdado estas características. Acho que estes genes pulam uma geração. Sua tataravó tinha e sua bisavó não. Sua avó tinha e sua mãe não. Ela tem e sua filha será mimada. Sua voz era tranquila. Adorava aquele jardim. Cultivava bromélias, rosas, narcisos, gerânios. Morrera caindo sobre eles. Inerte.

Sua mãe disse que seu nome fora ideia de sua avó, porém mudou a primeira letra para ficar mais elegante.

Por causa disto, sempre sera a última nas chamadas.

Sempre sera última da sua turma.

A última da faculdade.

A última da fila.

Por isso precisava se parecer com as amigas. Comprava maquiagem. Batons que nunca soubera passar direito, rímel, lápis, blanche, delineador, pó, esmalte verde-jaca.

Azul-profundo.

Rosa-coração.

Preto-blues.

Vermelho-amor.

Amor. Ela disse que já tinha beijado uma vez. Não era de todo uma mentira. Ela beijou um garoto uma vez em uma festinha de aniversário que não foi convidada. A mãe dela levava, ela aparecia e as meninas não tinham coragem de expulsar-la. A mãe levava porque ela era amiga das outras mães. Ela beijou um menino, era um carinha feiosinho um ano acima do seu. Ele era engraçado, divertido, baixinho. Ele era o piadista da turma. Ele a beijou, um beijo sem graça, um beijo sem vontade.

Ela descobriu que ele tinha perdido uma aposta e a prenda era beija-la.

Olhou no espelho com seu nome escrito. Seu rosto redondo rosado não era feio. Seus lábios eram bonitos e tinha olhos levemente esverdados. Cabelos castanhos encaracolados. Bochechas rosadas. Seu sorriso tinha algo de sincero e encantador, ela herdou isto da sua avó.

O sorriso da sua mãe era falso.

A suas suas amigas eram falsas com ela.

Suas amigas a toleravam. Era o preço da sua mãe ser amiga da amiga da mãe delas. Elas eram obrigadas a tolerar-la. Eram obrigadas a arrastar aquela “peppa-pig” com elas. Era obrigada a aguenta-la nas festas de aniversário. Ela era tão doce, tão delicada. Ficava sempre sentada, comia pouco para não ter que vomitar mais. Ela era tão inocente. Tão pudica. Ela nunca tinha beijado até aquele rapaz baixinho perder a aposta e ser obrigado a beija-la.

Ela era bonita, estava fora de forma mas isto realmente não importava.

Ela era inteligente, tímida e inocente porém muito inteligente.

Ela tinha o nome lindo. E escrevera no espelho do banheiro.

Entupira a privada com o Lápis, batom, rímel, pó, blache delineador e os batons da cor púrpura-surpresa.

Marrom-insano.

Laranja-loucura.

Rosa-solidão.

Vermelho-vingança.

Vermelho era a cor preferida da sua melhor-falsa amiga. Também era a cor que escrevera seu nome no espelho. Sua melhor falsa-amiga completava quinze anos de idade com uma festa de abalar as estruturas da cidade. Foram gastos o bastante para um buffet de primeira classe num salão gigantesco ao ar livre com direito a valsa, com direito a ator global, com direito a bebidas e comida. Tudo fora o papai desembargador que bancou. A festa inesquecível da menininha que fazia quinze anos. As lembrancinhas com um sabonetinho liquido, um alcoolzinho em gel e um hidratantezinho.

Um esmalte da cor azul-riqueza.

Amarelo-avareza.

Verde-luxúria.

O vestido da debutante fora caríssimo. Entre três e quatro mil. Foi usado apenas uma vez durante algumas horas. Toda a festa foi programada com no mínimo seis meses de antecedência. A lista de convidados gigantesca.

Claro que seu nome era o último. Maldita letra que sua mãe mudara.

Sua mãe comprara o vestido.

Ela odiou o vestido

Ela fora humilhada. Sua melhor-falsa-amiga disse que estava a convidado porque sua mãe era amiga da mãe dela. Ela falou que não queria que ela estragasse as fotos do fotografo contratado a peso de ouro. Ela não queria que dançasse. Que não tocasse com aqueles dedos gordos na comida, que não bebesse com aquela boca gorda a bebida. Ela estava ali a contra-gosto. Mas poderia levar uma das lembrancinhas.

Usava esmaltes vermelho-alegria.

Ela passou horas no cabeleireiro.

Ela passou na clínica da sua tia. Disse que estava com fortes dores de barriga e que não conseguia “fazer o número 2”. Ela disse que estava tentando uma nova dieta, ela disse que queria ser modelo, ela disse que ia emagrecer dez quilos. Sua tia ficara orgulhosa, ela sempre quis ter uma sobrinha modelo. Ela era gastroenterologista. E colonoscopia fazia parte da sua rotina.

Deu para ela um pouco de Manitol.

O Manitol é um laxativo muito bom. Usava-se algumas horas antes da colonoscopia. Mistura-se o Manitol com suco em uma jarra. Mistura-se e inicia-se a tomada via oral a cada dez minutos. Deve-se ingerir a solução no máximo de uma hora.

A magia da evacuação líquida. Dizem que ajuda a emagrecer.

Sua tia deu uma boa quantidade. Era o sonho da modelo. As vezes os sonhos cegam as pessoas e as tornam, digamos que, inescrupulosas. Ver aquela sobrinha gordinha linda se tornar a próxima modelo super famosa realmente encheu seus olhos. Deu mais uma caixa para garantir.

Ela usava aquele esmalte vermelho-vingança.

INSTRUÇÕES PARA A COLONOSCOPIA

1 – Retire o kit do preparo para seu exame na unidade que foi agendado. Ela chegou cedo para a festa. O salão lindo cheio de flores falsas. Tão falsas quanto o sorriso da sua mãe ou suas amizades. Aquelas flores não morreriam, seriam recicladas e poderiam virar outras flores.

2 – Seu pedido médico é indispensável para a retirada do Kit. Pela primeira vez ela tinha um convite. Não chegava na festa de supetão ou algo do tipo. Agora eram festas de quinze anos de idade, era outro tipo de festa, era o maior exemplo da megalomania de uma família com dinheiro querendo comemorar o fato da filhinha mágica deles ter quinze anos. Ela legalmente podia transar com alguém mais velho sem por-lo na prisão.

3 – O medicamento Dulcolax (bisacodil) deverá ser comprado na farmácia. Ela teve esta ideia, a principio seria o velho Lactopurga. Mas isto seria fazer um atentado terrorista com dinamites. Ela queria algo grande, ela queria uma bomba nuclear. Ela queria explodir o mundo. Ela, a “Peppa-pig”.

4 – O produto Manitol será fornecido pelo laboratório pois, não é encontrado em farmácias. Isso sua tia lhe dera. Sua amada tia, sempre dizia que ela tinha engordado mais da última vez que a vira. Ela e suas dietas. Ela e sua mania de grandeza. Mal sabia que sua filhinha, anos depois, seria muito feliz ao lado de outra mulher.

5 – Por gentileza, ignore as instruções descritas no rótulo do Manitol. Caso o frasco do Manitol apresente alguns cristais, ele poderá ser tomado sem problemas. Ela usava aquele esmalte vermelho-vingança. O batom vermelho-sorriso malvado. Chegou cedo na festa. Mais cedo que todo mundo. Mais cedo que os convidados. Aquela figura gordinha e simpática fora desapercebida por todos os organizadores. Passou pelas mesas de comida, passou pelas mesas de bebidas, passou por tudo que poderia ser ingerido. Benzia tudo com Manitol. Santo Manitol. O bolo com Manitol. Uísque com Manitol, salgadinhos de Manitol.

Não comer carne vermelha na véspera do exame.

Esmalte-carne vermelha.

Vermelho vivo no espelho. Privada vomitando água. Entupida de tudo aquilo que falseava. Ela deixa as pernas do “m” do seu nome sempre no mesmo tamanho. Uma pequena perfeição. Aquela letra que deixava ela sempre por último. Ela gostava do seu nome, menos daquela letra.

Sentiu saudades de sua avó.

VÉSPERA DO EXAME:

– As 16:00 festa começa para que o show do por-do-sol seja um dos espetáculos. Todos começam a entrar e a banda toca uma pequena valsa. A programação completa de tudo é dado para os convidados. Ela, a “peppa-pig” com seu esmalte vermelho-vingança chega também. Ela sorri tão falsamente como todos. Ela abraça a aniversariante e dá um ursinho de presente. Logo, ela senta no seu canto escuro.

– As 17:30 todos estão comendo, quitutes, mimos, doces, bebidas. Diversos tipos de suco, diversos tipos de uísque, tudo já pré-pronto em copinhos. O Manitol deixa gosto só no vinho e o no uísque. Evitar leite e seus derivados. Coisa que não fizeram.

– As 19:00 é tocada a primeira valsa. A aniversariante dançaria com seu pai e depois com seu namoradinho de rosto quadrado. Seu pai estava no banheiro já sofrendo os efeitos do Manitol e isso atrasou muito a valsa dos casais. Seu pai dançou meia música e correu novamente para o banheiro. A “Peppa-Pig” infernal cruza todo o salão de festas em direção ao banheiro feminino. Seu sorriso está escondido. Ela tranca a porta por dentro.

– As 19:30 ela escreve seu nome no espelho depois de ter entupido todos os sanitários. A água começa a encharcar o chão. Toda aquela maquiagem. Todos os esmaltes de diversas cores e os batons.

– As 21:00 os convidados não sabem muto bem o que esta acontecendo. A fila do banheiro é gigantesca. As meninas batem, chutam, tentam abrir a porta do banheiro feminino. Mas ela está lá dentro, olhando seu nome no espelho, ouvindo a confusão. Ela sorri, ela lembra de toda a humilhação. Ela sorri, e era diabólico.

– As 21:30, os que sobraram para o parabéns se contorcem nas cadeiras. O que não sai por baixo sai por cima. Logo mesas repletas de vômito de comida recém comida. A aniversariante começa a passar mal. Ela está no seu momento de ouro, a valsa com aquele ator global que ela ama. A valsa com aquele rapaz lindo e maravilhoso da novelinha que passa na tv. Seu cache foi uma fortuna. Seria vergonhoso se a aniversariante defecasse no seu vestido de três ou quatro mil. Aquela mancha marrom seguida de vergonha e fedor. O ator está intacto. Seu agente nunca deixa ele comer as comidas das festas. Para manter o físico.

Os gritos do lado de fora do banheiro.

Esmalte-marrom diarréia.

O intestino estará bem preparado quando as evacuações estiverem liquidas, sem resíduos e com a coloração amarela-clara.

Amarelo-canário.

Amarelo-fétido.

Todos na fila com suas roupas sujas, fezes pingando pelo chão inteiro. Todos vomitando e vomitados. Era a Sodoma e Gomorra da escrotidão. Era o banquete dos porcos. Era a comida benzida pela vingança da menina gorda invisível. A “Peppa-pig”.

Era a vingança de sua avó.

Estar na fila para o banheiro depois de ter largado tudo pela roupa caríssima não fazia sentido. Eles queriam entrar unicamente pela honra. A honra de se fechar no banheiro, se esconder do mundo. Batiam mas não gritavam. Todas estavam com vergonha.

Suas amigas-falsas.

Sua mãe.

As mães de suas amigas.

Os pais.

Os convidados.

Apenas o ator saiu ileso.

Ela observava seu nome escrito com batom naquele imaculado espelho, naquele banheiro limpo, porém alagado. Mesmo que entrem não conseguiram usar os sanitários. Seu nome lindo, poucas vogais. Fazia o “a” como uma cara sorridente. Era sua marca, aquele “a” sorridente. Mesmo com a letra que a excluiu do meio das listas a rebaixando para o último lugar ela gostava daquele nome.

Era o presente de sua avó.

Era sua herança.

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