“Mas que porra!” Tâmia pensou ao adentrar no apartamento 303 cambaleante. Ela esperou um pouco no pequeno corredor de entrada, seus pensamentos rodopiavam como um moinho incandescente nos campos longínquos e inimagináveis. “Mas que porra” era o seu estômago embrulhando. “Eu sou uma garota forte, eu não vou vomitar!” Tâmia dizia a si mesma tenta ludibriar o estômago a não devolver as quatro garrafas de cerveja, meia garrafa de vinho barato e os copos de uísque que bebera na casa de Elton. “Porra, porra, porra”. Ela correra para o banheiro. Nunca fora um apartamento grande, porém naquele dia parecia que os 45m² tinham tornado-se o dobro.

“Mas que porra”. Tâmia dava descarga e toda sua felicidade fora junto rodopiante no sentido horário até o fundo dos esgotos. Precisava desta alegria, precisava beber com os garotos mais velhos, dando a eles a vã aparência que, ao se embebedar, ficaria mais fácil para comê-la. Pobres e bobos garotos. Bebia de graça, sugava-los como uma vampira de álcool e drogas. Sugava cada néctar proibitivo. Ela só tinha isso, ela só tinha tais coisas.

A mãe retornara do culto. Ainda estava usando óculos escuros de noite.

O cheiro de álcool era presente no banheiro. Tâmia derrubou propositalmente um perfume no chão. Limpava os cacos quando sua mãe entrara sem dizer nada. Esparrama os embrulhos sobre a mesa, e desaparece no quarto. Tâmia vê e nada fala. Também vai até o seu quarto e fica em silêncio guardando as suas poucas horas de sono.

Estava no meio de um sonho que ela nunca conseguirá lembrar. Talvez o sonho fosse algo como andar pro aí, sem rumo, talvez se prostituindo, talvez arranjando um trabalho escuso. Era qualquer coisa para sair daquele epicentro. Era qualquer coisa. Sim, uma coisa lembrou antes de acordar: Sua avó Monalisa estava sorridente na última vez que a vira. Ela desejou um “vá com Deus” e morreu no banheiro, escorregando, caindo e abrindo a cabeça na pia do banheiro. É assim, idosos morrem. Tâmia queria morar com a avó, já tinha começado a fazer as malas.

Acordara com os gritos e a discussão. Sua mãe, quando casou com seu pai, acreditou piamente que iria mudá-lo. Que todo aquele alcoolismo era uma fase juvenil e, com o nascimento do primeiro filho, as coisas se tornariam o belo conto de fadas. Ela imaginara que aquele príncipe encantado que não tirava o rabo da moto parcelada infinitamente iria salvar-lhe dos pais pouco amorosos. De fato, nunca acontecera. O dinheiro daquela pobre família escoa-se em bebidas, vícios e mantimentos. Os poucos móveis eram dados, emprestados e parcelados, e o sonho da casa própria graças ao governo federal e seus inúmeros programas de assistência. Sim, a mãe de Tâmia tinha um fragmento de sonho enterrado numa onda de pesadelos. Sim, aquilo era o seu destino eterno.

A discussão se tornara maior. Era costume. Tâmia escuta cada grito, cada pancada, cada choro. Seu pai tem uma voz grave e pesada. Seu pai está com a voz um pouco esponjosa, ele provavelmente deve ter enchido a cara com cachaça. Ele deveria aprender que o vinho é bem melhor. Ela escuta cada reclamação. Ele quebra a televisão de novo, jogando o aparelho recém consertado no chão. Desta vez não tem mais jeito. Aqueles sons de briga fazem Tâmia se arrepiar. Ela esta deitada na cama com seu babydoll azul. O tapa que ela escuta, não sabe se da mãe no pai ou do pai na mãe, arrepia-lhe as entranhas e a coluna. Ela desliza a mão até a boceta, úmida. Ela se masturba em meio ao ataque a Normandia. Entre gritos, brigas e pancadas. Ela geme, não alto, mas geme, abafados pela deliciosa voz de seu pai e a estridente voz de sua mãe. Ela treme as pernas, e se delicia. Tira o shorts do babydoll. Dorme sem calcinha para deixar a boceta respirar (tal qual os professores de educação sexual ensinaram em seu colégio, mas não com estas palavras) em sua mente apenas a voz “briguem, briguem, briguem” enquanto rodopia o dedo indicador e o médio no clitóris e geme.

Ela goza quando a polícia chega.

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