Este provavelmente vai ser um texto polêmico. Ele surgiu de uma discussão que tive em um grupo sobre a questão do corte de verbas na área de humanas, e a questão da sociologia e filosofia nas escolas.

A questão que eu coloco se assemelha a um post que fiz quando o museu de história natural do Rio pegou fogo. No post, eu perguntei se todas as pessoas que estavam lamentando sua perda já haviam ido alguma vez a um museu, e se se importavam com história de seu país.

O objetivo do post – penso que não seria necessário dizer, mas as pessoas nunca entendem da forma certa – não era negar a importância daquele museu, ou de qualquer museu, ou mesmo diminuir a magnitude daquela tragédia. Mas sim apontar o dedo para os hipócritas que choraram por sua perda sem nunca ter dado valor a ele. O objetivo deste texto é o mesmo.

Por que afinal, o que todas essas pessoas que defendem a importância da filosofia e sociologia nas escolas realmente sabem a respeito dessas matérias? (excluindo os professores delas, é claro). O que de tão importante é ensinado nas aulas? O que é ensinado tem realmente importância e significado na vida das pessoas depois que elas saem da escola?

Espero que você não seja idiota a ponto de achar que estou me referindo a uma “importância” para o mercado de trabalho, para passar no vestibular ou ganhar dinheiro. Eu estou falando da vida das pessoas como um todo.

A questão que eu coloco é: As pessoas, depois que saem da escola, sabem filosofar? Seus professores sabem realmente as ensinar a filosofar? Seus professores sabem, ao menos, filosofar eles mesmos? É disso que estou falando.

Por que o que é que eles ensinam de filosofia? Ensinam o mundo das ideias do Platão, “mundo sensível vs mundo das ideias”, a maiêutica socrática, “tese, antítese, síntese”, o cara que achava que o mundo era feito de fogo, o cara que achava que o mundo era feito de água, o cara que achava que o mundo era feito de átomos… Uau.

Aí da filosofia medieval não tem o que ensinar, se não vira teologia. Depois você vai para a filosofia moderna, os existencialistas, como Heidegger ou Sartre, que ninguém sabe explicar. Falam de fenomenologia usando as mesmas palavras. Todos os professores que tive ensinavam usando os mesmos termos, e quando você perguntava, diziam “ah, é um conceito abstrato, é difícil mesmo de entender”.

Bom a obrigação deles quando alunos era ter compreendido, e se o tivessem feito, saberiam ensinar, o que é sua obrigação atual. Clóvis de Barros Filho faz esse trabalho maravilhosamente bem, mostrando que isso não é impossível, só requer uma habilidade que nenhum dos meus professores teve.

Aí, chegando em Nietzsche, quando eles não distorcem propositalmente suas idéias para se adequarem às suas próprias crenças – como o professor que tive que dizia que o pensamento nietzschiano era comparável ao cristianismo, ou os comunistas que adoram citá-lo – eles simplesmente não sabem ensinar, ou o fazer de forma errada.

O que mais eles ensinam? Que teve um cara que disse que o homem é o lobo do homem e outro que disse que a culpa é da sociedade? Ah, teve também aquele que disse que os fins justificam os meios, não é? Professores costumam odiar que os alunos usem fontes como a Wikipédia nos trabalhos que passam, mas suas aulas muitas vezes parecem que foram tiradas de lá.

Aí, da contemporaneidade, citam o cara que disse que hoje em dia as relações humanas são “líquidas” por que não duram nada. É só isso que sabem sobre esse autor. “É o cara do amor líquido”.

E sociologia então, nem se fala: No último ano do ensino fundamental eu tive sociologia e estudei Marx, Durkheim e Weber. Durante o ensino médio eu tive sociologia e estudei Marx, Durkheim e Weber. Na faculdade de psicologia eu tive sociologia e estudei Marx, Durkheim e Weber. Um amigo meu que fez ciências sociais disse que nos primeiros anoS ele iria estudar Marx, Durkheim e Weber. Me pergunto para que essa área precisaria de mais investimento? Para estudar os mesmos caras que já estudam a 200 anos?

Além disso, depois que diploma virou mercadoria, qualquer um pode fazer qualquer projetinho de pesquisa com 22 anos e ser considerado “mestre”. Projetos que muitas vezes são tão específicos (por que tem muita gente fazendo muita coisa, então você precisa fazer algo específico pra se diferenciar) que acabam sendo inúteis pra sociedade no geral. Servem só pra aumentar currículo. Mas os pesquisadores não deixam de receber uma bolsa por isso, independente da utilidade do projeto.

Outra coisa é que os “melhores” projetos de mestrado, doutorado, etc, são os Qualis A da vida que só quem tem acesso são as universidades que pagam caríssimo pela assinatura das revistas científicas onde são publicadas. O povo mesmo, que deveria se beneficiar dessas pesquisas, não tem acesso, e, se tivesse, não entenderia nada.

A elite intelectual dessas universidades fica trancada nas suas salas fazendo masturbação mental e acumulando conhecimento pra que? Isso me lembra a Idade Média, quando a Igreja concentrava o conhecimento, ao invés de ensinar o povo a ler, e dizia que estava ajudando ele. Então de novo eu pergunto: Investir mais nesses caras? Pra que?

E eu pergunto a vocês, pais que adoram comentar nos jantares de família o quanto seus filhos são bem articulados e críticos, mas que quando essas críticas são dirigidas a si mesmos, os censuram: A filosofia é importante para vocês?

Pergunto a vocês, alunos de merda, que adoram citam frases de Nietzsche ou Marx nas redes sociais, mas que fora da sala de aula só querem falar de fofocas, baladas e festas, e que chamam de “chatos” aqueles colegas que tentam filosofar fora do horário escolar e ter uma conversa um pouco menos fútil: A filosofia é importante para vocês?

Pergunto a vocês, professores medíocres, que passam 10 anos ensinando a mesma coisa, sem nunca mudar seu método de ensino ou buscar conhecimentos novos que os façam criticar suas próprias convicções: A filosofia é importante para vocês?

Talvez se vocês demonstrassem isso com mais atitudes, ao invés de ficar reclamando na internet, eu acreditasse em vocês. Por que por enquanto, essas matérias me parecem ser tão importantes quanto os museus: Quando vocês os têm, não os usam. Depois que perdem, começam a chorar.

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