A casa está completamente vazia. São seis horas da noite.

Gardênia está descalça. O frio do piso de porcelanato é notado por aqueles pequenos pés branquelos. As pegadas formam o caminho do banheiro para o quarto. Pequenos pés cruzando de um ponto ao outro. Está quente, ela veste toalha e nada mais, aquela grande casa vazia não verá vida tão cedo. No quarto ela decide quais roupas ela irá vestir. Nas paredes as mensagens em cartazes coloridos: “mantenha seu quarto limpo”, “não esqueça de arrumar as roupas para lavar. Na cozinha os dizeres “peça uma pizza para hoje, você merce, gostamos da sua nota de Álgebra” e logo abaixo: “Não esqueça, o caminhão de lixo passa às 22:00.

Isso significa que eles não virão para casa hoje.

O pai está viajando, atualmente em um grupo de palestras motivacionais no sul do país. Ele ensina a outros adultos como se portarem nos ambientes institucionais. Também fala sobre emoções do lar. Ele se denomina um “Coach Quântico”.

Sua mãe vai para a academia depois da faculdade. Quando o pai viaja ela não volta para casa.

Mas deixa os cartazes com os dizeres “se seu pai ligar, diga que cheguei cansada. Vou ficar na casa da sua tia Helena”

Ou então, como na sexta-feira antes do ano novo “vá para a casa de algum amigo, vou ficar na casa da avó de Heleonora, ela não está bem”

Este estava escrito em amarelo brilhante e feliz.

Na casa silenciosa apenas os barulhos do celular de Gardênia tomam vida. O silêncio sepulcral daquela residência enorme, deixa tudo lúgubre. Amanhã ela precisa receber o rapaz que limpará a piscina. Também é dia da diarista, Clara, fazer a faxina. Era o dinheiro mais mole que ela ganhava, raramente havia algo para se limpar.

Aos treze anos Gardênia teve que ir para um colégio estadual. Seus pais estavam falidos e viviam de aparências. Disseram para os vizinhos que era uma punição a menina, por ter repetido de ano, mas ambos sabiam que as notas de Gardênia eram impecáveis.

– Mamãe teve que mentir porquê os vizinhos vão ficar falando.

Os vizinhos sempre falam.

Achavam estranho que Léa fosse a única amiga de Gardênia. Léa tinha aparência mais machudinha apesar de magérrima. Branca leitosa com cabelos negros, tinha um jeito engraçado de sorrir. Os vizinhos falavam da estranha amizade das duas, os vizinhos falavam sobre mutias coisas mas nem o pai nem a mãe de Gardênia estavam lá.

– Trouxe maconha – diz Léa. Era quinta-feira, Gardênia já pôs o lixo para fora – eu vi sua mãe de novo com o Fabiano.

– O professor da academia – dizia Gardênia, acedendo o baseado com alguma pressa. Fora um dia complicado – meus pais vão acabar se separando. Vai ser um inferno, porque eu sei que o pai também tá com as namoradas. Minha mãe é assim, fiel apenas ao amante. Mas quando descobrir eu tenho medo que se matem.

– Complicado.

– Eu queria sumir. Sinto que eu atrapalho a eles. Minha mãe me teve velha já tinha quase seus quarenta. Achei que seria a dádiva deles, mas não sabiam que eu iria estragar aquele casamento tão perfeito. Agora eu sinto que eles me evitam – o baseado brilha na boca da menina – eu sinto que fui eu quem botou tudo isso a perder. Quando pai foi demitido, quando entraram em uma crise, quando minha mãe começou a sair e não voltar para casa…

– Complicado.

Léa se aproxima de Gardênia. Elas estão deitadas na mesma cama olhando para o teto.

– Quer fazer uma loucura? – diz Gardênia.

Léa nada diz.

Gardênia sai do quarto e desaparece no corredor. Léa olha para aquele quarto de menina, olha para aquele ambiente infantil. Gardênia não parece nada com o que os pais acreditam que seja. Gardênia é uma bomba relógio.

– Complicado – diz Léa para si mesma.

Gardênia reaparece com um pequeno embrulho nas mãos. Ela parece tremer. Léa observa os olhos arregalados da menina e o sorriso temente nos lábios.

– O que é isso? – Gardênia sem dizer mostra o revólver prateado do pai – que porra é esta Gardênia!?

– É do meu pai. Ele comprou isso quando tava devendo uns agiotas. Vamos brincar assim – a menina com alguma habilidade abre o tambor e põe uma única bala e depois gira – vamos ver se teremos mais uma chance nas nossas vidas. Eu disparo uma vez e você dispara uma vez.

Léa fica silente.

Gardênia gira o tambor. O barulho da pequena catraca é a única coisa que ecoa naquele bairro inteiro. São 23:39. Ela repousa o revólver na têmpora. Sua boca fica seca suas mãos tremem. Ela não sabe se tem coragem para puxar o gatilho. As mãos tremem, o suor brota em sua tés.

– Não faça isso Gardênia. Abaixa a arma – Léa diz, mas com uma vontade de ver o final daquilo – não faça isso. Você pode morrer aqui e me encrencar. Não faça isso.

Os olhos de Gardênia eram dois pontinhos no escuro.

O brilho prateado do revolver reluzia mesmo na completa escuridão daquelas almas.

O “click” ecoou na noite. Entre cães e gatos silentes.

– Sua vez – a morte estava estampada nos olhos de Gardênia.

Léa tomou para si o revólver. Girou o tambor e num movimento maquinal apontou para a própria fronte e apertou o gatilho.

“Click”

– Não é a primeira vez que eu quase morro – Diz Léa.

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