– Só falta você Gardênia – Léa dizia, oferecendo um biscoito para a menina – conta pra gente como foi ontem.

Gardênia olhava para os próprios pequeninos pés. O intervalo já terminara há muito. Mas as quatro meninas se reuniam atrás da caixa d’água, longe dos olhares curiosos e inquisidores dos funcionários do colégio de ensino Fundamental e Médio São Clemente. Os professores não fazem chamada, e quando fazem não dão por falta dos alunos que estão ou não.

– Eu nunca tinha visto um vídeo pornô – todas as garotas se aproximam de Gardênia querendo escutar melhor – foi a primeira vez, ai eu coloquei no Xvídeos e cliquei no primeiro. Fiquei excitada logo, mas não havia muito ali, não sei.

– Você tem que procurar os vídeos amadores das idiotas que deixam os namorados gravarem – Mariena ria. O cigarro brilhava nos seus negros lábios – eu fico muito excitada com a cara daquelas gurias idiotas.

Todas, exceto Gardênia riram.

– Ai eu vi uma aba de vídeos lésbicos… – todas as meninas gritaram um longo êêêêê e aplaudiram.

– Gente, gente, falem baixo, falem baixo – disse Tâmia, inquisidoramente.

– Tinha uma menina grudando a xota com outra guria – continuou Gardênia – eu fiquei de queixo no chão. Apoiei o celular na cabeceira da cama e fiz o mesmo movimento no travesseiro. Foi tão gostoso!

Todas fizeram muito barulho de novo, batendo na mesa e rindo. Tâmia tomou a frente em silenciar as garotas.

– Gozou!? – perguntou Mariena.

– Acho que sim.

Todas fizeram barulho de novo.

A tarde se arrastava e logo todas iriam precisar voltar para as suas realidades. Se despediram e se foram. Tâmia iria beber com Marquinhos, Jorge e “Gordeira”, ia beber de graça com aqueles moleques idiotas. Tâmia sempre levava outra roupa na mochila, no lugar dos cadernos. Agora estava com uma calça Jeans e uma blusa azul escuro curta, mostrando os seios grandinhos. Léa foi com Gardênia, eram vizinhas, mas não se falavam tanto fora do ambiente escolar.

Mariena não queria voltar para casa.

Sempre era assim. Durante quinze dias ela se demorava o máximo possível para voltar. Fumava cigarros andando pelo seu bairro. Cumprimentava um ou outro colega, andava até os pés doerem, dai sentava. A fome apertava, ela pensava que “poxa, com esta banha aqui eu não morro em um dia, dá para aguentar” e continuava andando e andando e andando. Os pés calejados e doloridos das andanças, mas era melhor.

Tem um ano e três dias que ela faz isso durante quinze dias no mês.

Mariena é corpulenta, negra, cabelos muito cacheados e escorridos. Olhos grandes e fortes, beiços grossos, dentes muito brancos, mãos gordinhas. Todos os garotos tinham uma queda por ela, todos queriam aquela garota não tão delicada, mas com uma doçura única. Ela dizia palavrões, brincou  de pega-pega e de bola, não curtia bonecas, depois quando os seios grandes surgiram, e as curvas começaram a moldar-se ela se tornara o sonho dos garotos.

Mas durante quinze dias ela anda pelo bairro, até escurecer, até ficar tarde demais para perambular.

Até pessoas estranhas começarem a andar nas ruas.

Ela está na frente de sua casa. O cheiro de cigarro no cabelo é sempre motivo de briga. Sua mãe discute com ela, tenta dar sermões, mas quando o santo que julga o pecado do homem esquece dos seus próprios. Mariena passa o primeiro portão.

Já são dez horas da noite.

Mariena abre o segundo cadeado e adentra. O corredor que dá acesso ao seu quarto é longo e ela precisa passar pela sala. A televisão não está ligada, seu coração alivia-se um pouco, mas os passos pesados e temerosos são fortes e molengas. Ela está faminta, mas não tem coragem de ir jantar. Ela guardou algumas bolachas no guarda-roupa junto com o canivete que Jailson, um colega, “vendeu” em troca de poder encostar em seus seios.

Mas ele não podia contar isso para ninguém.

Mariena tenta passar o mais rápido possível pela sala. Sua visão periférica detecta sua mãe e seu pai conversando. Ele acabara de chegar, as malas ainda estavam no chão.

– Mariena, não vai falar com seu pai!? – diz sua mãe. Com o coração palpitante a menina para, gira nos próprios calcanhares e abraça de maneira desconcertada, depois beija a testa do pai como se beijasse uma cebola. O suor na tés do homem encarde suas narinas. Ambos os adultos ignoram impregnado cheiro de cigarro nos cabelos da menina.

– Tenho uma ótima notícia – diz a mãe de Mariena – seu pai não precisará mais ir para a plataforma. Agora ele vai trabalhar nos escritórios em solo.

O sorriso no rosto tenta diminuir o pavor nos olhos.

– Que bom, pai.

Já são duas da manhã. A menina ainda está acordada. Encolhida nos lençóis. Tem uma cadeira contra a maçaneta da porta (que sua mãe nunca deixa trancar) e além da pequena penteadeira dando suporte. Ela respira forte, sofrendo de ansiedade. Ainda está com o uniforme escolar.

A maçaneta gira uma, duas, três vezes.

A cadeira se solta e a maçaneta fica livre, a porta chega a abrir uns dois centímetros mas bate na penteadeira fazendo um barulho forte. A porta se fecha novamente, com um solavanco, fazendo ainda mais barulho e os passos pesados vão até o quarto ao lado.  Por uma noite Mariena estaria a salvo. O canivete estava completamente encharcado de suor. Ela o guarda embaixo do travesseiro. Não saberia se teria coragem de usar contra o próprio pai.

Mas um pai não faria o que ele fez.

Um pai não faria o que ele faz.

Ela desaba em choro.

Dormira pesado. Foi tão pesado que não ouviu quando a mão forçou-lhe a porta do quarto, afastando de vez a pequena penteadeira.

Mariena acordou finalmente, vendo o espaço vazio que sua penteadeira ocupava. Sua mãe havia doado o móvel.

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