Nós caímos em uma amizade boba, era quase como rir de um show de piadas que já assistira. Talvez não devamos de fato transformar isto em algo mais, porém era muito tarde. Agora, nesta madrugada, estávamos no meio do mundo, procurando tribos desconsequentes, gente estranha, música barulhenta e bons motivos para não voltar para casa. Talvez na segurança do mundo sombrio lá fora, nas sujas cortinas de uma noite sepulcral, num motel barato, divertindo-se nas risadas de piadas já contadas diversas vezes. Terminaríamos nosso relacionamento da mesma maneira que começamos: com sexo, com dor e com morte.

Eu era apenas um mero vendedor quando ela apareceu e me pediu um dos produtos que eu vendia. Demonstrei com toda a atenção do mundo e, no fim, pedi o seu contato. Demoramos para conversar a primeira vez, quando realmente tomei coragem para ligar (não por medo e sim por preguiça) ela atendeu em meio a um velório. Nesta hora eu notei que todos os atos importantes de minha vida estão envoltos numa névoa de morte. Combinamos sair, mas ela desmarcou, combinamos mais uma vez e ela desmarcou novamente.

A encontrei perdida na noite, agredida pela solidão. Estávamos a sós no meio de uma multidão desconhecida. Não foi por acaso, um amigo de um amigo meu conhecia a guria em questão e me dissera onde ela estaria… O esbarrão proposital fora forjado numa maneira indecente. Eu sabia que aquela alma quebradiça se dobraria como uma Katana forjada por mãos delicadas ao suave tocar de conversas e riso. Toda as almas precisam rir e em todas as risadas existe um significado de tristeza oblíqua. Eu queria, mesmo, fazer as pessoas felizes com minhas pequenas porções de insensatez, mas isso é uma mera especulação nestas trevas.

Agora, com toda nossa história pregressa, transformando esta amizade neste líquido pegajoso e sexual, o sentido não faz mais beleza. Queríamos encontrar um sentido, mas qual? Talvez uma fuga de nossas profissões. Eu nunca me dei com faculdades e ensino, ela estuda qualquer coisa que não vai fazê-la nem rica nem melhor. Não estampamos nossas futilidades, nem queremos ser retratos de uma geração falida. Mas, o que procuramos de fato? Um romance, um amor, uma dor ou uma compostura?

Sei que eu decidi começar a me relacionamentar com outra mulher, alguém que ia ao seu oposto. Decidi isto de uma vez, querendo fugir de um destino maculado, ímpio. Ela não entendeu quando eu dissera que não poderíamos mais nos ver, e acabou de não nos vermos mais. Agora, não sei se me arrependo, se penso sobre a certeza do ato.

Nada disto deveria ter vindo em minha cabeça, mas vê-la atravessando a rua na solidão que só eu sei que você sente me cortou o coração.

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